2018-03-29
O alumínio do futuro
Frederico Raposo*

É nos arredores de Bruxelas que o alumínio do futuro ganha forma. A Reynaers Aluminium, empresa belga, aposta tudo no desenvolvimento de novas soluções para o mercado de caixilharias de alumínio: janelas, fachadas e portas de correr. Para isso, incorpora tecnologia de ponta nos processos de criação e de projecto, com o objectivo de reduzir custos e aumentar os ganhos em eficiência energética. Hoje, a empresa usa a realidade virtual para poupar dinheiro aos clientes.

 

 

É em Duffel, a pouco mais de 30 quilómetros de Bruxelas, que encontramos a sede da Reynaers Aluminium, um dos especialistas mundiais em matéria de caixilharias de alumínio. Com um campus tecnológico que cobre uma área de 283 mil metros quadrados, é daqui que saem os mais recentes desenvolvimentos no que respeita ao isolamento térmico e às soluções arquitectónicas em alumínio. Foi no passado dia 10 de Novembro, uma sexta-feira pouco movimentada – como é hábito na Bélgica – que a Edifícios e Energia visitou este centro de pesquisa e desenvolvimento.

Hoje, a tecnologia utilizada é de ponta e o telhado do centro de logística está coberto por 10 mil painéis fotovoltaicos que asseguram 80 a 90 % de todas as necessidades energéticas do campus, mas nem sempre foi assim. Antes de tornar-se no gigante que é hoje, com um volume de negócios de 387 milhões de euros, a Reynaers foi, em tempos, um pequeno negócio. Foi em 1965: “Começou tudo numa garagem aqui ao lado”, conta Michel Van Put, Chief Marketing Officer da empresa. É, desde então, uma empresa familiar e, actualmente, metade dos seus administradores são ainda da família, incluindo a CEO, Martine Reynaers.


Durante a visita ao campus da empresa, a Edifícios e Energia ficou a saber que a fabricante belga incentiva modos de vida mais sustentáveis. Por exemplo, os trabalhadores recebem bicicletas para as suas deslocações trabalho-casa e, nos vastos jardins, com 50 mil metros quadrados, há abelhas a produzir mel. Este mel é, depois, vendido e as suas receitas destinam-se a apoiar causas sociais. Mas, curiosidades à parte, ali, o que importa é como se trabalha o alumínio.


“Não fazemos o produto, criamo-lo.”

 

O responsável pelo marketing da empresa belga trata de oferecer uma comparação curiosa, exemplificativa daquilo que acontece nas enormes instalações de Duffel: tal como no IKEA, empresa sueca de mobiliário doméstico, não é na empresa que o produto é montado, mas é lá que tudo é tratado por forma a permitir a montagem final.

 

A Reynaers desenvolve a tecnologia, as soluções que asseguram os isolamentos térmico e acústico das suas peças de alumínio. A receita de família é o thermal break utilizado nas caixilharias da empresa, isto é, a solução de plástico localizada entre os dois perfis de alumínio que compõem o produto – o exterior e o interior – e que assegura o isolamento contínuo e eficiente perante os elementos.

 

A qualidade do isolamento está dependente da largura dos elementos de plástico utilizados dentro da câmara criada pelos dois perfis de alumínio. Quanto mais largos forem as tiras de plástico, maior será o factor de isolamento. Estes elementos são constituídos por tiras de poliamida (polímeros de termoplástico) reforçadas com fibra de vidro.

 

“No fim de contas, não fazemos o produto, criamo-lo”, explica Van Put, que está na empresa há mais de 17 anos. Aqui, os clientes não são o consumidor final, mas as empresas e os serralheiros que vendem os produtos e serviços da Reynaers. É na Bélgica, mais particularmente no pequeno município de Duffel, que a pesquisa e o desenvolvimento acontecem. O resultado deste trabalho é, depois, exportado para todo o mundo.

