2017-06-02
Com os EUA fora, qual é a oportunidade para o resto do mundo?
Filipa Cardoso

Donald Trump anunciou ontem que os Estados Unidos da América (EUA) vão mesmo abandonar o Acordo de Paris e que o regresso está dependente de uma negociação “mais favorável” ao país. As reacções não se fizeram esperar, com as nações do mundo a reafirmarem a sua posição a favor do tratado. Pode esta ser uma oportunidade para o resto do mundo se unir à volta do compromisso pelo planeta?

 

A declaração mais impactante veio do novo chefe de Estado francês, Emmanuel Macron. “Tornar o nosso planeta grande outra vez” foi a expressão usada por Macron, numa alusão aquele que é o slogan da actual presidência norte-americana (“tornar a América grande outra vez”), e deixando ainda uma mensagem directa aos EUA: “Quero dizer aos EUA que a França acredita em vocês. O mundo acredita em vocês. Sei que são uma grande nação”.

 

Macron abriu ainda “as portas” da França a todos aqueles que queiram contribuir para esta missão e “responsabilidade partilhada”, convidando “todos os cientistas, engenheiros, empreendedores e cidadãos responsáveis que estão decepcionados pela decisão do presidente dos EUA”. ”[A todos esses] Quero dizer que vão encontrar na França uma segunda casa. Convido-os a virem e trabalharem aqui connosco em soluções para o nosso clima, o nosso ambiente”, afirmou.

 

Para os líderes europeus, renegociar o Acordo está fora de questão. Numa declaração conjunta, França, Alemanha e Itália responderam a Trump, dizendo que tal “não pode acontecer, uma vez que este é um instrumento vital para o nosso planeta, sociedades e economias”.

 

Historicamente "apaixonados" pelos combustíveis fósseis, os EUA nunca tomaram a liderança na batalha pelo clima, mas a rejeição do Acordo traz muitos motivos de preocupação, mais não seja porque o país é segundo maior emissor de gases com efeito de estufa a nível mundial. A estratégia da administração anterior, liderada por Barack Obama, trouxe algumas expectativas de inverter esta trajectória. Agora, o passo atrás dado pelo presidente republicano coloca a pressão sobre a Europa e a China para que assumam a liderança nesta matéria. E o desafio parece ter sido aceite. Segundo o The Guardian, a chanceler alemã, Angela Merkel, considerou a decisão norte-americana “extremamente lamentável”, acrescentando que Trump “não pode e não vai impedir-nos a todos de nos sentirmos obrigados a proteger o planeta”. Por sua vez e de acordo com a mesma fonte, Li Keqiang, primeiro-ministro chinês, que está esta sexta-feira em Bruxelas para a cimeira UE-China, afirmou que “não há marcha atrás para a transição energética. Não há volta atrás do Acordo de Paris”. Li Keqiang acrescentou ainda: “O futuro da China e da Europa vai ser brilhante e esplêndido”.

 

Por todo o mundo, incluindo em solo norte-americano, alguns dos principais monumentos foram iluminados por um luz verde, em sinal de apoio ao Acordo de Paris. Em Nova Iorque, por exemplo, o pináculo do edifício One World Trade Centre e o edifício da câmara municipal foram alguns dos locais que aderiram à manifestação de apoio. Andrew Cuomo, governador do estado de Nova Iorque, tweetou “Mundo: o Empire State está convosco. Nova Iorque brilha em verde pelo nosso planeta, a nossa saúde e o futuro das nossas crianças”.

 

Mas podem os EUA abandonar assim o tratado? Apesar do anúncio, sair do Acordo de Paris pode não ser tão rápido como Trump quer fazer parecer. Isto porque as condições do compromisso determinam que uma nação só pode comunicar oficialmente a sua intenção de sair em Novembro de 2019, três anos depois do Acordo ter entrado em vigor. A partir daí, demorará ainda um ano até à conclusão do processo, findando esse prazo um dia após a eleição para o próximo presidente dos EUA (4 de Novembro de 2020).

 

No sítio on-line da Casa Branca, a decisão de Trump é defendida como “mais um exemplo do compromisso do presidente em colocar a América e os seus trabalhadores em primeiro lugar”. O portal refere ainda que “o Acordo de Paris mina a competitividade e a criação de emprego nos EUA, criou um fundo climático das Nações Unidas financiado pelos contribuintes, foi mal negociado pela administração Obama” e que, no ano 2100, o seu impacto no clima vai ser “insignificante”.

 

Em comunicado, a administração diz que Trump explicou a decisão pessoalmente, por telefone, a outros líderes mundiais, nomeadamente Angela Merkel, Emmanuel Macron, Justin Trudeau (Canadá) e Theresa May (Reino Unido), agradecendo-lhes as conversações “francas e substanciais” que tiveram sobre o tema nestes primeiros meses da sua presidência. Donald Trump garantiu ainda que os EUA continuam empenhados “na aliança Transatlântica e em reforçar os esforços para proteger o ambiente” e que, enquanto for presidente, os EUA “serão o país mais limpo e amigo do ambiente do planeta”.

 

O Acordo de Paris foi assinado em Dezembro de 2015 e visa limitar o aumento da temperatura global do planeta a 1,5º C, através da redução das emissões de gases com efeito de estufa. O compromisso não impõe nenhuma meta específica aos países, apelando a que cada nação faça os seus esforços para a redução de emissões. Num compromisso sem precedentes, o Acordo foi assinado por 195 países e já foi ratificado por 147, incluindo Portugal.

 

 

Foto: @ NASA

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