2016-06-28
“Há, sem dúvida, um futuro para o solar térmico”
Filipa Cardoso

Jürgen Gerhardt, director geral da Viessmann para Portugal e Espanha, esteve, no início deste mês, em Lisboa para dar a conhecer a nova tecnologia ThermProtect da marca alemã. Em entrevista à Edifícios e Energia, o gestor fez o retrato do mercado ibérico e explicou como espera que esta inovação faça diferença no sector.

 

Os últimos anos foram duros para os mercados dos dois países. Como a Viessmann viveu este período?

Tal como todas as outras empresas, também fomos afectados. A Viessmann foi uma das primeiras empresas a lançar colectores solares térmicos planos, em meados dos anos 70, na Alemanha (somos uma empresa alemã). Tudo começou com um movimento verde, ecológico, que, em meados dos anos 80, se desenrolou para o resto da Europa e também Espanha e Portugal, onde temos uma posição líder. Claro que, quando o negócio caiu, fomos severamente afectados. No Sul da Europa, o mercado solar térmico é impulsionado pela nova construção e, quando esta caiu, perdemos muitos metros quadrados. Mas agora sentimos que se estão novamente a construir novos edifícios nalgumas regiões...

 

Em Portugal também?

No caso português, são mais edifícios não residenciais, como hotéis. Temos alguns projectos bons no horizonte, mas ainda são só projectos que, esperamos, andem para a frente.

 

Portugal e Espanha são diferentes dos restantes mercados europeus?

São diferentes porque não têm subvenções ao solar, o que torna o período de retorno ao investimento muito mais longo para o cliente final. Na Alemanha, por exemplo, onde existem incentivos, a decisão de instalar solar térmico é muito mais fácil para o proprietário de uma casa unifamiliar. Aqui, normalmente, as pessoas instalam o solar térmico porque a regulamentação assim o obriga.

 

Os mecanismos de incentivo ao solar nem sempre são bem vistos. Considera que esta é uma tecnologia que está dependente de subvenções?

Não, porque o desempenho do solar, hoje, é muito elevado. Com uma instalação relativamente pequena é possível ter água quente o ano inteiro, especialmente no Sul da Europa. Neste momento, os preços da energia estão baixos, mas todos sabemos que é apenas uma questão de tempo até que voltem a disparar. Por isso, penso que não são precisos incentivos.

 

Onde vê as maiores oportunidades de negócios, quer em Espanha, quer em Portugal?

Penso que estão nas casas unifamiliares, porque a maior parte não está equipada e a instalação de sistemas para produção de águas quentes aí é muito fácil. E este é um mercado que não é apenas para a nova construção mas também para a existente. As aplicações de larga-escala também impulsionam o mercado, em Portugal e Espanha, e isso deve manter-se, mas penso que o verdadeiro crescimento é nas casas individuais.

 

O solar térmico consegue competir com outras soluções renováveis, nomeadamente as bombas de calor?

Sim, se falarmos de renováveis. O solar térmico é 100 % renovável, apenas utiliza uma pequena quantidade de electricidade para as bombas. As bombas de calor precisam de muito mais. Usam o ar, que é renovável, mas precisam de energia eléctrica, pelo que não são uma tecnologia 100 % verde, como o solar térmico.

 

Como avalia a implementação dos requisitos para o Ecodesign e etiquetagem energética?

Devagar, mas de forma consistente. Foi um processo difícil, porque existe a lei mas nem sempre é seguida. Isto não acontece só em Portugal ou Espanha, mas também em Itália ou na Grécia. Não sou a favor que se fiscalize tudo, mas tivemos de fazer muitas apresentações para convencer os nossos parceiros, os instaladores e os engenheiros de que o ecodesign é algo bom para o ambiente e, logo, bom para nós, para os nossos filhos e netos. Não se trata apenas de cumprir por cumprir.

 

Que outras dificuldades encontra no mercado?

Uma das principais barreiras é que os instaladores e os prescritores querem uma instalação simples. O solar não é complicado, mas exige um maior know-how e, para evitar preços mais elevados, quando estes profissionais constroem a casa, já sabem que é mais complexo e mais caro, e escolhem outra coisa. Isto acontece porque normalmente o promotor ou o construtor não vai viver nessa casa. Fizemos essa experiência durante muitos anos, se falarmos com o proprietário da casa ou do hotel que usa o sistema, este fica muito mais entusiasmado por causa das poupanças que vai conseguir todos os meses na factura energética. Temos de convencer os utilizadores finais a dizerem aos instaladores e aos projectistas prescritores que o solar térmico é uma boa solução.

 

É difícil chegar ao utilizador final?

Temos sempre de fazê-lo através dos engenheiros e dos instaladores. Temos de convencê-los de que é uma boa tecnologia, que funciona e que tem provas dadas, pois temos mais de 40 anos de experiência.

 

E a indústria consegue fazer esses sistemas mais simples?

O ThermProtect é um exemplo de como os sistemas estão a ser simplificados. Sempre houve o problema do sobreaquecimento, se o sistema não estivesse bem projectado ou se não houvesse dissipação. Agora, com esta nova tecnologia, isso já não é problema.

 

É essa a grande mais-valia que este produto traz?

Sim e é, realmente, uma grande mais-valia. Porque o sobreaquecimento, nas situações em que há problemas de estagnação de temperatura ou quando não há consumo – por exemplo, numa escola que está fechada no Verão –, pode tornar-se um problema. Com este sistema, isso evita-se a 100 %. É realmente uma revolução.

 

Uma das decisões da Viessmann foi não aumentar os preços.

Foi uma decisão estratégica. Como pode imaginar, o custo de produção é mais elevado mas a nossa direcção tomou a decisão de não aumentar os preços. Esperamos, assim, ser mais competitivos.

 

Que expectativas tem para o próximo ano?

Há, sem dúvida, um futuro para o solar térmico, mas temos de trabalhar arduamente - nós e toda a indústria, as associações -, de forma a dar a conhecer as vantagens dos nossos sistemas.

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