O termo “Engenharia Financeira” é dos mais perversos que surgiu no vocabulário corrente no mundo dos negócios, porque a sua prática baseia-se no oposto do que é a engenharia.

A engenharia é o campo de atividade que transpõe os conhecimentos científicos para a utilização corrente do ser humano, e, para isso, tem de ser fiável, segura e perene.

A “Engenharia Financeira” é a forma de “construir” sem ter as garantias da solidez e perenidade das estruturas que a sustentam. Daí o risco de colapso e de implosão dos sistemas que concebe. Risco que a prática tem demonstrado ser incontrolável.

Esta última “Engenharia” tem tido o protagonismo quase exclusivo em termos de gestão, sendo disso reflexo a fraca participação de profissionais de Engenharia nos órgãos decisores ou mesmo na sua assessoria, seja na atividade privada, seja na pública. (1)

Esta forma estrutural, para além da falta de conhecimento e de apoio técnico nas decisões, conduz principalmente a uma deformação cultural no corpo decisor, tendo como consequência a avaliação de resultados no imediato e no que é estrito ao seu “quintal”.

Esta realidade produz a antítese do que se pretende quando pensamos em sustentabilidade. Julgo que a fraca adesão no nosso país às certificações de sustentabilidade, como, por exemplo, o LEED, se deve às exigências de uma visão alargada do objeto a construir, com intervenção multidisciplinar das engenharias e das arquiteturas, de modo a relacionar de forma harmoniosa e sustentável, com as atividades que nele se desenvolverão e com tudo o que o envolve, no sentido mais lato (clima, mobilidade, conforto, economia, urbanismo, etc.).

Ora, isto só se consegue com uma participação forte dos profissionais das engenharias e arquiteturas (o plural na arquitetura é a pensar especialmente no paisagismo como especialidade globalizante e imprescindível ao bem-estar humano), e não se ficar confinado aos financeiros, economistas, e juristas, nos órgãos de decisão.

Esta deformação faz-se sentir tanto na atividade privada, como na pública, e também em grande escala na da política.

É nossa obrigação – das Ordens, associações profissionais e de atividades na área de Engenharia – denunciar a grave lacuna na omissão da cultura do saber tecnológico nos órgãos de gestão e lutar pelo seu preenchimento.

Hoje em dia, fala-se muito em quotas de género na constituição dos órgãos de gestão e até nos de soberania. Seria interessante começarmos a analisar as cotas exageradamente altas naqueles órgãos de profissionais com total ausência de conhecimentos técnicos e de mentalidade, que não sejam subservientes a aspetos do imediatismo económico e financeiro.

As novas universidades são um reflexo disso, ao priorizarem a formação nas áreas de economia e finanças (publicitando nestas áreas 100 % de empregabilidade) e não integrando currículos com forte componente das Engenharias. (2)

Aprofundar a transversalidade das diversas especialidades nas equipas de projeto e consultoria é uma necessidade. Mas, sem uma correção nos profundos desequilíbrios das especialidades envolvidas nos órgãos de gestão, não se consegue atingir os objetivos pretendidos em termos de sustentabilidade.

(1) É curioso verificar que, no órgão de soberania mais representativo da Democracia, que é o Parlamento (no nosso caso, Assembleia da República), os nossos representantes sejam cidadãos cuja representatividade do espetro profissional e de formação nada tem a ver com o conjunto da população, nem com ligações às necessidades mais prementes da nossa sociedade.

(2) Por curiosidade, fui ver a constituição dos currículos da nova universidade, apontada como modelo, recentemente inaugurada em Carcavelos, NOVA School of Business & Economics. A ausência de matérias ligadas a uma cultura de sustentabilidade é total.

As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Edifícios e Energia.