2018-03-06
Editorial: Uma fragilidade positiva
Rita Ascenso

Começamos mais um ano e, como de costume, se quisermos fazer um balanço do ano anterior ou antever o que se vai passar a partir de agora, nada é igual. Todos os anos, as nossas expectativas são diferentes.

 

Nota de Abertura da revista Edifícios e Energia 115, de Janeiro/Fevereiro de 2018. Para saber mais sobre esta edição, clique aqui.



Olhamos para trás e, nesta mesma altura, não imaginávamos que 2017 seria um ano tão positivo em vários domínios. Já vínhamos embalados, mas ainda carregados de muito pessimismo. Não era para menos, mas os resultados superaram-nos. A fasquia era baixa, sim, e a conjuntura deu uma forte ajuda, também. Fartos de recessão, com um Governo optimista, um país que deve ter ganho todos os prémios que havia para ganhar e um turismo que rebentou por todos os lados foram algumas coisas boas. Baixámos o défice, as exportações aumentaram na ordem dos 4 % e devemos fechar o ano com um crescimento económico a rondar os 3 % em relação ao ano anterior.

Nos edifícios e segundo dados do INE de Dezembro, no terceiro trimestre de 2017, os edifícios licenciados aumentaram 6,7 % face ao período homólogo, correspondendo a 4,5 mil edifícios. Nos edifícios licenciados para construções novas, registou-se um acréscimo de 14,7 %. No entanto e quanto ao licenciamento para reabilitação registou-se uma diminuição de 5,4 %. Ainda há muito para reabilitar e esse problema poderá vir só mais tarde.

A economia está viva e a criar emprego, como apregoa o Executivo (eu diria trabalho). Estes dados ajudam-nos a olhar com satisfação para a frente. Sem quereremos ser pessimistas, neste início de ano, existem algumas reflexões e cautelas que são necessárias. Desde logo, mais alguns dados: as importações subiram o triplo das exportações, ou seja, continuamos a gastar aquilo que não temos, agravado pelo nível de endividamento no crédito à habitação que está a voltar a valores proibidos. O Governo já cumpriu quase todas as medidas que anunciou e “aprovou” com os partidos que o apoiam. Eram 1100 e a taxa de execução está nos 80 %. O que é que isto quer dizer? Que ainda falta metade da legislatura e podemos ter dois problemas: precisamos de mais medidas e de uma estratégia para os próximos anos. E da boa vontade dos partidos da esquerda daqui para a frente.


É bom que o Governo se concentre na dinamização da economia. Nesta altura em que tudo corre bem, é uma tentação ficar quieto em cima do pódio e deixar a economia a andar sem incomodar o BE ou o PCP. É também uma tentação ficarmos deslumbrados com o cadeirão do Eurogrupo, a achar que estamos a gerir alguma coisa na Europa. Sucede que os confrontos cá em Portugal vão existir inevitavelmente. Seja pelos camarões que se pagam com dinheiro do Instituto da Segurança Social, seja pelas horas que o ministro das Finanças está em Bruxelas e não no Terreiro do Paço. O estado de graça de António Costa já terminou e, na Europa, já sabemos quem manda e quem fica calado.

Uma última reflexão: as taxas de juro vão subir, mesmo que não se saiba quando. E, nessa altura, a classe média vai abanar. Este crescimento não é estrutural se olharmos para o endividamento do país. Estado, famílias e empresas continuam a aumentar o seu endividamento em relação ao exterior de forma galopante. É aqui que precisamos de mão forte. Inverter esta tendência passa por ter coragem e fazer as reformas necessárias na Administração Pública, criar estratégias para aumentar o investimento e olhar para as cidades e para a habitação. Não há casas para arrendar e os preços de compra estão totalmente desajustados às nossas possibilidades. Como sempre, a classe média é a principal vítima.


Iniciamos 2018 com a sensação de que estamos presos com pinças e de que nada é sólido ou robusto. O país, a economia, o investimento, a engenharia, a arquitectura, as intervenções que se têm feito nos edifícios... Todos têm em comum uma palavra: fragilidade. 2017 foi um ano bom, mas de uma enorme fragilidade. Não é uma boa sensação para iniciar o ano mas será que poderia ser outra? Uma coisa é certa: estamos melhor hoje do que estávamos a esta mesma hora há um ano. E isso, todos sabemos. E isso é uma coisa boa.

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