2018-01-29
“Falta proteccionismo ao que é nacional”

A portuguesa Energie lança um “produto revolucionário” em 2018. Francisco Fernandes, director comercial da empresa da Póvoa do Varzim, releva à Edifícios e Energia os detalhes da novidade e traça o perfil da empresa que marcou a sua posição no mercado como a fabricante da “bomba de calor solar”.

 

 

Para 2018, a Energie tem um produto que diz “revolucionário”. De que se trata?

É um passo que direcciona a Energie para uma tipologia de mercado que até à data não existia. Estamos a falar do mercado dos apartamentos - o mercado vertical. A tecnologia termodinâmica estava claramente muito focada na moradia ou em aplicações industriais. Agora, vamos apostar na construção vertical dentro do sector residencial dos apartamentos comuns, com equipamentos para águas quentes sanitárias (AQS).

 

É um mercado diferente também em termos de canais de venda?

As vendas serão feitas sempre através do instalador. Nós damos prioridade à rede de instaladores e aos profissionais do sector e não às grandes superfícies. Como fabricantes nacionais, percebemos o quanto custa a implantação de uma marca. A nossa trajectória será sempre feita através deste canal profissional. Até porque os nossos equipamentos têm sempre uma particularidade que é o factor instalação que obriga a que seja feito por pessoas acreditadas e qualificadas. Nesta gama da termodinâmica deverá naturalmente ser assim. Na aerotermia, temos soluções mais práticas e com menos componentes de instalação.

 

Quais as grandes diferenças neste novo equipamento?

Logo à partida, vem entrar num mercado praticamente dominado por soluções não renováveis. E vai ao encontro das necessidades do cliente para as soluções de AQS, tendo sempre por base a alta eficiência e a poupança energética, sendo estas as principais características. Depois, vamos tentar integrar com as soluções construtivas que temos no mercado, nas fachadas ou coberturas cada vez mais difíceis ou limitadas.

 

Trabalharam com arquitectos para isso? Como foi o desenvolvimento do produto?

Normalmente, a criação de um produto dentro da Energie é feita com o recurso a conhecimento interno e alavancado por uma solicitação do mercado. É o que temos sempre feito: tentar encontrar a melhor solução combinando soluções já existentes ou não. Aqui, foi claramente dar resposta a uma necessidade através de um produto de base renovável, com integração e adequação às necessidades energéticas de AQS, entendemos portanto, que a termodinâmica também poderia fazer esse caminho com algumas mais-valias. Este foi o conceito e a motivação.

 

Esse trabalho tem sido feito através da vossa unidade de ID?

Essa tem sido uma aposta clara da Energie, tendo paralelamente provocado e realizado várias parcerias com laboratórios e entidades nacionais e internacionais.

 

Como sentiu o ano de 2017?

É transversal que as coisas estão melhores, obviamente alavancadas pelo sector da construção e reabilitação, mas não alterámos muito a nossa forma de trabalhar. Sempre tivemos uma postura de crescimento sustentável e não querendo embarcar em crescimentos ocasionalmente desmedidos. Degrau a degrau é o lema. Tudo indica que iremos terminar o ano com resultados positivos, o que se traduz em indicadores actuais de um crescimento acima dos 30 % e que ultrapassa os objectivos iniciais. Queremos manter esta curva em 2018.

 

A internacionalização tem sido uma grande aposta...

Estamos em cerca de 40 países com solidez nos principais e maiores países europeus, no entanto tem também surgido oportunidades fora dos países comunitários.

 

Estão presentes na Austrália e a Nova Caledónia, que são destinos poucos comuns.

Temos feito um esforço enorme do ponto de vista da certificação, do reconhecimento da tecnologia e de todas as adversidades e dificuldades específicas de cada um desses países para a implementação e comercialização do produto ENERGIE. Há muito proteccionismo em muitos mercados e cá não se verifica. Para estarmos presentes em França, temos de repetir os testes em laboratórios franceses com custos elevados e muito restritos. O mesmo acontece em Inglaterra e nalguns países asiáticos. É algo transversal a muitos países onde estamos. No entanto, no mercado nacional, sentimos que não existe essa preocupação e rigor relativamente a todos os players no mercado. Há legislação mas, mesmo sem usar a palavra proteccionismo, deveria, talvez, jogar-se com as mesmas condições.

