2017-11-27
“A eficiência energética pode ser um investimento atraente e lucrativo”
Filipa Cardoso

No próximo dia 29 de Novembro, Bruxelas recebe a quarta edição do SEAF Investor Forum, um encontro que visa aproximar os investidores dos projectos de eficiência energética. Em antecipação, a Edifícios e Energia falou com Jessica Stromback, directora do Joule Assets Europe, entidade fornecedora de soluções financeiras na área da energia, e responsável pelo projecto SEAF, e ficou a saber que o mercado europeu para a eficiência energética está a levantar mais interesse e a ter mais receptividade.

 

2017 está a ser um bom ano para a eficiência energética na Europa?

Absolutamente. A receptividade dos agentes do mercado à eficiência energética está a melhorar todos os anos. Investidores que há seis meses eram avessos ao CDE (Contratos de Desempenho Energético) ou a investir em projectos de menor escala estão agora dispostos a analisar e negociar exactamente neste tipo de projectos. E a procura está a aumentar. Da nossa parte, trabalhamos em muitos projectos extremamente interessantes, maioritariamente relativos à eficiência energética comercial e pequenos sistemas fotovoltaicos. Efectivamente, de acordo com o relatório anual de 2017 da Agência Internacional da Energia, o mercado de eficiência energética na Europa cresceu em 10 % em 2016. Estou curiosa por saber quais serão os números no fim deste ano, mas, com base no volume de projectos que tratamos através do eQuad, acredito que iremos observar um crescimento ainda mais elevado este ano. 

 

Que projectos são mais atractivos para os investidores, neste momento?

Tudo depende do investidor, dado que cada investidor/fundo de investimento possui os seus próprios critérios relativamente ao tipo, dimensões e localização geográfica do projecto. No entanto, além disto, existem algumas coisas que todos os investidores na nossa comunidade eQuad tendem a procurar e que promove a atractividade de um projecto – um curto tempo de recuperação e uma taxa de retorno interna sólida são sempre de extrema importância. De importância equivalente ou quase idêntica é a saúde financeira do cliente final, por exemplo, o projecto pode ser bem concebido e com retornos atraentes, mas, se o cliente final tiver estado envolvido em práticas comerciais corruptas e/ou tiver um balanço frágil, o investidor não se irá envolver.

 

Estão os Fundos Estruturais Europeus para o período 2014-2020 a impulsionar o investimento em eficiência energética?

Estão definitivamente a ajudar, sendo que alocaram 18 mil milhões para a eficiência energética. No entanto, estes podem, de facto, ser difíceis de aceder. Este valor também fica aquém dos 100 mil milhões que a Comissão Europeia estima serem necessários anualmente para cumprir os objectivos de eficiência energética de 2020. Estes Fundos também estão direccionados para projectos públicos de maior escala (nos milhões), enquanto a grande maioria dos projectos que existem é de menor escala, projectos comerciais, como, por exemplo, lojas de venda a retalho, hotéis, mercearias. Estes projectos exigem centenas de milhares, não milhões, e é aqui que os financiamentos privados são necessários. De certa forma, os financiamentos privados são absolutamente vitais para o crescimento do mercado de eficiência energética, sendo que são a força vital do sector. O nosso trabalho através do eQuad serve, por conseguinte, para facilitar tantos destes investimentos quanto possível e também para mostrar a investidores privados que a eficiência energética pode ser um investimento atraente e lucrativo. 

 

Que modelos de fundos/investimento estão a resultar melhor na Europa?

Para projectos que necessitam de financiamento de terceiros, o financiamento em capitais próprios através de um veículo de titularização (Special Purpose Vehicle - SPV) oferece muitos benefícios às ESE e aos investidores. Um SPV é essencialmente uma empresa separada que é criada em torno do projecto, ou um grupo de projectos, detidos pelo investidor, a ESE, e, frequentemente, o proprietário do edifício/cliente final, o qual perdura pela duração do projecto. Cada agente possui uma participação accionista. Neste modelo, o SPV assume os riscos da transacção e detém os activos, pelo que as consequências económicas geradas pela iniciativa são, por conseguinte, atribuídas ao SPV. Isto é altamente benéfico para a ESE (Empresa de Serviços Energéticos), dado que, como uma entidade legal separada, o SPV não afecta o seu balanço, por sua vez, tornando mais fácil garantir o financiamento para outros projectos em simultâneo.

 

Existem mais algumas abordagens inovadoras?

