2017-10-26
Opinião: Iluminação e Arquitectura
João Cortes, arquitecto Openbook

Qual o papel da luz na Arquitectura e como podem os arquitectos e lighting designer tirar partido da iluminação nos seus projectos?

 

O livro do japonês Junichiro Tanizaki O Elogio da Sombra analisa a importância da obscuridade no modo de vida japonês, atribuindo um valor muito concreto às diversas nuances do ‘doseamento’ da luz na criação dos ambientes e das vivências dos espaços habitados. Uma abordagem à importância da luz na arquitectura a partir do entendimento do conceito de obscuridade permite, de certo modo, uma entrada mais pousada e subtil e, por isso, mais aprofundada, do entendimento do valor da ‘luz’ na arquitectura. Na realidade, a ‘obscuridade’ mais não é que determinada quantidade de luz doseada de forma a ser menor que a luz circundante. É, igualmente, num ambiente circundante de obscuridade que a iluminação de determinado objecto ou elemento ganha uma importância e um destaque inesperado.

Junichiro Tanizaki dá, no seu livro, o exemplo de um pote chinês que tanto se pode transformar num objecto feio e desinteressante, se colocado num local fartamente iluminado e exposto à luz, ou, ao invés, quando colocado num fundo de uma sala recuada da fonte de iluminação, onde chega apenas uma réstia de um raio de sol capaz de realçar uma face do pote, deixando as outras faces na penumbra e o fundo do pote na escuridão, o objecto ganha uma vida e um interesse inesperados e torna-se, só por si, num elemento gerador de vida e mistério.

A luz tem assim, claramente, um papel bastante relevante na arquitectura, já não só como intermediário obrigatório da apreensão visual do meio físico – a sua função primária – mas enquanto elemento estruturante de um espaço arquitectónico, na medida em que é também uma ferramenta modeladora do espaço, conseguindo ser um elemento ‘desestabilizador’ capaz de alterar a percepção espacial entre os elementos físicos. Neste sentido, não é abusivo afirmar que é mesmo capaz de alterar virtualmente a arquitectura dos espaços, alargando, apertando, omitindo, realçando, etc.

A utilização criteriosa da iluminação/luz na criação dos espaços arquitectónicos é um ponto incontornável na qualidade final dos mesmos. Em perfeita sintonia com esta necessidade está a evolução técnica dos sistemas de iluminação e, sem dúvida, a existência de arquitectos e light designers. Estes últimos dispõem de conhecimentos específicos e crescentemente aprofundados no uso da iluminação artificial, que apresenta a cada 24 horas uma tremenda evolução, quer ao nível dos equipamentos de iluminação, quer da qualidade de luz, eficiência energética, dimensão das fontes de luz e respectiva acção fotobiológica nas várias áreas, como é o caso da saúde, conforto e bem-estar do ser humano. Estes profissionais “moldam” a luz por forma a atingir objectivos que conjugam as boas práticas de iluminação com ambiências e efeitos específicos, onde a componente criativa se funde com as diferentes necessidades biológicas, estéticas e de impacto visual.

Não é novidade que o LED trouxe opções inimagináveis há duas décadas, quando o halogéneo e o fluorescente dominavam. Rapidamente a tecnologia LED, ou Light Emmiting Diod, transformou toda a nossa forma de pensar relativamente ao dimensionamento da luz nos espaços, originando a redução na dimensão dos equipamentos, poupanças crescentes ao nível dos consumos e aumento significativo de vida útil das fontes de luz. Há, no entanto, o perigo da utilização deficiente desta tecnologia, uma vez que, ao contrário das sucedâneas, não há uma bitola coerente entre as marcas que fabricam o LED, principalmente no que respeita à temperatura de cor, restituição de cor e relação entre consumo e fluxo luminoso. É habitual, mesmo dentro da mesma marca, existirem temperaturas de cor diferentes, apenas porque são produzidas em remessas diferentes. Problemas que tendem a diminuir com a utilização de equipamentos de iluminação superiores, mas com custos mais avultados.

Actualmente existe ainda muita margem intelectual para que os profissionais de arquitectura e lighting design usem os seus conhecimentos e apliquem novas ideias e novos conceitos nos seus trabalhos. Ainda assim, a evolução desta tecnologia leva-nos hoje para soluções cada vez mais fiáveis, com potências cada vez mais elevadas conjugadas com consumos inferiores e maior fiabilidade dos diferentes sistemas de iluminação. Equipamentos de menores dimensões aparecem com o OLED (Organic LED), ainda pouco utilizados na área de iluminação, mas já com aplicações no domínio dos ecrãs (TVs, telemóveis, etc.). O futuro garantidamente nos trará novas tecnologias que irão dar novos argumentos aos Arquitectos e lighting designers, na certeza de que esta nova realidade terá efeito num futuro muito próximo.

