2017-01-24
Eficiência Energética : Um desafio para as empresas
Filipa Cardoso

Em 2020, melhorar a eficiência energética dos edifícios vai exigir um investimento global superior a 192 mil milhões de euros. O potencial de poupança é inegável, mas continua bloqueado e não necessariamente por falta de capital. Em vez disso, fazer destes números uma realidade vai depender muito da capacidade do sector de comunicar e vender a eficiência energética.

 

 

Quando falamos de eficiência energética, esta vem, normalmente, acompanhada de números redondos. Os potenciais de poupança são enormes e muito atractivos: sabe-se que a aposta na eficiência energética poderá reduzir em 400 mil milhões de euros anuais a despesa energética da Europa, estimando-se que, para cumprir as metas para 2020, o investimento necessário rondará os 100 mil milhões/ano. Os edifícios surgem como o principal desafio, representando 40 % da utilização de energia.


A nível global, a Agência Internacional de Energia prevê que, em 2020, sejam precisos mais de 192 mil milhões de euros só para o sector. Isto, sem falar nos benefícios indirectos, como a criação de emprego e a redução da pobreza energética. Interessante, não? É, mas, ainda assim, a eficiência energética tarda em arrancar a todo o vapor, como se um nevoeiro denso nos afastasse desta “terra prometida”. Afinal, do que precisamos para chegar lá? A derradeira resposta é mais simples do que parece: procura. Isto porque, no meio de tantos estudos e potenciais, a eficiência energética não se consegue afirmar como algo que traz benefícios, ou – melhor dizendo – que é, em si, um benefício. Por mais elevado que seja o número que a acompanhe, enquanto não aprendermos a vender e comunicar a eficiência energética, o potencial não sai do papel. E, nesta tarefa, as empresas de serviços de energia (ESE) podem assumir protagonismo, mas também elas têm ajustes a fazer.

 

Vender eficiência energética


“A maior barreira é a falta de procura real”, admite o especialista internacional e director da consultora britânica Energy Pro Ltd, Steven Fawkes. E, quando olhamos para os edifícios, isto faz ainda mais sentido. Os proprietários ou gestores estão longe de compreender plenamente aquilo que lhes é dito por engenheiros e arquitectos, que já integram o conceito de eficiência energética nos seus projectos nas várias áreas – climatização, AQS, renováveis, QAI, reabilitação, etc. Desse lado, vender eficiência energética é um verdadeiro desafio, nem que seja porque “as pessoas não gostam de investir dinheiro que têm agora em algo que só vai reduzir o que elas consomem no futuro”, relata Jessica Stromback, directora do Joule Assets Europe, uma entidade fornecedora de soluções financeiras na área da energia. “As ESE com as quais trabalhamos dizem-nos que quase nunca venderam um projecto de eficiência energética, em vez disso, os consumidores compram sempre outra coisa qualquer, como uma melhoria dos processos ou conforto”, relata a também responsável pelo SEAF, ferramenta europeia para a avaliação de resultados financeiros dos projectos de eficiência energética. A razão, para Fawkes, prende-se com o facto de, na maioria das organizações, a eficiência energética não ser vista como estratégica, mas sim “como uma medida de redução de custos e, embora isto seja importante, nunca o é tanto como aumentar as vendas, gerar melhor valor para os clientes ou manter pessoal. Estes benefícios estratégicos podem ser alcançados através de projectos de eficiência energética, mas raramente são reconhecidos ou valorizados como tal”.

 

A opinião é unânime: é necessário que os proprietários valorizem a eficiência energética e, para isso, vão precisar da ajuda do sector. “A indústria da eficiência energética tem de começar pelos benefícios que não estão relacionados com a energia e construir um modelo de negócio estratégico”, diz Fawkes e ilustra com um projecto recente entre o UK Green Building Council e a lojista Marks & Spencers: “Se se demonstrar que as vendas subiram nas lojas verdes porque, de alguma forma, os clientes se sentiram melhor nessa loja do que nas da concorrência, isso seria uma questão muito estratégica para a agenda da direcção. Nesse caso, os factos de a loja verde ser também eficiente do ponto de vista energético e de haver algumas poupanças nos custos com a energia seriam praticamente irrelevantes”.


