2016-11-02
“As ESE mais pequenas são cruciais para o crescimento do mercado”
Filipa Cardoso

Lisboa recebe, entre hoje e amanhã, os Investor Days, que juntam diferentes intervenientes do mercado da eficiência energética, nomeadamente Empresas de Serviços Energéticos (ESE), proprietários, arquitectos e investidores. Uma das protagonistas do encontro será Jessica Stromback, directora do Joule Assets Europe, entidade fornecedora de soluções financeiras na área da energia, e responsável do SEAF, ferramenta europeia para a avaliação de resultados financeiros dos projectos de eficiência energética. Em entrevista, Stromback avalia o estado do mercado de serviços de energia na Europa, com destaque para a temática do financiamento.

 

 

As ESE foram vistas com grandes expectativas, mas que não se cumpriram como esperado. Acredita que as expectativas foram irreais ou a crise foi determinante?

Os mercados europeus desenvolvem-se a ritmos diferentes. Penso que a crise aumentou ainda mais o interesse das empresas nas poupanças energéticas. Porém, as expectativas podem, de facto, ter sido irreais. Vender projectos de eficiência energética pode ser um desafio por muitas razões. Acresce a isto, o facto de as regras europeias não apoiarem completamente a eficiência energética ou o modelo ESE. Por esse motivo, em muitos Estados-Membros, as ESE enfrentam um modelo de negócio difícil e beneficiam de muito pouco, em termos de apoio regulamentar efectivo.

 

O modelo de Contrato de Desempenho Energético (CDE) faz sentido, tendo em conta a actualidade?

Sim, o CDE é um bom modelo e faz todo o sentido economicamente. As barreiras não estão na Economia.

 

O que é necessário para uma ESE ser bem sucedida?

Precisa de modelo de negócio replicável que permita à empresa crescer. Precisam de uma equipa de vendas forte e um esforço sério para o desenvolvimento de pipeline de projectos. É também necessário um contrato standard para os seus clientes e sistemas de medição e verificação sérios. Isto permite-lhe criar projectos financiáveis e replicáveis, o que atrai fundos de investimento a taxas razoáveis. Nesse sentido, por fim, ainda que as competências de engenharia sejam importantes, um modelo replicável e uma equipa de vendas forte serão decisivas para que a ESE seja bem sucedida.

 

A fraca percepção dos benefícios da eficiência energética é uma barreira. Esta é uma questão que está a ser abordada a nível europeu?

Não, não está a ser abordada suficientemente e as ESE são deixadas a promover o conceito por si mesmas. Porém, alguns fundos financeiros e a Comissão Europeia estão a aperceber-se de que isto tem de mudar e a indústria tem de ser apoiada. Através da nossa rede de investidores dentro da plataforma SEAF, tentamos promover a estrutura CDE aos empresários para que se torne familiar e seja aceite.

 

Como está a resolver-se o problema do financiamento?

Existe financiamento disponível para projectos com mais de um milhão de euros, porém ainda é difícil para as PME e projectos abaixo dos 500 mil euros aceder a financiamento. A plataforma SEAF dedica-se a desbloquear o financiamento para acções mais pequenas, através de apoio na aquisição de cliente, parcerias e gestão de investimento, e devidas diligências, permitindo ao contratante maximizar o valor do seu projecto e aceder a financiamento sem se preocupar com surpresas desagradáveis no decorrer do processo. Os componentes principais incluem: valorização e optimização de determinado projecto de eficiência energética; criação de um pró-forma pronto para o investidor; implementação de um projecto de acordo com os standards do ICP, e um módulo de pré-qualificação para o seguro de desempenho, feito pelo HBS Engineering Insurance, que quantifica a segurabilidade do projecto. Outro componente importante inclui a parceria com investidores e, para além disso, o apoio prestado à gestão do investidor durante o processo de financiamento. Dessa forma, o SEAF oferece uma resposta directa, de A a Z, à barreira do financiamento e estou certa de que irá desempenhar um papel importante na criação de um fluxo de negócios maior de projectos de eficiência energética por toda a Europa, permitindo às PME solidificar os seus papéis enquanto agentes no sector energético.

 

Quais os prós e contras dos fundos de investimento para a eficiência energética?

Estes compreendem como quantificar na totalidade o valor do projecto de eficiência energética. Ainda que alguns bancos tenham equipas especializadas que possam cumprir esse papel, isto é ainda muito raro. Para além disso, os fundos estão dispostos a aceitar mais risco que os bancos, o fundo irá pedir uma taxa mais elevada em troca, o que poderá ou não ser possível a um projecto suportar.

 

Há espaço no mercado para as empresas mais pequenas?

Decididamente. As ESE mais pequenas são cruciais para o crescimento do mercado. Muitas vezes, os bancos vão emprestar dinheiro a empresas mais pequenas; em alternativa, há fundos de investimentos especializados ou de crowdfunding disponíveis para apoiar estas empresas. Mais uma vez, o SEAF dedica-se exactamente a apoiar estes players.

 

Onde estão as principais oportunidades para as ESE?

Muitas ESE preferem o mercado privado, simplesmente porque o sector público pode ser extremamente lento na tomada de decisões. Mas isto depende do tamanho, alcance e perícia técnica da ESE. Temos também de nos lembrar que os regulamentos europeus tornam quase impossível que os municípios invistam em eficiência energética, pedindo-lhes que incluam esta despesa como dívida pública. Nos EUA, é permitido que isto seja incluído off balance e o mercado vale seis mil milhões dólares anuais. Na Europa, o nosso mercado total é de 150 milhões de euros anuais. É absurdo, mas verdade.

 

Tem um número de quanto vale o mercado da eficiência energética na Europa para uma ESCO?

De acordo com o JRC, o valor actual é de oito mil milhões de euros, mas penso que só inclui o sector público.

 

O mercado norte-americano é mais inovador?

A inovação nos EUA é de cariz regulamentar e não técnico. Penso que é importante compreender isso. As ESE europeias são tão ou mais inovadoras do que grande parte dos seus pares americanos. O mercado dos EUA é grande por várias razões, como o facto de existirem regras que permitem que os municípios invistam em projectos de eficiência energética off balance, os municípios recebem apoio público para a concepção do projecto, os empréstimos para eficiência energética podem, muitas vezes, ser anexados aos edifícios, em vez de aos proprietários do edifício, e permitem a integração de Demand Response e de eficiência energética. No Joule, pretendemos apoiar as ESE através do desenvolvimento da plataforma SEAF, mas também incentivando a Comissão Europeia a fazer as alterações necessárias. Acreditamos que as ESE merecem um ambiente regulatório que esteja, pelo menos, tão desenvolvido quanto elas.

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