2017-05-12
“O problema maior está nos comportamentos”
Rita Ascenso

O SUCH (Serviço de Utilização Comum dos Hospitais) é, tipicamente, a entidade que, há décadas, apoia o Estado na prestação de vários serviços, incluindo a manutenção das instalações. Uma conversa com Paulo Sousa, presidente do Conselho de Administração, sobre o estado actual dos nossos hospitais e do seu ambiente interior.

 

 

Um relatório muito recente do Ministério da Saúde aponta para mais de dez mortes por dia associadas a infecções hospitalares. Um número assustador...

É uma grande preocupação que existe na Europa e em Portugal. A Direcção-Geral da Saúde (DGS) tem um programa para o controlo e prevenção da infecção hospitalar e um protocolo connosco nessa matéria, nomeadamente no âmbito dos serviços que prestamos aos hospitais. Os edifícios hospitalares são cada vez mais fechados e menos arejados e mais intensamente utilizados. Há 28 anos, quando comecei a trabalhar num hospital com uma ordem religiosa residente, só no Verão, quando havia menos ocupação, é que era possível juntar homens e mulheres na mesma enfermaria para se fazerem as quarentenas: arejar e desinfectar o espaço, os colchões, as camas... Durava 15 dias! Este era um método que permitia – ou assim se pensava – prevenir infecções. Havia menos condições para estas se desenvolverem naquela altura também porque uma boa parte das infecções hospitalares vêm de bactérias e vírus multirresistentes, e que vão ficando cada vez mais resistentes como reacção ao excesso de medicamentos e antibióticos que todos nós tomamos. É um exagero o que se consome em toda a Europa. Isto faz com que se desenvolvam nos hospitais bactérias, fungos e vírus cada vez mais resistentes. Este é um facto conhecido há muitos anos e, hoje, os métodos inevitáveis de prevenção da infecção passam pela limpeza, a desinfecção das superfícies, uma adequada manutenção dos sistemas de ventilação, a substituição de filtros, o tratamento específico da roupa hospitalar, a remoção dos resíduos em contentores cada vez mais herméticos... E depois há uma boa quantidade de procedimentos obrigatórios e boas práticas que têm a ver com a área clínica e estão do lado do pessoal médico, da enfermagem, assistentes e restantes funcionários. E até mesmo da comunidade, de quem vai visitar os doentes aos hospitais. Tudo isto é um processo muito complexo de implementar mas que se tem vindo a desenvolver a um ritmo crescente e gradualmente mais consciente por todos.

 

A parte orçamental deve ser um factor crítico. O investimento nessa área tem aumentado?

O investimento que se faz na manutenção e conservação das instalações tem crescido. Os hospitais estão cada vez mais capacitados para dar resposta a estas boas práticas. Diria que o problema maior está nos comportamentos, tanto dos profissionais que trabalham no hospital como dos próprios doentes. Começando pela base, o excesso de procura aos hospitais é um enorme erro. Quando não recorremos a um centro de saúde, que é uma instalação menos propícia a contaminações, e optamos por um hospital para tratar uma gripe, estamos a correr riscos desnecessários. Porque achamos que uma urgência está capacitada para mais bem tratar o nosso problema. O que não sabemos é que nos estamos a expor a um problema muito maior. Podemos cruzar-nos com um destes “malfeitores” e sair pior do que entrámos. Temos de reduzir esta intrusão. Depois, vem o cumprimento efectivo dos procedimentos e as boas práticas do pessoal que trabalha nos hospitais. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e as várias congéneres da DGS já conseguiram padronizar na Europa o registo estatístico da infecção hospitalar e o registo da incidência e prevalência da infecção. São agora de notificação obrigatória. Começamos a ter, desde há dois ou três anos, números fiáveis de comparação do que se passa na Europa. Havia um vazio quanto a esta matéria, dado que cada país adoptava um critério distinto.

 

E como estamos?

Antes desta padronização, não havia informação fiável mas estima-se que tínhamos um dos últimos lugares da tabela. Estávamos entre os mais perigosos. A França destaca-se porque fez um investimento muito forte há dez anos na prevenção e na educação com regras muito apertadas, nomeadamente com procedimentos e formação obrigatória. É o país que tem uma das mais baixas taxas de prevalência de infecção, conforme é referido no último relatório do ECDC de 2012. O próximo inquérito europeu será realizado de 17 de Maio a 2 de Junho de 2017. Esta é uma matéria que tem preocupado os últimos ministros da Saúde, incluindo o actual.

 

Existem hospitais com maior incidência ou prevalência de infecções?

Sim, existem. Uns mais do que outros. O risco maior está nos blocos operatórios, nas Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) e neonatologias, onde há cuidados especiais e as pessoas estão mais debilitadas e expostas. É onde o controlo tem de ser muito mais rigoroso. O maior investimento está aí.

 

Nesses espaços, a renovação e controlo da qualidade do ar são críticos...

Nesses espaços, é fundamental que existam avaliações no ar de parâmetros químicos, microbiológicos e físicos. Nós fazemos essas avaliações, bem como as fazemos em superfícies e águas, em várias instalações hospitalares.

 

Sempre nas instalações públicas do Estado?

Temos também feito vários trabalhos no sector privado, mas o substancial está no público.

 

Sente que há diferenças de investimento entre o público e o privado?