Muito interessante é a atenção crescente que a iluminação, enquanto elemento influente na Arquitectura, desperta no homem e mulher contemporâneos. Este fenómeno desencadeia e cria grandes expectativas nos investidores, tornando os projectos cada vez mais exigentes, atractivos e impactantes. Afinal, a Luz e a Arquitectura são dois componentes indissociáveis da mesma arte. Do ponto de vista do observador, as formas, independentemente de como são revestidas, não existem na ausência da Luz. É ao adicionarmos este elemento que a Arquitectura verdadeiramente aparece. A forma como a Luz é reflectida pelos elementos arquitectónicos influencia e molda os volumes enquanto objectos de arte capazes de nos transmitir emoções. Desta forma, ao estudar os volumes e a forma como a Luz natural reflecte nos mesmos, quer no exterior quer no interior, o arquitecto está a criar uma obra de arte em mutação permanente, mas única. Já o lighting designer, ao moldar a luz artificial, altera esses mesmos volumes e espaços, reinventando-os, produzindo assim novas e diferentes emoções.

Um edifício que une o perfeito equilíbrio de Luz e Arquitectura torna-se num ponto de referência para todos, sejam profissionais da área, sejam utilizadores ou anónimos. É impossível ficar indiferente a estes dois elementos quando bem combinados. Mas não só de efeitos se compõe um projecto de iluminação. Todas as áreas públicas ou de trabalho obrigam ao cumprimento de normas. E é nestes casos que o estrito cumprimento dessas regras, em conjunção com a criatividade na construção de ambiências, que, por vezes, é necessário alterar a Arquitectura de um espaço, ou simplesmente um detalhe de acabamento. Muitas vezes, para conseguir os melhores resultados, há que abdicar dos efeitos que a liberdade intelectual do lighting designer determina, ou, em oposição, abdicar de parte das opções arquitectónicas anteriormente definidas. Um espaço de trabalho, por exemplo, tem de ser confortável, dinâmico, apelativo e funcional. O papel da iluminação, nestes casos, é preponderante no resultado final do trabalho do Arquitecto.

O sucesso atinge-se com soluções equilibradas, adequadas a cada tarefa ou tipo de espaço, evitando o encandeamento, garantindo a uniformidade geral da luz, a eficiência energética e os níveis lumínicos de cada área, dependendo da tarefa a executar. Há ainda que conjugar os conceitos de iluminação, com o tipo e qualidade de luminárias a utilizar, dentro de um budget que nem sempre é favorável às melhores opções. Para além das questões puramente técnicas, que, no fundo, não são mais do que o “prevenir que tudo correrá bem em termos de saúde e conforto dos utilizadores”, há ainda que acrescentar os elementos cénicos. E é este o factor de diferenciação, capaz de garantir a identidade do projecto. Por exemplo, num open space de um escritório é necessário determinar diversos factores: o conceito de iluminação, o tipo, qualidade e quantidade de equipamentos de iluminação a utilizar, definir o tipo de reflector, os difusores, as ópticas, o acabamento da luminária, o seu design, o tipo de fonte de luz, as potências, a temperatura de cor e o tipo de controlo de iluminação adequados. Estas decisões acabam por influenciar directamente o nível de conforto dos utilizadores e indirectamente a forma como os elementos arquitectónicos aparecem ou desaparecem num jogo de luz e sombra. É nas áreas de lazer, circulações, zonas de espera, alimentação, bar, etc., que os efeitos cénicos ganham protagonismo em oposição á rigidez das normas e deixam a impressão digital dos arquitectos e dos lighting designers num projecto abrangente, à partida puramente funcional.

No fundo, o essencial resume-se à garantia da saúde e conforto dos utilizadores com o uso da iluminação funcional adequada, em conjunção com uma cultura de arquitectura e iluminação mais cénicas e por consequência apelativas, que garantam a atractividade do local de trabalho. Desta forma, o utilizador sente-se bem quando não tem quaisquer motivos de queixa relativamente aos níveis lumínicos e de encandeamento. Em simultâneo, é diariamente atraído para o seu espaço de trabalho, sendo a sua satisfação um dos melhores catalisadores para a alta produtividade.

Em conclusão, diria que a Arquitectura é indissociável da iluminação a implementar em qualquer tipo de projecto, com efeitos essenciais na respectiva qualidade do mesmo.

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