2017-06-16
Edifícios “doentes” são uma realidade para os europeus
Filipa Cardoso

Humidade, mofo, falta de luz natural e temperaturas inadequadas são alguns dos problemas que afectam os edifícios europeus, com impactos negativos sérios na saúde dos ocupantes. Na Europa, um em cada seis europeus – o equivalente à população da Alemanha – vive numa casa com estas condições, revela um estudo recente, aumentando o risco de doença em 66 % e em 40 % a probabilidade de sofrer de asma.

 

Estas estatísticas chamam a atenção para a importância da qualidade do ambiente e ar interiores, uma área que não tem tido muita atenção a nível europeu e que tem também ficado para trás face ao crescente enfoque na melhoria do uso de energia nos edifícios. Tendo em conta que as pessoas passam cerca de 90 % do seu tempo no interior de edifícios, dois terços do qual nas suas casas, a qualidade do ar interior não pode ser descurada, estando já comprovado o seu efeito na saúde dos ocupantes. A situação pode estar a alterar-se, já que na próxima revisão da Directiva Europeia para o Desempenho Energético dos Edifícios, cujo texto proposto foi apresentado em Novembro pela Comissão Europeia, se refere que “as melhorias no ambiente interior reduzirão significativamente a mortalidade, a morbilidade e as despesas com cuidados de saúde”. O texto, que está ainda sujeito a aprovação, diz ainda que “os edifícios mais eficientes proporcionam maiores níveis de conforto e de bem-estar aos seus ocupantes e melhoram a saúde, reduzindo a mortalidade e morbilidade resultantes de um ambiente interior de má qualidade. O facto de as habitações estarem aquecidas e ventiladas de modo adequado atenua os eventuais efeitos negativos da humidade na saúde, designadamente nos grupos vulneráveis como as crianças, os idosos e os doentes”.

 

O estudo Healthy Homes Barometer (Barómetro para as Habitações Saudáveis, na tradução portuguesa) foi desenvolvido pelo Grupo Velux, em colaboração com o Ecofys, o Fraunhofer IBP e o Copenhagen Economics, e estima que os efeitos destes edifícios “doentes” na saúde das pessoas resultem em custos para a sociedade anuais na ordem dos 82 mil milhões de euros. Metade desse valor prende-se directamente com despesas médicas e de tratamentos em casos como a asma ou a doença pulmonar obstrutiva, sendo que a outra metade se refere a custos indirectos, tais como perda de produtividade laboral.

 

Directamente associada a este fenómeno dos edifícios doentes está a problemática da pobreza energética. Segundo o barómetro, os europeus que não conseguem aquecer de forma adequada as suas casas no Inverno estão duas vezes mais susceptíveis a sofrer de problemas de saúde. Ao todo, o número de europeus que se encontra em pobreza energética chega aos 49 milhões e as razões prendem-se não só com os baixos rendimentos, mas também com os preços da energia crescentes e o fraco desempenho energético das habitações. Em Portugal, 27 % da população portuguesa vive nessa situação, aponta o estudo.

 

Para reduzir estes números, refere o documento, é preciso apostar na reabilitação energética destas casas, centrando as atenções nos proprietários privados. Segundo o barómetro, o nível de capital privado disponível para a reabilitação nos Estados-Membros está na casa dos 30 biliões de euros, incluindo capital financeiro (como poupanças e acções) e não-financeiro (por exemplo, património). A análise feita pelo Copenhagen Economics estima que os agregados familiares europeus tenham um capital disponível médio de 139 mil euros, o que significa que 70 % dos agregados europeus terá capacidade para realizar uma reabilitação faseada. Ainda assim, é preciso desbloquear este investimento através de incentivos, refere o documento, já que, actualmente, a taxa anual de reabilitação de edifícios ao nível europeu é significativamente baixa, estando entre 1-2 %.

 

E o que motiva as pessoas a reabilitarem as suas casas? Melhorar a eficiência energética pode ser um bom argumento, mas não aparece sozinho. Três em quatro europeus admitem reabilitar a sua casa se isso melhorar o conforto e o bem-estar da sua família. Ainda assim, o estudo sublinha a necessidade de reforçar estes argumentos, sendo que, para reduzir para metade o número de edifícios com humidade na Europa em 2050, bastava que todos os anos 2 % do parque edificado europeu fosse reabilitado de forma adequada. Nesse cenário, alcançar-se-ia uma redução de 25 % do número de europeus com doenças respiratórias resultantes destas más condições de habitação.  

 

O estudo europeu descreve um edifício “doente” como um edifício com humidade ou mofo, falta de luz natural, insuficiência de aquecimento no Inverno ou problemas de sobreaquecimento no Verão. As conclusões resultam de inquéritos levados a cabo ao nível europeu com o objectivo de compreender a ligação entre as habitações e a saúde.

 

O estudo pode ser consultado na íntegra aqui.

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