É quase a mesma coisa, embora as necessidades do privado ainda não sejam tão grandes, porque os edifícios são genericamente mais recentes. Mas a preocupação existe. Hoje, no Estado, temos instalações de blocos operatórios que já monitorizam alguns parâmetros da Qualidade do Ar Interior (QAI) em contínuo. Começa a ser uma prática comum.

 

Em contínuo?

Sim. O médico sabe como está a sala. Apenas as análises microbiológicas é que não são possíveis em contínuo porque precisam de tempo para a cultura e para o resultado. Essas têm de ser em diferido e têm de provar que a avaliação contínua está correcta. Mas já a temos. Em alguns hospitais, como por exemplo os IPO, as salas já têm equipamentos de controlo que disponibilizam automaticamente as condições de salubridade, através de análises rápidas que permitem tirar relatórios por acumulado. Basicamente é o que fazemos noutros blocos com recurso a equipas que lá permanecem durante uns tempos e que recolhem a informação.

 

O SUCH tem recursos próprios? Equipas próprias?

Temos profissionais nossos. Por vezes, subcontratamos alguns serviços, mas temos pessoal especializado para o controlo ambiental das unidades especiais e de outros espaços, sempre que se justifique. Nesta área, como noutras, o SUCH deve ser a entidade com mais equipamento de teste e experiência de profissionais.

 

Nos sistemas de AVAC também?

No AVAC e nestas unidades, medimos os parâmetros e a renovação do ar. Fazemos a limpeza e controlo da higiene das condutas, para as quais, por vezes, recorremos a terceiras entidades, e toda a manutenção dos sistemas de AVAC.

 

O plano de manutenção é feito pelos hospitais?

Depende do acordo e do compromisso. Alguns são integralmente feitos por nós e outros não. Sentimos existir uma grande preocupação, sobretudo no que tem a ver com infecções hospitalares. Temos hospitais que hoje, ao mínimo sinal de alarme, encerram unidades de bloco, enfermarias, neonatologias… Há uma grande cautela e os gestores hospitalares sentem esse risco e essa responsabilidade. Acho que está a faltar um choque de educação e formação! É o clique que falta.

 

E como poderia ser feito?

Se eu soubesse o segredo, registava a patente! Mas é um tema interessante, naquilo que sejam procedimentos e boas práticas físicas no sentido de serem aplicadas às instalações, aos equipamentos, à limpeza, à roupa, aos resíduos, à manutenção, às renovações do ar, à esterilização... Para aquilo que sejam os processos industriais não clínicos, existem as condições para prevenir e evitar a propagação das infecções. Mas, depois, temos as pessoas e a actividade clínica. Como já foram uniformizados os indicadores estatísticos, estou expectante para ver os resultados e perceber como nos estamos a comportar relativamente a Espanha, Holanda e Inglaterra, onde temos muitos indicadores comparáveis.

 

A tecnologia tem ajudado a uma maior qualidade?

Do ponto de vista da construção e da tecnologia, a indústria tem soluções muito boas porque permitem o reaproveitamento do ar de forma segura, o que ajuda ao conforto térmico, à QAI e à eficiência energética (EE). Onde acho que esta evolução não teve expressão é na área das condutas. Compramos equipamentos tecnologicamente muito avançados, mas as condutas, mesmo em construções novas, são as mesmas de há 20 anos. E com os mesmos problemas de há 20 anos.

 

Por vezes, o espaço dado às condutas é pequeno, o que não facilita a manutenção e limpeza…

Eu não tenho essa ideia. No geral, hoje, nos edifícios hospitalares, há mais espaço. Há hospitais recentes que têm pisos técnicos que não existiam antigamente. Temos muito bons projectos hospitalares. A questão não está apenas em chegar às condutas. Estes equipamentos já deviam ter um nível de eficiência que existe noutros equipamentos que foram evoluindo, de forma a deixarem de ser focos onde se alojam poeiras, bactérias...

 

Refere-se também aos materiais...

A limpeza é muito difícil de fazer e pouco eficiente quando se faz. A engenharia tem aqui uma área de evolução muito importante. É um ponto fraco. A cautela que se tem sobre as condutas é redobrada e isso reflecte-se na mudança de filtros porque as condutas são ”pouco inteligentes”.

 

Temos bons planos de manutenção nos hospitais?

De há dez anos para cá, a diferença no planeamento das intervenções é total. Podemos ter zonas degradadas e a precisar de intervenção mas, quando chegamos às áreas críticas de que já falámos, vemos um grande investimento que não temos visto noutras áreas. Embora haja alguma poupança, há já uma grande modernidade e qualidade.

 

Onde podemos ser melhores para além dos comportamentos? O que está por fazer?

O conforto, a estética e tudo aquilo que está envelhecido podia estar impecável. Havendo prioridades é diferente. Há algumas zonas do país que têm edifícios sem condicionamento de ar, por exemplo. Temos ainda hospitais a precisar de intervenção. Há ainda muito para fazer. O Hospital de Santa Maria, por exemplo, ainda não fez a remodelação integral. Mas falta pouco. Está a decorrer uma candidatura a um programa de eficiência energética [no âmbito do PO SEUR, candidaturas terminaram a 30 de Abril], com um valor envolvido na ordem dos 15 milhões de euros, feita pelo Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN) com a nossa colaboração e que, numa primeira fase de candidaturas, julgo encontrar-se bem posicionada.

 

 

Artigo originalmente publicado na edição 110 da revista Edifícios e Energia. Aqui com as devidas adaptações.

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