Agregar pequenos projectos a um volume de investimento superior, num único negócio estruturado, é uma forma de melhorar a atractividade da eficácia energética para os investidores, assim como apoiar o crescimento da ESE.  Neste modelo, a ESE cria um portefólio de projectos de menor escala, os quais são posteriormente adquiridos pelo investidor que assume o risco de crédito do cliente em incumprimento. Este modelo é o ideal, particularmente para as ESE start-ups: reduz o risco de crédito da ESE e liberta o seu fluxo de caixa para desenvolver novos projectos, assim como proporciona acesso ao capital de que necessita para se expandir. Estamos empenhados em reproduzir este modelo tanto quanto possível. 

 

Como é que a decisão recente do Eurostat, que permite ao CDE manter-se fora do balanço de contas públicas, irá afectar o mercado?

O Eurostat clarificou que os promotores podem agora ser considerados proprietários económicos de activos, caso estejam dispostos a suportar os riscos do projecto. Como parte desta decisão, também expandiram significativamente o leque de medidas do projecto, o qual se pode classificar para acordos de locação. Este trata-se, tecnicamente, de um grande passo em frente, dado que deverá permitir o acesso a mais municípios aos projectos CDE da Comissão, sem contrair dívidas na sua contabilidade. No entanto, permanece por saber como tudo isto será interpretado e implementado pelos municípios e eu própria estou curiosa para constatar os resultados desta decisão durante os anos que se seguem. Pode tornar-se evidente a necessidade de clarificações adicionais.

 

Como tem sido o feedback do mercado sobre a plataforma eQuad?

Estamos muito felizes com a resposta até ao momento. O pipeline de projectos submetidos no eQuad aumentou em 50 % só nas últimas três semanas (início Outubro), de apenas 30 milhões de euros para 87 milhões (incluindo pequenos projectos de energias renováveis e de eficiência energética). Penso que estes números falam por si. As empresas estão a acordar para o facto de que a eficácia energética é do seu melhor interesse, assim como do interesse dos seus clientes, as ESE estão a melhorar as suas mensagens comerciais, os investidores estão a tornar-se cada vez mais receptivos ao CDE e estes procuram um parceiro de confiança que possua conhecimentos relativos a financiamentos e eficácia energética, de forma a se assegurarem de que estão a tomar uma opção de investimento sábia. 

 

O SEAF está agora na sua recta final. Na sua opinião, qual é a lição mais importante a retirar deste projecto?

Uma das principais lições a retirar é de que o contrato entre o cliente final e a ESE é tão importante para os investidores como receber uma avaliação precisa de um projecto, os parâmetros correctos, etc. Isto não é algo que tenhamos previsto no início do projecto, mas agora estamos a incluir uma análise contratual exaustiva como parte do serviço do eQuad, dado que a falta de certas disposições neste contrato poderá representar um risco de capital para os investidores. Com demasiada frequência, o contrato é a última coisa que a ESE apresenta aos investidores, quando estes já estão bastante avançados nas negociações. Isto deve ser analisado numa fase inicial para evitar problemas posteriores. Adicionalmente, o elemento humano permanece insubstituível. Enquanto o eQuad é apenas uma plataforma on-line que automatiza o processo pré-financiamento e, em seguida, o combina com fontes de financiamento, a tecnologia por si só não cria confiança. Almejamos criar relações sólidas com as ESE e com os investidores, colaborando estreitamente com os mesmos ao longo do processo. Para ambos os lados, saber que as pessoas com quem estão a trabalhar são diligentes, honestas e profissionais ajuda enormemente a criar confiança e a facilitar o fecho do negócio.

 

Existe alguma iniciativa nova no horizonte para continuar o trabalho do SEAF?

Neste momento, estamos a efectuar a transição dos resultados do projecto SEAF, nomeadamente os serviços e plataforma eQuad, para uma oferta comercial, a qual estará totalmente disponível no mercado a partir de 2018. Estamos também envolvidos noutro inovador projecto de três anos, com financiamento H2020, o NOVICE, que teve início há alguns meses. O NOVICE procura criar um novo modelo de negócio, criando sinergias entre a eficácia energética e todas as poupanças de resposta à procura. Dentro deste contexto, vamos efectuar as devidas diligências para utilizar os resultados do SEAF, a nossa plataforma eQuad, para avaliar projectos, combinando os dois serviços e, assim, fazê-los corresponder ao investimento. Por isso, sim, temos grandes expectativas para os próximos anos.

 

Quais são as suas expectativas para 2018?

Como já mencionei, o nosso pipeline é, actualmente, de 87 milhões de euros em pequenos projectos. Apesar de vários projectos já estarem em negociações com investidores, esperamos que este pipeline continue a crescer, do mesmo modo que gostaríamos de ver todos estes projectos a receber investimentos e a serem implementados durante o próximo ano. Esperamos também que mais investidores se integrem neste esforço à medida que estabelecemos o nosso pipeline e que a nossa reputação cresça como especialista de confiança na área, tendo por base os resultados que geramos.

ASSINE JÁ
aceito os termos e condições