Não se quer dizer, com isto, que a indústria e as empresas de eficiência energética têm estado de braços cruzados à espera que o milagre se dê. “Há 40 anos que falamos disto, queremos que funcione e um dos grandes problemas é que os proprietários não confiam nas poupanças, até mesmo aqueles que estão interessados”, lamenta Panama Bartholomy, director do Investor Confidence Project (ICP) Europe, projecto financiado pelo Horizonte 2020 e que tem por missão desenvolver ferramentas open source que aumentem a bancabilidade dos projectos de eficiência energética nos edifícios.

 

Aprender com as renováveis

 

A falta de confiança é um problema conhecido, em particular no mercado das ESE. Há alguns anos, estas empresas, cujo modelo de negócio seria crucial para que a Europa alcançasse as metas energéticas, foram recebidas com elevadas expectativas. Hoje, estão longe das previsões iniciais. “Na Europa, o nosso mercado total é de 150 milhões de euros anuais. É absurdo, mas é verdade”, lamenta Stromback, sublinhando os seis mil milhões de dólares anuais do mercado norte-americano.
 

Aprender a comunicar e vender a eficiência energética é determinante para conquistar a confiança dos clientes e dos investidores. E, neste ponto, há um mercado bem próximo com o qual a eficiência energética pode aprender: as energias renováveis. “Há três lições que podemos tirar daí”, defende Bartholomy, a primeira passa por criar um clima de investimento atractivo, para  o qual o Estado é fundamental. “Os governos fizeram-no muito bem com as renováveis e, quando isso aconteceu, rapidamente, o mercado se padronizou, que é a segunda lição. Em terceiro lugar, recolheram informações e, hoje, têm 20 anos de dados de desempenho que usam para justificar projectos e o seu financiamento”.

 

Actualmente, investir num projecto de energias renováveis é um “negócio seguro, padronizado por qualquer investidor”, conta o consultor Jorge Rodrigues de Almeida, e incluir uma parte de renováveis no projecto de eficiência energética é até um dos truques usados para facilitar o financiamento. “Assim, temos um volume interessante de investimento que está, mais ou menos, seguro e, para o investidor, o facto de misturar estes dois torna-o mais atractivo, dando mais garantias de que pode correr bem”, esclarece o também responsável pelo ICP em Portugal.


Comunicar


Na lista de barreiras existentes ao mercado da eficiência energética e das ESE, a falta de procura do lado do cliente e a desconfiança superam mesmo o “papão” do  financiamento, até porque nem todos consideram que não haja capital disponível. “Existem muitos investidores prontos a financiar projectos, é preciso é cumprir com os critérios que eles definem e não com aqueles que a engenharia pensa que são os melhores”, afirma Rodrigues de Almeida.  Todavia, quando falamos da banca convencional e no caso português, a resistência ainda é forte, com condições pouco atractivas, e a pequena dimensão dos projectos complica ainda mais, contam Paula Fonseca e Carlos Patrão, do Instituto de Sistemas e Robótica da Universidade de Coimbra (ISR-UC). “Há falta de informação sobre o sucesso dos projectos em curso e, por isso, a aversão ao risco continua a ser uma barreira importante”, dizem.

 

Comunicar, quer com o cliente final, quer com o investidor, tem sido uma dificuldade persistente no sector da eficiência energética. “Comunicamos muito mal”, admite Rodrigues de Almeida, apontando este como uma das principais falhas do mercado. A complexidade da eficiência energética também não ajuda e este foi um novelo que as ESE não foram capazes de deslindar. Nalguns casos, fizeram precisamente o contrário. Quando a promoção da eficiência energética é feita pela própria ESE, o consumidor final pode não reagir da melhor forma e aumentar a desconfiança, considera Paula Fonseca. Para ilustrar o cenário actual, o responsável nacional do ICP recorre ao ditado popular “Quando a esmola é muita, o pobre desconfia”. Isto porque as ESE “foram vendidas como o salvador disto tudo”, mas é preciso que “se saibam posicionar e, como isso não acontece, criam má informação, o cliente não percebe, não sabe onde está a fronteira, se está a ser ajudado ou se há alguém a ganhar muito dinheiro”, explica, apelando a uma melhor regulamentação do sector nacional. A ajudar a isso, não se pode esquecer toda a confusão à volta dos contratos de desempenho energético (CDE) – “há muitas ESE que dizem fornecer CDE, quando, na verdade, são outro tipo de contratos que mais se assemelham a simples leasings”, relatam os especialistas do ISR-UC, admitindo que, no caso português, há um trabalho de disseminação e formação a fazer e que deve pertencer às universidades, às agências de energia e associações e à ADENE. “Carecemos de facilitadores de CDE, devidamente certificados – a ADENE poderia assumir esse papel de certificador – para organizar e agilizar os concursos no sector público e acelerar os processos no privado”, identificam.

