2017-07-03
Videira: “Marcar pela qualidade”
Filipa Cardoso

Nasceu em 1982, como uma empresa familiar. Hoje, a fabricante de termoacumuladores e depósitos Videira regista um volume de negócios anual de 15 milhões de euros e é uma das principais referências nacionais nesta área. Carlos Rocha, director desta empresa nacional, contou à Edifícios e Energia o percurso da marca e como esta foi ganhando o seu espaço no mercado global.

 

 

Como a Videira chegou ao que é hoje?

A Videira começou como uma empresa familiar, fundada em 1982, já com o propósito de fabricar termoacumuladores. Na altura, era apenas o meu pai e três irmãos mais velhos. Antes disso, o meu pai tinha já trabalhado numa empresa semelhante, a fazer o mesmo, mas evoluiu no sentido da qualidade, o que, na altura, não era prática neste sector. Optou, também, por adoptar alguns processos pouco usados à data, nomeadamente o isolamento térmico. Fomos o primeiro fabricante nacional a utilizar o poliuretano, que ainda hoje é utilizado como meio de isolamento térmico. Utilizamos também matérias-primas e componentes de alta qualidade que fomos buscar a referências de outros fabricantes europeus. Com isto, fomos marcando sempre alguma diferença ao nível dos concorrentes locais. O mercado, na altura, era praticamente o mercado nacional. Também fomos a primeira empresa a certificar o produto em termos de qualidade e segurança  em Portugal. O primeiro fabricante de termoacumuladores a ter certificação ISO 9001 também.

 

Quando começaram a pensar na internacionalização?

Até ao ano 2000, estávamos focados no mercado nacional. Daí em diante, tivemos um parceiro na Irlanda, ainda a usar o cobre e que nos levou para o mercado da exportação com algum peso.

 

Não foi uma motivação interna, foi um convite exterior?

Foi uma ligação que tínhamos com um cliente com quem fazíamos alguma exportação incipiente, e foi ele que veio ter connosco, realmente, não fomos nós que fomos até ele. A primeira experiência de escala foi em 2000 e, até 2007, mantivemos uma componente muito forte na área da exportação, mas ainda no cobre. Em 2006, houve um aumento muito considerável no preço dessa matéria-prima e o nosso produto deixou de ser competitivo no mercado externo. No mercado nacional, continuou a haver vendas, mas toda a gente sofreu um corte nas margens, as quantidades diminuíram e, aí, nós optámos por lançar a gama de aço inoxidável, tanto no mercado externo como no mercado nacional. Começámos em 2007.

 

Quantas empresas, a nível nacional, actuam na mesma área que vocês?

Com alguma notoriedade, existem uns quatro, cinco players, no máximo, que estão presentes no mercado nacional enquanto fabricantes nacionais. Todos na zona Norte. Nós não fomos os primeiros a entrar no aço inoxidável, já havia alguns players nesse mercado, mas, quando entrámos, fizêmo-lo também com alguma força, porque começámos a exportar a gama de aço inoxidável para Inglaterra e para a Irlanda. Marcámos realmente uma posição no mercado nacional, porque tínhamos um produto de muita qualidade e que fazia jus à reputação da Videira.

 

Quais são as principais diferenças entre usar o cobre e usar o aço inoxidável?

O aço inoxidável tem uma resistência que será mais transversal às águas, enquanto o cobre é mais selectivo, ou seja, para certas regiões, o cobre é um produto excelente, que dura 25/30 anos, sem qualquer tipo de problema, mas tem as suas sensibilidades a alguns tipos de água. O aço inoxidável, acaba por ser mais transversal, ou seja, é menos sensível. Hoje, podemos comparar o cobre e o inox como dois bons produtos que concorrem, às vezes, com o vitrificado. O aço inoxidável e o cobre, como produtos premium, são concebidos normalmente para não terem manutenção, portanto é essa a principal diferença relativamente ao vitrificado. O aço inoxidável também tem um preço muito mais competitivo. Quando a Videira decidiu entrar no aço inoxidável, foram três os motivos: o preço, o querer aumentar a oferta aos clientes e uma maior aceitação do aço inoxidável para a exportação. O cobre não é um produto que se venda muito no exterior, pois há muito poucos países a utilizar o cobre como a solução para aquecimento de águas e, como já estávamos virados para a exportação,  este seria, sem dúvida, muito mais bem aceite e acabou por demonstrar isso mesmo.

Como é que tem sido esta aventura além-fronteiras?

