2017-06-07
Em Portugal, o mercado das bombas está “desregulado”
Filipa Cardoso

A smart pump Stratos é uma das grandes novidades das Bombas Wilo para este ano. Bruno Oliveira é o responsável pela marca alemã em Portugal, onde tem uma quota que ronda os 4,5 %, e, em entrevista à Edifícios e Energia, adianta que as expectativas para o mercado nacional são de que este continue a crescer, embora seja necessário uma maior regulação do sector.

 

Qual a principal novidade da Wilo para este ano e que levou, em Março, à feira ISH Frankfurt?

A inovação ao nível das smart pumps. Isto é, tudo o que diz respeito à tecnologia de interface com o operador ou com a pessoa que está a fazer a programação ou manuseamento da bomba. Em vez de essa pessoa ter de ter uma formação mais forte no que diz respeito à componente técnica, as bombas são muito mais intuitivas. As novidades que a Wilo apresenta permitem que, em vez de ser o operador a fazer a programação, sejam as próprias bombas a dar indicações de quais os passos seguintes.

 

De forma a serem mais amigas do utilizador?

Exactamente. Esta é uma das grandes inovações, mas não só. Hoje, o que se vê no mercado são bombas que fazem medições de caudal e de temperatura através de cálculos. A maior parte delas não tem sensores que meçam parâmetros em tempo real. Neste momento, estamos a avançar com a nossa nova Stratos, que tem sensores de temperatura, de caudal, o que permite que os dados que estamos a ver sejam dados reais. O erro é muito menor. Esse é um dos exemplos, para além de todas as outras bombas de elevada eficiência.

 

Como espera que seja a aceitação em Portugal destas novas funcionalidades?

Portugal é um caso sui generis. Enquanto, na parte central da Europa, as pessoas, as empresas e os instaladores vêem a tecnologia com bons olhos e estão mais receptivos à mudança e a adquirir um produto novo, em Portugal, isso é mais difícil, porque as pessoas têm muita resistência à mudança. É difícil fazer passar a mensagem ao cliente final, por exemplo, de que a bomba é diferente, é mais eficiente, tem mais tecnologia, mas que, para isso, tem de se pagar um custo adicional.

 

Terá a ver com o facto de os custos ainda pesarem muito?

Não tanto. Infelizmente, o que se vê em Portugal é que as pessoas não vêem no longo prazo. Nós estamos constantemente a fazer acções de formação, em seminários, para mostrar que, embora o custo seja mais alto inicialmente, a longo termo, vai acabar por compensar e há casos em que a poupança feita no longo prazo permite adquirir uma bomba nova no final do ciclo de vida do produto, por exemplo. Mesmo assim, é muito difícil. É uma questão cultural que é ainda difícil. Aquilo que prevejo é que a penetração no mercado destas novas  bombas de alta eficiência e de alta tecnologia seja difícil, mas estamos cá para isso.

 

Já têm acções previstas para apresentar esta nova gama?

A novidade foi lançada em Março, ninguém no mercado sabia. Só agora é que podemos começar a fazer demarches em Portugal. Já temos “autorização” para divulgar estes novos produtos e, como é óbvio, vamos também fazer a disseminação em Portugal através de seminários, conferências e acções de formação sobre estas novas tecnologias ao longo do ano.

 

Na sua perspectiva, como tem evoluído o mercado nacional das bombas? Sentiu melhorias em 2016?

O mercado está a melhorar a todos os níveis. Nota-se que o efeito da crise estancou, estagnou. Há uma melhoria. Agora, no sector das bombas, o que sinto é que, embora exista legislação, o mercado está desregulado. Não há uma fiscalização eficiente, em que as empresas ou o sector sigam as regras estabelecidas na lei.

 

Como é que isso se reflecte nas instalações?

Por vezes, há abertura para que essas empresas coloquem produtos que talvez não sejam os mais adequados e que talvez não cumpram com as directivas impostas pelas entidades competentes no que diz respeito ao cumprimento da regulamentação técnica.

