2019-01-18
OPINIÃO: Engenharia sem engenheiros? Engenharia e sustentabilidade.
António Lopes do Rego, Presidente da EFRIARC - Associação Portuguesa dos Engenheiros do Frio Industrial e do Ar Condicionado

O termo “Engenharia Financeira” é dos mais perversos que surgiu no vocabulário corrente no mundo dos negócios, porque a sua prática baseia-se no oposto do que é a engenharia.

 

A engenharia é o campo de atividade que transpõe os conhecimentos científicos para a utilização corrente do ser humano, e, para isso, tem de ser fiável, segura e perene.

 

A “Engenharia Financeira” é a forma de “construir” sem ter as garantias da solidez e perenidade das estruturas que a sustentam. Daí o risco de colapso e de implosão dos sistemas que concebe. Risco que a prática tem demonstrado ser incontrolável.

 

Esta última “Engenharia” tem tido o protagonismo quase exclusivo em termos de gestão, sendo disso reflexo a fraca participação de profissionais de Engenharia nos órgãos decisores ou mesmo na sua assessoria, seja na atividade privada, seja na pública.(1)

 

Esta forma estrutural, para além da falta de conhecimento e de apoio técnico nas decisões, conduz principalmente a uma deformação cultural no corpo decisor, tendo como consequência a avaliação de resultados no imediato e no que é estrito ao seu “quintal”.

 

Esta realidade produz a antítese do que se pretende quando pensamos em sustentabilidade. Julgo que a fraca adesão no nosso país às certificações de sustentabilidade, como, por exemplo, o LEED, se deve às exigências de uma visão alargada do objeto a construir, com intervenção multidisciplinar das engenharias e das arquiteturas, de modo a relacionar de forma harmoniosa e sustentável, com as atividades que nele se desenvolverão e com tudo o que o envolve, no sentido mais lato (clima, mobilidade, conforto, economia, urbanismo, etc.).

 

Ora, isto só se consegue com uma participação forte dos profissionais das engenharias e arquiteturas (o plural na arquitetura é a pensar especialmente no paisagismo como especialidade globalizante e imprescindível ao bem-estar humano), e não se ficar confinado aos financeiros, economistas, e juristas, nos órgãos de decisão.

 

Esta deformação faz-se sentir tanto na atividade privada, como na pública, e também em grande escala na da política. É nossa obrigação – das Ordens, associações profissionais e de atividades na área de Engenharia – denunciar a grave lacuna na omissão da cultura do saber tecnológico nos órgãos de gestão e lutar pelo seu preenchimento.

 

Hoje em dia, fala-se muito em quotas de género na constituição dos órgãos de gestão e até nos de soberania. Seria interessante começarmos a analisar as cotas exageradamente altas naqueles órgãos de profissionais com total ausência de conhecimentos técnicos e de mentalidade, que não sejam subservientes a aspetos do imediatismo económico e financeiro.

 

As novas universidades são um reflexo disso, ao priorizarem a formação nas áreas de economia e finanças (publicitando nestas áreas 100 % de empregabilidade) e não integrando currículos com forte componente das Engenharias.(2)

 

Aprofundar a transversalidade das diversas especialidades nas equipas de projeto e consultoria é uma necessidade. Mas, sem uma correção nos profundos desequilíbrios das especialidades envolvidas nos órgãos de gestão, não se consegue atingir os objetivos pretendidos em termos de sustentabilidade. 

 

 

 

 

(1) É curioso verificar que, no órgão de soberania mais representativo da Democracia, que é o Parlamento (no nosso caso, Assembleia da República), os nossos representantes sejam cidadãos cuja representatividade do espetro profissional e de formação nada tem a ver com o conjunto da população, nem com ligações às necessidades mais prementes da nossa sociedade.

 

(2) Por curiosidade, fui ver a constituição dos currículos da nova universidade, apontada como modelo, recentemente inaugurada em Carcavelos, NOVA School of Business & Economics. A ausência de matérias ligadas a uma cultura de sustentabilidade é total. 

 

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