2017-11-23
Opinião: O Estado actual da Arquitectura em Portugal
Cláudia Costa Santos, Ordem dos Arquitectos (Presidente do Conselho Directivo Regional do Norte)

O Estado actual da Arquitectura em Portugal não é muito diferente do estado actual da sociedade portuguesa, ou não fosse a arquitectura uma síntese de valores cívicos transpostos no ambiente construído. O que torna impensável dissociar a arquitectura do arquitecto, como ser humano (indivíduo, cidadão e pessoa) integrado numa sociedade e como profissional com formação ética, social e estética.


Por isso, o estado actual da arquitectura é o reflexo do estado actual do ser arquitecto na sociedade actual. Numa sociedade de consumo, na qual tudo o que se faz e se pensa depende unicamente do mercado, promove-se a redução da condição humana às relações do negócio, depreciando a qualidade, a ética, o sentido colectivo, a solidariedade, a justiça, a liberdade e elevando os níveis de individualismo.


O compromisso é com a “lei da oferta e da procura” e as orientações, com fins políticos instrumentais, são as da competição com um único objectivo: o sucesso económico pela via do menor custo possível, que leva, na prática, à perda da identidade vocacional no que se refere à profissão de arquitecto.


O arquitecto tem a responsabilidade de garantir à sociedade, com o seu trabalho, que responde a princípios éticos, com integridade, com competência, concorrendo com os seus pares através da qualidade, para bem do interesse público. Não podemos esquecer de que a manifestação formal da arquitectura tem como princípio a criação de relações entre o espaço, o tempo, a deslocação, o movimento, entre o interior e o exterior desse espaço. Assim, essas manifestações só acontecem com e para o ser humano.


Os números dizem-nos que há mais obras e menos desemprego, mas estes são tempos difíceis. Já não temos arquitectura, mas serviços de arquitectura. Já não nos conectamos com a sociedade, mas com o mercado. Já não contribuímos para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva, mais solidária, mais desenvolvida qualitativamente, respeitadora da sua história, mas pedem-nos que produzamos rapidamente e a baixo custo, sobrevalorizando o “quanto custa” mesmo sendo impossível compará-lo com o “quanto vale”. A arquitectura deixa de ser medida em termos de benefício social, mas de mais-valia numa competição economicista, abrindo portas a uma possível concorrência desleal.

A verdade é que o sufoco em que somos colocados no nosso país obriga-nos, por uma questão de sobrevivência, a mercantilizar os nossos saberes, tornando difícil a manutenção de uma prestação profissional de qualidade do trabalho com a possibilidade de cobrir economicamente os custos da responsabilidade e de outras obrigações profissionais.


Mas a prova de que o problema não é dos arquitectos portugueses é termos arquitectos com grandes potencialidades, reconhecidos em todos os cantos do mundo pela qualidade do seu trabalho.

O futuro estará sempre dependente da evolução da conjuntura e principalmente da resolução de uma questão política.


Esta é a nossa sociedade, este é o estado da nossa arquitectura.

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