Estamos muito satisfeitos, evoluímos bastante. A empresa já atingiu uma dimensão em que começámos a concorrer com alguns dos maiores players a nível europeu e já estamos a disputar clientes num top3, o que nos dá bastante satisfação. Temos conquistado alguns clientes com alguma notoriedade, nomeadamente no mercado OEM, em que os clientes acabam por ser muito exigentes, ao nível da qualidade. A Videira, felizmente, tem conseguido trabalhar com alguns clientes OEM de alguma referência, marcas até bastante conhecidas. A empresa, entretanto, “subiu de escalão”, e, desde que entrámos no aço inoxidável, triplicámos as vendas, as unidades produzidas quase multiplicado por cinco.

 

Consegue dar-me um número de quantas unidades produzem por ano?

Em 2016, foram 45 mil unidades.

 

Tudo feito em Portugal?

Sim e com uma grande incorporação de materiais e componentes feitos dentro de portas. Uma das nossas maiores forças é precisamente a flexibilidade que oferecemos ao cliente e a consistência da qualidade. Para isso, recorremos a processos internos. Fabricamos as nossas serpentinas, temos a nossa prensa, os nossos moldes de estampagem e, inclusive, damos formação, os soldadores são formados por nós. Nós temos, continuamente, formação de soldadores para podermos, realmente, oferecer consistência na qualidade que vendemos.

 

Para que mercados/países estão a apontar?

Inglaterra é o nosso mercado número um, onde vendemos mais peças. Inglaterra, Irlanda, Portugal e, depois, Polónia e Holanda. São esses os nossos principais mercados, depois temos vendas, não com tanta regularidade, para a Austrália e Médio Oriente, Bélgica e estamos a iniciar, agora, o mercado espanhol. Temos o nosso próprio comercial, que é um espanhol. Fizemos a concepção do produto, adaptado às especificações de Espanha, e estamos, desde Janeiro, a tentar afirmarmo-nos neste mercado.

 

Como viveram estes últimos anos mais duros, pelo menos, a nível nacional?

No nosso caso, felizmente tivemos, a partir de 2008, alguns efeitos que contrariaram a crise, tanto que, desde essa altura, não houve nenhum ano [em] que não crescêssemos. Na altura, houve a Medida Solar Térmica, em 2009/2010, que nos deu ali um grande boost na produção de depósitos, e, depois, em 2011, foi quando entrámos com uma grande parceria no mercado irlandês e inglês e demos realmente um salto considerável nas exportações. Ou seja, acabámos por passar um pouco ao lado da crise. Esses anos de crise coincidiram com a fase em que a empresa passou de uma facturação na ordem dos quatro milhões de euros, em 2008, e fechou 2016 com 15 milhões.

 

Estiveram, pela primeira vez na ISH, em Frankfurt, em Março. Qual foi a motivação?

Em primeiro, dar a conhecer a Videira a mercados [em] que ainda não está presente e obviamente tentar captar o máximo de oportunidades nesses países e reforçar um pouco a nossa imagem. Como fabricantes, infelizmente, ainda lutamos com o estigma de ser português. Ou seja, temos falta de imagem de produto de qualidade e, muitas vezes, somos vistos como ‘país do Sul da Europa’ e levamos logo com o preconceito de que é uma empresa de ‘qualidade duvidosa’. Lutamos muito contra isso.

 

Como?

Normalmente, quando está a competir com alguns players do Norte da Europa e da Europa Central, tem de se ser melhor. Porque se for igual, perdemos. A feira foi uma aposta da Videira, precisamente para solidificar a imagem de qualidade, para que comecem a acreditar que em Portugal também se faz bem e que somos competitivos.

 

Qual foi a novidade que tiveram em destaque na ISH?

A novidade foi um equipamento que inclui uma mistura de um isolamento térmico tradicional com um isolamento muito pouco utilizado, com o qual conseguimos obter classe A em termos de eficiência energética. A nível de perdas, conseguimos produzir um depósito com as dimensões normais e com um consumo cerca de 25 % inferior ao normal. Portanto, isto é uma novidade, está disponível agora no mercado português. Mais uma vez, vamos ter de lutar com a pressão dos preços, mas penso que, para um cliente que procura servir bem o seu cliente final, temos um produto à altura. Para além disso também apresentámos a gama de Duplex 2205, que é extremamente resistente à corrosão, para casos particulares ou de usos intensivos, e a gama de termoacumuladores com permutadores para trabalhar com bombas de calor.

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