2017-07-26
Desbravar caminhos para as coberturas verdes
Filipa Cardoso/Frederico Raposo

As coberturas verdes são bonitas e contribuem para a eficiência energética dos edifícios. O que lhes falta, então, para proliferarem nas nossas cidades?

 

O interesse pelas coberturas verdes em Portugal tem estado a crescer nos últimos anos, o que está a trazer mais dinâmica ao sector com o aparecimento de novos projectos. Mas, apesar deste pulsar mais forte do mercado, é unânime que as coberturas verdes ainda precisam de se afirmar como soluções de eficiência energética e de sustentabilidade para os edifícios e para as cidades. Este é um caminho que está a fazer-se, com as empresas e a Associação Nacional das Coberturas Verdes (ANCV) no comando. Os resultados começam a ganhar escala. Um deles é o Projecto Quinto Alçado do Porto, um projecto inédito em Portugal, numa parceria entre esta associação e a câmara municipal da cidade, que visa o desenvolvimento de um guia técnico com orientações e propostas de políticas municipais, ajustadas à realidade da cidade, e que deverá orientar a instalação de coberturas verdes em três edifícios municipais (ver caixa). Mas há mais: para este Verão, espera-se o lançamento de uma outra ferramenta considerada como fundamental para o mercado, o primeiro guia técnico português com boas práticas para o projecto, a construção e a manutenção de coberturas verdes.

 

Dinâmica crescente

A sua beleza consegue disfarçar a monotonia dos telhados, mas, quando se fala de coberturas ajardinadas, não é só de estética que se trata. A solução traz inúmeros benefícios, tais como a melhoria da eficiência energética do edifício, contribuindo para o seu isolamento térmico, ou a protecção e aumento do tempo de vida da impermeabilização. A nível macro, olhando à escala da cidade, ajudam a contrariar o efeito ilha de calor, criam nichos de biodiversidade, contribuem para a qualidade do ar, captando CO2 e produzindo oxigénio, e ajudam a reter a precipitação e a atrasar o pico de cheia. No entanto, e apesar de todos estes argumentos a favor, não é ainda comum encontrar esta espécie de “jardins suspensos” nas cidades. Contra eles pesam ainda questões como um elevado investimento inicial ou o desconhecimento, tanto por parte da sociedade civil, alheada do seu potencial, como por parte dos profissionais, que não dominam ainda as técnicas e hesitam em incorporá-los nos seus projectos. A tudo isto junta-se alguma complexidade inerente a estes sistemas vivos. Ainda assim, desde a criação da ANCV, em 2015, a solução ganhou um novo fôlego no nosso país. As empresas Argex (Grupo Preceram), Knauf Insulation e Landlab fazem parte da ANCV e as três confirmam que existe hoje um interesse crescente, assim como um aumento do número de instalações. “Nunca, como agora, se falou tanto sobre o tema e é notória a existência de mais projectos e obras”, constata Ávila e Sousa, director de marketing da Argex. “Embora a associação seja relativamente recente, tem realizado um trabalho notável nomeadamente junto dos municípios. Claro que este esforço de divulgação e desenvolvimento de estudos não começou agora e é a continuação do empenho das pessoas e empresas que fundaram e agora integram a associação e nomeadamente a sua direcção”, reconhece. Também Susanna Farnés, marketing manager da Knauf Insulation, evidencia um maior interesse na área, assim como “um maior conhecimento sobre o que são coberturas verdes, principalmente por parte dos prescritores, arquitectos, engenheiros, que estão muito mais despertos para o tema e [dispostos] a utilizar estas soluções nos seus projectos”.

 

Apesar desta tendência, para Ana Mesquita, da Landlab, Portugal é um “mercado ainda bastante imaturo e, por vezes, inconsciente dos riscos potenciais de coberturas verdes com problemas estruturais”. A arquitecta paisagista admite que há, “de facto, uma visão a curto prazo do período de vida das coberturas, muito focada no período de garantia de obra. As coberturas verdes deverão ser pensadas – projectadas e instaladas - para durarem tanto quanto o próprio edifício – 40 ou 50 anos”. De forma a contrariar esta dificuldade, a ANCV tem, a par da divulgação, também concentrado esforços na promoção de boas práticas de construção e manutenção, reforçando a relação com as empresas e profissionais, mas também com as universidades e unidades de investigação, garante Ana Mesquita. Também neste aspecto, há a destacar, para Susanna Farnés, o contributo que as marcas têm dado para o aumento do conhecimento técnico dos prescritores e instaladores.

 

Aparência não é tudo


O impacto visual de uma cobertura ajardinada é significativo, daí que a vertente estética assuma algum protagonismo num primeiro contacto com o conceito, deixando os benefícios energéticos para segundo plano. Todavia, as empresas relatam já uma mudança ligeira também nessa matéria, com “um melhor enquadramento das vantagens energéticas decorrentes da poupança que se consegue”, diz Susanna Farnés. “Há conhecimento crescente dos serviços prestados pelas coberturas verdes, em especial os económicos, nomeadamente a eficiência térmica e a protecção da impermeabilização. Aliás, a questão da térmica é uma das principais razões que levam os privados a optar por este tipo de solução construtiva”, afirma a responsável da Landlab. Mas a conclusão não é unânime e, na perspectiva da Argex, os ganhos no comportamento térmico dos edifícios não são ainda “factores de decisão” a favor das coberturas verdes. “No nosso país, são raras as situações em que a solução é escolhida como medida de eficiência energética. No entanto, existe claramente uma maior divulgação e vários estudos realizados evidenciando essa vantagem”, defende Ávila e Sousa. A pergunta impõe-se: o que corre menos bem? “O problema poderá estar no facto de a cobertura verde aparecer apenas como elemento estético a colocar por cima do edifício. Todas as questões relativas a térmica e acústica são analisadas no âmbito dos projectos da respectiva especialidade”, explica.

