2017-04-13
Editorial: Do avesso
Rita Ascenso

O mundo está virado do avesso mas nós vamos conseguindo manter a serenidade bem firme em cima dos carris da rotina e daquilo que conhecemos como certo. Se é que ainda alguma coisa pode ser considerada como certa.

Nota de Abertura da revista Edifícios e Energia 110, de Março/Abril de 2017. Para saber mais sobre esta edição, clique aqui.


O dia de amanhã e o seguinte dão-nos alguma tranquilidade. O certo dura menos tempo agora. Muito menos tempo. Ainda assim, é aquilo que nos motiva. A nossa capacidade de adaptação é, porventura, a maior conquista deste século! E, quando falamos em progresso, essa característica é a nossa maior virtude. Estamos a acordar todos os dias à mesma hora, estamos a trabalhar, a investir, a construir e ainda lutamos pelo tempo, porque hoje também queremos outras coisas. A vida continuou depois da crise económica. E tudo indica que está no bom caminho.

Sucede que, ao lado desta realidade, existe outra que cresce em silêncio. Há muito tempo. A história do medo, a cultura do medo, o grande medo... têm atravessado séculos e desenhado sociedades, regimes políticos e outras dinâmicas económicas até aos dias de hoje. Das pestes, à fome ou à terça-feira negra de 1929 nos EUA, muitos foram os acontecimentos que viraram por completo a História. Já são muitos os sinais e, em vez de estarmos concentrados nos comportamentos bizarros de Trump, convinha entender o que leva as pessoas a querer uma figura como ele. Convinha entender quais as motivações que levam os franceses ou os holandeses a arriscar eleger a extrema-direita para governar o seu país. É que esta extrema-direita não é moderada. Depois do Brexit, segue-se a onda do “made in France” e as fronteiras da Europa começam a fechar as portas. A América para os americanos, a França para os francesas, a Holanda para os holandeses e por aí fora. Safou-se a Áustria, mas até quando?

O chavão do populismo é uma perda de tempo. Pensadores e intelectuais querem à força arranjar um rótulo que explique estas mudanças porque não acreditam na sua essência. Nada mais errado! O medo de perder o emprego, de não ter uma casa, de não ter dinheiro para a escola dos filhos, etc. está a criar um novo mundo, ou antigo, aquele que já vimos e conhecemos. Lutámos todos pela liberdade e igualdade de oportunidades. Não o queremos de volta. Mas esse mundo é real com consequências enormes para a democracia e economia em todo o lado.

Trump já baniu do seu curto léxico três pontos importantíssimos para nós: renováveis, eficiência energética e alterações climáticas. Nos próximos meses, este filme de terror pode continuar: Le Pen vai recuperar a moeda nacional, abandonar os acordos com Bruxelas e a saída do Euro é inevitável. O fim desta Europa poderá ter os dias contados. Ao mesmo tempo, multiplicam-se os programas para a descarbonização do continente europeu! As metas para a sustentabilidade já passaram para 2º plano há muito tempo. Não porque não sejam importantes, mas porque existem outras prioridades que as atropelam.

 

Mesmo que Le Pen não ganhe, o comboio já está a andar e se uns correm, imagine-se, com o argumento da identidade nacional, outros, como nós, não podem assobiar para o lado e fingir que nada se passa. Não sabemos ao certo o que vai acontecer mas algum impacto vai ter na nossa economia. Estamos preparados? Não! Mas temos muito boas perspectivas. Já mostrámos a nossa capacidade de reinventar e inovar, de produzir e trabalhar. Estamos a fazer muito mais com muito menos e ainda assim estamos a crescer, independentemente de outros efeitos secundários. Dependemos do curto prazo e esse é o ponto. Portugal tem todas as condições para fazer frente a esta onda de medo e avançar. Continuar a avançar. Só depende de nós!

O mundo está do avesso mas nós não!

ASSINE JÁ
aceito os termos e condições