2017-09-01
“Os impactos incorporados nos materiais vão ser cada vez mais significativos”
Filipa Cardoso

Enquanto director executivo do Concrete Sustainability Hub do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Jeremy Gregory dedica-se à investigação das implicações ambientais e económicas na construção de edifícios. Em entrevista à Edifícios e Energia, explicou a importância do conceito "ciclo de vida" quando falamos de sustentabilidade.

 

 

O que é o ciclo de vida de um edifício?

O ciclo de vida de um edifício inclui todos os aspectos que vão desde o “berço” à “sepultura”. Tal inclui a extracção das matérias-primas do planeta e a sua transformação em produtos de construção. Inclui também a construção do edifício, a sua operação durante o tempo de vida, incluindo a manutenção e o consumo de energia, e a demolição no fim de vida.

 

Por que devem ser tidos em conta todos esses momentos?

Os edifícios são complexos e têm tempos de vida longos. Por esse motivo, é importante considerar os impactos ambientais ao longo de toda a sua vida. 

 

É um conceito que diz apenas respeito ao factor “energia”?

O consumo energético de um edifício é importante e representa um contributo significativo para todo o impacto ambiental do edifício. No entanto, é também importante considerar os impactos incorporados nos edifícios e que estão associados aos materiais e à construção.

 

Como está a construção a incorporar o conceito e os requisitos de sustentabilidade?

A indústria desenvolveu [para o efeito] vários standards que procuram criar edifícios sustentáveis, como o LEED, BREEAM e o Living Building Challenge.

 

Essa é uma tendência crescente?

Há uma procura significativa por edifícios verdes. De facto, a taxa de crescimento para edifícios verdes é mais elevada do que para edifícios convencionais.

 

Há ainda barreiras a ultrapassar?

Embora seja louvável que a indústria tenha criado sistemas de classificação de sustentabilidade, há uma oportunidade para reduzir ainda mais os impactos ambientais através de uma abordagem para a avaliação dos impactos ambientais que tenha em conta o ciclo de vida. Em particular, deverá fazer-se mais uso da avaliação de ciclo de vida (LCA, na sigla em inglês) para quantificar os impactos ambientais dos projectos de construção. Esta é a única forma possível de avaliar realmente o potencial de sustentabilidade dos edifícios.

 

Acredita que essa é uma mudança possível de fazer num cenário de crise económica?

Um projecto sustentável traduz-se, na maior parte das vezes, em custos de operação de edifícios mais baixos. Dessa forma, mesmo que, para um edifício verde, haja um custo inicial premium, esses investimentos podem traduzir-se em custos de ciclo de vida mais baixos. Logo, é importante avaliar os custos de ciclo de vida e os impactos ambientais, mesmo em alturas de desafios económicos.

 

Os regulamentos europeus, tais como a Directiva para o Ecodesign, desempenham um papel importante nesta matéria. Como avalia a forma como a União Europeia está a abordar a questão?

Não analisámos especificamente a Directiva para o Ecodesign, mas demonstrámos as formas como a LCA e a análise dos custos do ciclo de vida (LCCA, na sigla em inglês) podem ser usadas para avaliar os custos do ciclo de vida e os impactos ambientais da reabilitação de edifícios na Europa. Uma abordagem como esta deveria ser usada para avaliar a eficácia da Directiva.

 

Que diferenças existem entre as abordagens europeia e norte-americana?

Ambas as regiões valorizam os edifícios sustentáveis. A grande diferença está na implementação da abordagem. A Europa pressionou a existência de mais regulamentos, enquanto os Estados Unidos têm tido uma forte procura por edifícios verdes no sector privado.

 

Olhando para o resto do globo, a sustentabilidade faz parte da lista de preocupações dos países em desenvolvimento, onde se assiste a booms de construção?

Os países em desenvolvimento também estão interessados em edifícios sustentáveis. Isso pode ver-se na adopção de standards de construção sustentável, tais como o LEED ou o BREEAM, por todo o mundo. 

 

A inovação é um conceito fundamental para acompanhar a ideia de construção sustentável. Qual é o caminho a seguir nesta área?

O próximo passo é optimizar os impactos ambientais do ciclo de vida dos edifícios que equilibrem os impactos incorporados nos materiais e o consumo de energia dos edifícios. À medida que o consumo energético dos edifícios decresce, os impactos incorporados vão tornar-se cada vez mais significativos. Encontrar o equilíbrio entre os dois vai ser crucial.

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