Sendo inquestionável que estão a ser feitos progressos no que toca ao conhecimento dos profissionais, as empresas concordam que há caminho a fazer. A ultrapassar, a Knauf Insulation aponta duas barreiras principais: “a primeira é cultural e tem a ver com a nossa traça arquitectónica tradicional, que não incluía coberturas verdes e que aqui encontra entraves, naturalmente ultrapassados pelas novas linhas da arquitectura, tanto na construção como na reabilitação, mas que não são ainda maioritárias (pelo menos, na construção privada); a segunda é financeira, pois a instalação das coberturas verdes envolve um maior investimento inicial e faltam estudos que mostrem claramente ao cliente o ganho e poupança que este vai ter no médio prazo, com um retorno do investimento rápido, para além das questões óbvias de sustentabilidade”.

Para além disto, o facto de o contributo das coberturas verdes para o desempenho energético do edifício não ser tido em conta na definição da sua classe energética também não ajuda. “Neste momento, ainda não existe em Portugal quantificação do contributo das coberturas verdes”, lamenta Ana Mesquita. A introdução de regulamentação para o sector “poderia ajudar a criar a normalização e standards que permitam aos clientes, profissionais ou particulares, fazer um comparativo mais rápido das soluções do mercado”, admite Susanna Farnés, sublinhando também a importância das certificações enquanto factor de confiança e valorização para as soluções.

 

Sem a ajuda da legislação, o caminho para a afirmação no mercado nacional pode ser mais íngreme para as coberturas verdes. Porém, há uma outra ferramenta no horizonte que deverá ajudar o sector nesta tarefa. “A ANCV irá lançar em Agosto o primeiro guia técnico português para coberturas verdes que define as boas práticas para o projecto, construção e manutenção”, revela Ana Mesquita. Resultado de uma equipa multidisciplinar e incluindo as várias áreas que as coberturas verdes tocam, como a arquitectura, a arquitectura paisagista, a agronomia, a engenharia civil, a botânica, as estruturas, a gestão de águas pluviais, entre outras, o objectivo não é que seja uma receita universal, mas que dê “aos projectistas ferramentas que permitam a escolha do sistema mais bem adaptado a cada cobertura, com todas as variáveis em específico: tipo de edifício/laje, tipo de clima, tipo de vegetação e uso da cobertura”. Por seu turno, Ávila e Sousa acredita que esta será uma ferramenta vantajosa para o sector – “poderá contribuir positivamente para alterar a situação, melhorando o conhecimento sobre a diversidade de contributos das coberturas verdes nos edifícios e cidades”.


Para o sucesso, é fundamental que o guia seja adoptado pelos municípios como regulamento e pelos projectistas como instrumento de trabalho, alerta a arquitecta paisagista. “Desta forma, será possível que as coberturas verdes em Portugal sejam bem executadas, com uma correcta manutenção planeada, seguras para os utilizadores e com garantia de sucesso para os donos de obra”. 

 

O interesse das cidades

Cidades como Copenhaga e Toronto há muito que adoptaram medidas que impõem a instalação destas coberturas nos telhados de novas construções. Entre as missões da ANCV, elencadas aquando da sua criação, está a sensibilização do poder político, em particular dos municípios portugueses, e os frutos começam a aparecer. Exemplo disso é o Projecto Quinto Alçado do Porto, que arrancou em Agosto do ano passado. Nasceu de um desafio lançado por Paulo Palha, presidente da ANCV, à câmara municipal do Porto, que “recebeu a proposta com muito entusiasmo, uma vez que estava em concordância com a sua visão e objectivos para a cidade do Porto”, relata fonte da associação.

A iniciativa inédita em Portugal visa a criação de um guia técnico com orientações e propostas de políticas municipais, ajustadas à realidade da cidade, e contempla a selecção de três edifícios municipais que vão receber coberturas verdes. Por enquanto, e segundo fonte da câmara municipal do Porto, sabe-se que um dos edifícios seleccionados está localizado na Rua de São Dinis, estando já em fase de execução, e que “surgiram outras intenções que já se encontram em fase de projecto”, caso do Terminal Intermodal de Campanhã. O projecto começa também a dar que falar lá fora, com um reconhecimento recente no Congresso Green Infrastructure: Nature Based Solutions for Sustainable and Resilient Cities, em Itália.

Uma das maiores ambições do projecto é a inclusão das coberturas verdes na estratégia urbanística, ambiental e de espaços verdes da cidade. Para o Projecto Quinto Alçado do Porto, foram estudados, detalhadamente, dois casos de cidades, Londres e Linz, que adoptaram diferentes medidas de incentivo à instalação de coberturas verdes, de modo a aprender com o que já foi feito, identificando possíveis barreiras e adequando contextualmente o planeamento de medidas a aplicar no caso português.


No âmbito do projecto, a câmara municipal do Porto e a ANCV encontram-se, ainda, “numa fase de avaliação do modelo que melhor se adapta à cidade”. Mas dentro dos objectivos definidos pelo plano, encontram-se a quantificação de coberturas verdes já existentes na cidade, a avaliação dos edifícios com potencial, a definição de áreas prioritárias para o desenvolvimento de uma estratégia global e a selecção de três edifícios municipais para receber este tipo de solução, que, depois, serão edifícios modelo para a continuidade da estratégia.

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