 

Miscelânea e garantias


Resolver a falta de confiança implica ainda assegurar que as poupanças prometidas inicialmente estão garantidas em toda a duração do projecto (e não era este um dos trunfos das ESE?). Mas esse não tem sido um processo fácil e não só em Portugal, acontecendo mesmo noutros mercados mais maduros. Quando olha para o mercado europeu, Bartholomy dá conta de uma “grande confusão”: “Cada promotor faz projectos de maneira diferente, é impossível que um proprietário ou investidor consiga perceber como os projectos são desenvolvidos, logo não pode ter confiança de que as poupanças que lhe estão a ser prometidas vão concretizar-se”.

 

Em 2014, um relatório do Energy Efficiency Financial Institution Group (EEFIG) apontou a falta de normalização como um dos problemas existentes. “A falta de estandardização resulta em que, quando um proprietário ou investidor recebe um projecto de uma ESE, é-lhe entregue uma pilha de documentos, PDF, Excel, e é um verdadeiro desafio para ele analisar tudo aquilo, um a um, verificar se os cálculos estão correctos, a origem da informação, etc., é uma confusão”, descreve Bartholomy. Nesse aspecto, o EEFIG é claro sobre as alterações que há a fazer: “A normalização e adopção das melhores práticas e [a introdução de] modelos nacionais estandardizados para contratos legais, processos de subscrição, procedimentos de aquisição, adjudicação, medição e verificação, reporte, desempenho energético e seguro vão adicionar volume ao mercado de investimento em eficiência energética e diminuir os custos financeiros e de transacção”, lê-se no documento.

 

Dar resposta


Perante toda esta miscelânea, os especialistas consideram que temos um mercado “desagregado”, sem informação disponível e que não consegue comunicar as suas vitórias. É nesse contexto que começam a surgir algumas ferramentas e mecanismos interessantes, como o Código de Boas Práticas, desenvolvido no âmbito do projecto europeu Transparense. Promovido pelas associações europeias eu.ESCO e EFIEES, é subscrito voluntariamente por diversas ESE.

A ideia é ajudar a aumentar a confiança dos clientes, através de um conjunto de regras e princípios em linha com as definições previstas na lei comunitária. Em Portugal, o Código é gerido pelo ISR-UC, e, segundo Paula Fonseca e Carlos Patrão, “é junto dos clientes que este tem ganho mais importância, sendo uma mais-valia para a ESE na hora da negociação”.


Também em resultado do Transparense, um novo projecto europeu está em andamento. Trata-se do EPC+, cuja missão é apoiar a criação de parcerias (clusters) de PME (chamadas SPIN) que oferecem serviços de eficiência energética de elevada qualidade. “Uma SPIN é um consórcio de duas ou mais empresas que, em parceria, oferecem pacotes de serviços energéticos padronizados com tecnologias específicas para CDE. A gama de serviços prestados no seio de uma SPIN pode ser vista como uma ESE flexível e altamente adaptável”, esclarece Paula Fonseca. O projecto conta com o ISR-UC como entidade Observadora e Facilitadora do processo.


Já no âmbito do acesso ao financiamento, é o ICP que tem dado que falar. O projecto ambiciona resolver o problema da estandardização da informação e certificação dos projectos. Com base naquilo que são consideradas as boas práticas do sector, definem-se critérios mínimos que os projectos devem seguir, havendo depois um modelo de validação, feito por uma entidade independente, que verifica se as acções cumprem os requisitos. Caso estes cumpram, é colocado um selo que diz que, em termos de engenharia, os projectos seguiram as melhores práticas e normas que existem no mercado. “Depois de ver o selo, que garante que o projecto está pronto para investimento, o investidor só tem de olhar para o rating do cliente e, com base nisso, decidir”, explica Rodrigues de Almeida. O consultor acrescenta que este é um mecanismo voluntário e que pode ainda resolver o problema da escala - “vai facilitar o financiamento de  projectos mais pequenos, porque, como estão estandardizados, o investidor passa a olhar para eles, e, também, possibilitar o agrupamento de todos os projectos certificados e a sua venda a um investidor maior que compra grandes volumes e injecta capital”.

 

 

Artigo originalmente publicado na edição 107 da revista Edifícios e Energia. Aqui com as devidas adaptações.

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