 

Isso é uma situação comum a outros países na Europa?

É característico no nosso país. A norma existente, a ErP, foi implementada na Europa, porque a questão da eficiência faz todo o sentido e nos mercados do centro da Europa funciona. Não há possibilidade de desenvolver ou implementar projectos em que os produtos não cumpram com esses requisitos. Em Portugal, não é bem assim...

 

Também em resultado da falta de fiscalização que referiu?

E não só. Há um certo facilitismo que dá abertura a que estas situações ocorram.

 

A Wilo tem sido prejudicada com isso?

Tem, porque a Wilo fornece bombas de alta eficiência em conformidade com a norma. A partir do momento em que a norma foi imposta, nós não vendemos circuladores sem ser de alta eficiência, porque somos obrigados a isso. A regulamentação europeia foi transposta para Portugal, logo, somos obrigados também a fazê-lo. O que verificamos é que há circuladores que são postos à venda no mercado e adquiridos que não cumprem essas normas. É uma concorrência desleal, como é óbvio, o nosso volume de vendas é prejudicado por essa situação.

 

Quais são as desvantagens para um cliente que opte por um desses sistemas menos eficientes?

As consequências para o cliente final são graves. Para já, não há estudos feitos sobre a ineficiência, não sabemos se vai prejudicar em 10, 20, 30 % ou mais. A longo prazo, há que ter em conta os custos da electricidade crescentes, os custos de instalações menos eficientes, as eventuais multas aplicadas quando há auditorias aos edifícios e instalações, etc. Tudo isto a somar, o cliente vai pagar uma factura muito cara.

 

A manutenção também é afectada?

Nesse aspecto, já não podemos falar assim, porque um produto ou circulador avaria ou não avaria, independentemente de ser de alta eficiência ou não. A Wilo é uma marca que preza pela qualidade e há concorrentes que também o fazem. Há outros que não vão tão pela qualidade e apostam mais no baixo custo. É uma estratégia das empresas. As marcas que vendem esses produtos assumem que os seus produtos têm menos qualidade por isso é que conseguem reduzir o preço. Mas isso já é uma relação custo-benefício pela qual os clientes têm de optar. No caso da Wilo, prezamos pela qualidade e os nossos produtos são mais caros, mas também têm mais qualidade.

 

Quais os sectores nos quais há mais potencial?

Na área dos edifícios, da eficiência energética. A Wilo é muito forte no “building services” e, em Portugal, se a estratégia de eficiência energética que está a ser promovida pelo Governo for bem implementada e se as directivas continuarem a ser seguidas e cumpridas, este é um sector muito forte, no qual nós temos possibilidade de crescer.

 

Como a Wilo, casa-mãe, olha para o mercado português? Sabemos que é um mercado pequeno...

É um mercado pequeno. Só para fazer uma analogia, daqui a três anos, tudo indica que a Wilo, a nível global, irá ter um volume de facturação na ordem dos dois mil milhões de euros. Em Portugal, temos uma facturação na ordem dos três milhões, o que, comparativamente, como é óbvio, tem pouca expressão. No entanto, a casa-mãe continua a apostar muito forte em Portugal, tanto que a nossa estrutura está a crescer. Mudámos de instalações em Lisboa recentemente, para termos mais capacidade ao nível Comercial, Service e incorporação de novos elementos na equipa.

 

Mas estão também no Norte, certo?

A nossa sede é no Porto, na Maia, mas temos uma filial em Lisboa, onde estou neste momento, e decidimos mudar de escritórios para poder criar condições e termos mais capacidade de resposta no Centro e Sul de Portugal. Isto foi uma estratégia da Wilo central, portanto, a Wilo, casa-mãe, embora tenha noção dos números que Portugal consegue obter, mesmo assim não descura e continua a apostar nesse mercado. A equipa cresceu e deverá continuar a crescer agora em 2017, esse é um sinal muito positivo que a casa-mãe nos dá a nós, Wilo Portugal. 

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