 

A Reynaers não trabalha sozinha. São vários os parceiros da empresa belga associados à produção e montagem das várias soluções, inclusivamente em Portugal. A produção está na mão de vários especialistas e é precisamente por isso que existem vários centros de formação. Em Duffel, o centro de formação está dentro do edifício principal do campus. É aqui que é dada formação a instaladores e arquitectos, capaz de garantir a produção e instalação dos produtos segundo os padrões de qualidade inscritos pela empresa belga. Só assim se assegura a resistência e a durabilidade dos sistemas. Van Put não tem quaisquer dúvidas: “o treino dos nossos parceiros é essencial para o sucesso do produto”.

 

Há, no entanto, dois sistemas centrais de produção e montagem em relação aos quais a Reynaers não abdica de total controlo: o isolamento e a pintura. Para garantir o isolamento adequado dos seus perfis de alumínio, foi criada a ERAP. A subsidiária da Reynaers opera no edifício principal do campus e os seus 60 trabalhadores processam mais de 5 mil perfis de alumínio todos os dias, o que faz desta a maior empresa do género a nível europeu. Da mesma forma, para garantir uma pintura adequada das caixilharias, a Reynaers conta com uma outra subsidiária, a Alural.

 

À prova dos elementos

 

No vasto campus da Reynaers, faz-se investigação e desenvolvimento, mas também se experimenta muito. Quase até à exaustão. É preciso garantir que todos os produtos desenvolvidos pela empresa cumprem com as suas promessas de isolamento. Estes testes acontecem no Centro de Tecnologia, um dos maiores centros de testes da Europa. Há ainda espaço para o Centro de Automação, com o surpreendente Human Interface Mate (HIM), um balcão de trabalho interactivo, capaz de dar, ao instalador, instruções passo-a-passo. Num ecrã, surgem imagens ilustrativas da acção a desempenhar em determinado momento, enquanto cores projectadas na mesa apontam para as ferramentas que devem ser utilizadas para a execução de cada uma das acções. O HIM facilita e autonomiza os processos de instalação por parte dos clientes.

 

Peter Goosens, Expert Technical Trainer da Reynaers, lidera uma visita guiada pelos bastidores da empresa. No chão, linhas azuis delimitam o espaço em que é possível a qualquer um movimentar-se em segurança. Aqui, a maquinaria é pesada, inspira cautela. E curiosa, sempre em operação.

 

No Centro de Ensaios, as janelas são submetidas a 80 mil ciclos de abertura. Cada porta é testada ininterruptamente, noite e dia, durante seis meses. Aqui, os ciclos de abertura são ainda mais impressionantes: cada porta abre e fecha um milhão de vezes, até se comprovar a sua resistência.

 

Mas nem só de portas e janelas é feita a Reynaers. E os testes não se ficam por aqui. O Centro Tecnológico conta, também, com uma parede de 15 metros de altura, onde é colocado à prova o desempenho das fachadas em pisos mais elevados. É face a ventos de até 400 quilómetros por hora e a chuva que é testada a estanquidade dos produtos, assim como a sua resistência à pressão.

 

O isolamento acústico é testado numa infra-estrutura constituída por duas divisões contíguas. O produto é instalado na parede divisória e, enquanto numa das divisões é emitido som, na outra é testado o isolamento sonoro. O isolamento térmico, por sua vez, é colocado à prova no R-Cube, uma estrutura idêntica, mas com a particularidade de ser de orientação totalmente configurável, podendo girar 360 graus para orientar-se, entre outros, face à posição do Sol.

 

A segurança é um dos outros elementos em teste. Peter Goosens revela como são contratados ladrões profissionais para testar a resistência a impactos e a assaltos. São disponibilizados cinco minutos de análise e 20 minutos de tentativa de assalto, com recurso a várias ferramentas. A segurança é, depois, classificada em seis níveis de resistência.