 

Como foi a vossa adaptação à questão da etiquetagem energética?

Foi pacífico. Estávamos preparados. Pertencemos as comissões técnicas internacionais. Foi algo que entendíamos como obrigatório e que, para além disso, seria um plus competitivo. Nós temos a etiqueta energética, mas alguns clientes dizem-nos que o mercado não está completamente alinhado com esta obrigação. Muitas vezes, estamos em concursos ou candidaturas em que algumas das soluções não possuem esses mesmos requisitos e isso causa desmotivação. O que nos chega do mercado é que há ausência de informação e de certa forma validação final de acordo com os requisitos exigidos à partida. Neste momento, não há em Portugal uma preocupação ou exigência quanto à qualidade e origem dos produtos neste nosso sector e isso não é favorável. Reconhecendo que existem vários sectores onde a qualidade do produto nacional é claramente reconhecido e alavancado pelos organismos competentes.

 

Como se pode resolver o problema?

Julgo que se trata de uma questão cultural-económica, à semelhança do que acontece em países como Espanha e Itália, onde os padrões e metodologia de validação da qualidade e origem do produto são fortemente manipulados  pelo factor preço; situação já bem diferente nos países de centro e Norte da Europa. Aí, o proteccionismo é muito grande quanto à qualidade dos equipamentos que são instalados. Laboratórios, organismos públicos, universidades, todos trabalham nesse sentido.

 

Têm algum concorrente directo na tecnologia dos painéis termodinâmicos?

Não. Temos a patente há vários anos e sendo um produto tão expostos é normal que apareçam produtos semelhantes, mas que o próprio mercado vai filtrando.

 

E no exterior?

Também acontece e, sobretudo, em países com carência de tecnologia, mas tem corrido tudo de forma positiva, já somos conhecidos internacionalmente e respeitados. Não foi fácil, mas, na grande parte dos países, os nossos parceiros têm ajudado à divulgação desta nossa tecnologia.

 

Como tem evoluído a empresa?

Surgimos em 1981 inicialmente com outro segmento de mercado na base do solar termodinâmico. A actual unidade fabril surgiu em 2007, com uma área de 4000 m2. O nosso esforço em sermos mais competitivos e céleres passa por tentar encontrar novas competências ao nível do conhecimento e know-how, mas também junto dos nossos parceiros industriais cá e fora.

 

É fácil trabalhar em rede em Portugal?

É bastante mais fácil. Até porque havia muito a mentalidade de fechar as portas e cada um trabalhar por si. Hoje, notamos que essa abertura já é uma realidade e que a indústria só tem a ganhar.

 

Quantas pessoas trabalham na Energie?

Na unidade principal, trabalham aproximadamente 50 pessoas. No entanto, a realidade de produção actual obriga a que sejam realizados alguns contratos de outsourcing de forma a tornar mais célere e competitivo o processo de resposta ao mercado. Estamos com um crescimento sustentável com novos produtos, novas tecnologias e preparados para continuar a crescer. Estamos com novos projectos no fabrico das bombas de calor para alguns mercados nórdicos que estão a aumentar, o que nos está a obrigar a reestruturar a unidade.

 

Quais as perspectivas para 2018?

Um trabalho assente na inovação e na melhoria da eficiência de todos os nossos equipamentos. Continuar a levar a marca “Portugal”, que muito mudou nos últimos anos, a novos mercados; e no mercado nacional continuar árduo trabalho da mudança radical nesta indústria em Portugal: deixar de se destacar pelo factor preço, para se realçar pelo valor.

 

 

Artigo originalmente publicado na edição de Novembro/Dezembro de 2017 da Edifícios e Energia, aqui com as devidas adaptações.

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