2018-12-04
Editorial: Um milagre a duas velocidades
Rita Ascenso

Sabemos que a reabilitação tem dado resposta à procura desenfreada ao alojamento local é um desastre em termos de qualidade construtiva, ambiental e energética; os conceitos da sustentabilidade, os edifícios verdes, a visão holística com soluções integradas que conhecemos como estruturantes e necessárias para os nossos bairros e cidades deixaram de se ouvir e, porventura, saíram da agenda mais mediática; a reabilitação urbana e a resposta ao turismo nos mais variados domínios, desde a hotelaria, à restauração e aos serviços, foram a prioridade e uma alavanca da economia decisivas na criação de emprego e dinamização de vários sectores de actividade; sabemos também que temos cidades mais bonitas e uma alma e identidade que nos fazem ter esperança para os próximos anos.

 

Nota de Abertura da revista Edifícios e Energia 119, de Setembro/Outubro de 2018. Para saber mais sobre esta edição, clique aqui.

 

Mas sabemos outras coisas. Esta alavanca veio de fora. Num primeiro momento, com pequenos investidores e com o tempo com grandes empresas internacionais que se foram instalando. Estas empresas abriram caminho a pequenas estruturas e a promotores portugueses que se foram profissionalizando e o milagre aconteceu! Sem nada fazermos, o trabalho apareceu, as fachadas pintam-se de cores novas e o PIB aumentou. Ao nível local, algumas medidas ajudaram, sejamos justos. Na maioria dos casos, os municípios responderam da melhor maneira que puderam. Melhor ou pior, estiveram e estão presentes.

 

As nossas dúvidas ou falta de respostas surgem hoje, inevitavelmente, contaminadas com o saudosismo de quem acompanhou todas estas matérias nos últimos 20 anos. De quem acompanhou a construção de um caminho onde a sustentabilidade e a criação de valor para as gerações futuras eram um desígnio. Várias estratégias e entidades uniram-se nesta cruzada difícil e nem sempre compreendida pelos nossos governantes: mas as coisas fizeram-se ou foram andando. Fomos pioneiros em vários domínios como a introdução da qualidade do ar interior no sistema de certificação energética.

 

Dinamizamos o solar, tirando partido do nosso maior recurso natural. Fizemos muita coisa incompleta e mal feita porque somos trapalhões em matéria de legislação. Complicamos tudo. Muitas vezes perdemo-nos no caminho, como é o caso dos certificados energéticos. Temos um bom sistema, mas curto naquilo que é o essencial e naquilo que seria desejável. A certa altura, fomos cedendo a outros interesses e tudo se começa a complicar, mas ainda tínhamos um desígnio, uma causa.

 

E hoje? O silêncio é avassalador! Não se ouve falar em desempenho ou eficiência energética. Não temos estratégia e as cadeiras estão vazias. Não temos gestores públicos conhecedores, defensores do tema e muito menos habilitados a gerir estas coisas. A bem da dinamização da economia e daquilo a que se chama o progresso económico, caem por terra e riscam-se do papel as auditorias e a fiscalização nos edifícios. Ninguém fiscaliza coisa nenhuma. Pior, criam-se regimes de excepção numa dimensão totalmente exagerada contra todas as regras e o bom senso. Resultado? Atiram-se para debaixo do tapete todas as obrigações construtivas no âmbito da sustentabilidade, segurança e resiliência. O desenvolvimento económico está acontecer, mas e o progresso também económico, social ou ambiental? Esta é a parte ou a pergunta que nos importa a nós cidadãos, porque resulta da ausência e, mais uma vez, da aparente falta de interesse de quem deveria governar estas coisas.

 

A outra parte, uma surpresa, é que, numa realidade paralela, muita coisa boa está a acontecer. As empresas internacionais incorporam estes conceitos e não prescindem deles. Quer como factor de valorização, quer como factor de qualidade indispensáveis à ocupação e gestão futura dos edifícios. Esta realidade vai à nossa frente e é puxada maioritariamente por empresas estrangeiras. São já muitos os casos e as boas práticas multiplicam-se. As oportunidades continuam e tudo indica que vão acompanhar-nos nos próximos anos.

 

É este o cenário que nos caracteriza neste momento. Um cenário dinâmico. Mas as conclusões são as mesmas: continuamos a não saber gerir o nosso país. As empresas de fora que investem, e ainda bem, vão ao leme a ensinar-nos aquilo que já sabemos, mas não pomos em prática. E para a razão desta incapacidade não conseguimos encontrar nenhuma resposta! 

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