 

Realidade virtual: experimentar antes de construir

 

A estrela do Centro de Experiências da Reynaers encontra-se numa das suas mais pequenas divisões: a sala AVALON. Neste espaço, com uma estética minimalista e futurista, programadores, especialistas e clientes da empresa belga tiram partido das potencialidades da realidade virtual, transpondo-as para o campo das projecções de arquitectura. Através de software inovador, torna-se possível visitar edifícios antes, ainda, de estes serem construídos.

 

Quem colocar os óculos mágicos na cara e tiver o comando na mão tem a possibilidade de espreitar o mais ínfimo dos detalhes. São 25 projectores a laser, 5 lados, 4,8 metros de largura, 3,3 metros de profundidade e 2,45 metros de altura para explorar qualquer tipo de projecto num ambiente tridimensional: uma residência, um edifício de escritórios ou, até, um hospital. De forma intuitiva, testam-se várias disposições, trocam-se janelas, portas de correr ou elementos da fachada, mudam-se materiais e cores, faz-se zoom in ou zoom out, sobe-se e desce-se de andar.

 

Tudo isto, garante a Reynaers, facilita a tomada de decisão por parte do consumidor, arquitecto, projectista ou engenheiro, uma vez que a realidade virtual possibilita a comparação imediata entre elementos e a resolução de diferendos. Uma indecisão entre uma porta de correr e uma porta desdobrável é um exemplo daquilo que esta sala permite resolver, recorrendo à observação detalhada. Pode abrir-se a porta, fechar-se a porta, observando-se o impacto estético que cada uma das soluções traria, tanto ao interior como ao exterior do edifício.

 

Para além disto, a possibilidade de renderização em tempo real e de manipulação de objectos 3D que a sala AVALON oferece vem permitir poupanças substanciais, ao evitar a potencial construção de múltiplos protótipos – um cenário comum a vários projectos de grande dimensão.

 

O sucesso desta ferramenta de realidade virtual é comprovado pelo número de visitas e pela curiosidade demonstrada por parte de equipas que trabalham em projectos arquitectónicos. Para a semana seguinte à da visita da Edifícios e Energia ao campus da Reynaers, que decorreu durante o mês de Novembro, encontravam-se agendadas 160 visitas à sala AVALON. São vários os projectos, incluindo alguns portugueses, que viajam até Duffel para tirarem partido das vantagens da simulação tridimensional. 

 

A Reynaers no mundo e em Portugal

Em 2017, a marca belga espera um crescimento de 10 %, relativamente a 2016, ano em que o volume de negócios ascendeu aos 387 milhões de euros. Actualmente, a empresa tem aproximadamente 1900 trabalhadores e escritórios em 40 países.

Em Portugal, a história ainda é recente. Em 2008, a marca entra em Portugal, através da aquisição de uma pequena empresa de venda de alumínio. No ano de 2009, instala-se em Pombal, no distrito de Leiria, num espaço com 8500 metros quadrados, um centro de formação, um showroom e um centro de logística. Já em 2017, foi inaugurado o primeiro espaço da marca em Lisboa.


Marta Ramos, até então responsável pelo marketing e comunicação da Reynaers em Portugal, revelou-se “entusiasmada” com a procura registada no mercado nacional, salientando que a marca está “a ganhar posição no mercado residencial”.


Apesar de só recentemente ter chegado a Portugal, o mercado nacional já representa, segundo Michel Van Put, 5 % do volume total de negócios da marca especialista em caixilharias de alumínio. E são já alguns os projectos de referência com sistemas Reynaers em Portugal, sendo o Estoril Sol um dos mais emblemáticos. Para além deste, destaca-se o Hospital da Figueira da Foz, assim como o maior projecto imobiliário a decorrer em Lisboa, os Jardins de Braço de Prata, da autoria do arquitecto italiano Renzo Piano.

 

 

 

* O colaborador viajou a convite da Reynaers Aluminium

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