2018-10-23
Eficiência energética para preservar um “bem cultural e histórico” chamado Alfama
Filipa Cardoso

O projecto Smart Sustainable District (SSD) pretende fazer frente aos efeitos das alterações climáticas, ao mesmo tempo que dá resposta às pressões sociais do turismo, num dos bairros históricos mais emblemáticos de Lisboa: Alfama. A iniciativa, financiada pelo programa Climate KIC, tem já uma área piloto em vista e várias ideias para inovar com sustentabilidade.

 

Melhorar o desempenho energético dos edifícios existentes é uma medida incontornável para tornar qualquer bairro resiliente às alterações climáticas. Alfama, em Lisboa, não é excepção e, com isso em mente, a equipa do projecto SSD AlfAma, financiado pelo Climate KIC e coordenado pela Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL), está, desde Setembro do ano passado, de “mangas arregaçadas”. Às preocupações com os edifícios, juntam-se a procura pela mobilidade de baixo carbono e qualidade do espaço público, numa acção integrada com vista à sustentabilidade e resiliência climática, e que não pretende ficar alheia às questões sociais.

 

Numa sessão técnica em Junho, a equipa do projecto, da qual fazem parte Júlia Seixas, coordenadora do Climate KIC Portugal e professora da FCT-UNL, e Vera Gregório (Lisboa E-nova), deu a conhecer os resultados da primeira fase, abrindo as portas à segunda etapa, que prevê o desenvolvimento de um local de demonstração. O local está escolhido: o Pátio Dom Fradique. O equipamento, cuja construção remonta ao séc. XVII, está hoje em ruínas e pertence à câmara municipal de Lisboa.

 

Quais são as sugestões para Alfama?

 

Sendo um bairro tradicional da capital portuguesa, Alfama caracteriza-se pelas suas ruas estreitas e declive acentuado, entre o Castelo de São Jorge e a zona ribeirinha do Tejo, mas também pela existência de relações de vizinhança fortes. Porém, o envelhecimento da população e a perda dos residentes “típicos” são também uma realidade, que tem vindo a ser acentuada com o crescente fluxo turístico e processo de gentrificação.

 

Com isto em mente, o projecto identificou, ao todo, 17 propostas de soluções integradas para o local, no qual se inclui a reconstrução do edificado com vista ao conceito NZEB (Nearly Zero Energy Buildings), privilegiando a implementação de medidas de eficiência energética e o uso de tecnologias de energias renováveis, e a aplicação de medidas passivas inovadoras, como os telhados e paredes verdes. A par da energia, será possível também priorizar o uso eficiente dos recursos hídricos, com a integração de soluções para reaproveitamento de águas pluviais nos edifícios e a recuperação de cisternas para a reutilização de águas para efeitos de rega. Para além disso, as propostas prevêem ainda a integração de habitação com rendas controladas, a existência de hortas urbanas para a produção de alimentos, com compostagem de resíduos no local e a criação de uma plataforma comunitária de consumidores, e o incentivo à mobilidade suave e promoção da acessibilidade universal.

 

O que falta, então, para avançar? Segundo a equipa do projecto, basta apenas o “interesse [da autarquia para] fazer avançar o projecto, havendo meios e recursos para o efeito”, garantiu Luís Ruivo, arquitecto desta entidade municipal. “Neste momento, na situação presente e no estado em que se encontra, julgo que não há qualquer impedimento ao desenvolvimento e implementação do projecto”, continua. O técnico explica também que, do ponto de vista dos regulamentos urbanísticos, “o Plano de Urbanização do Núcleo Histórico de Alfama e Colina do Castelo, presentemente em vigor, não impõe nenhuma restrição que impeça as soluções apresentadas, bem pelo contrário, dado que se enquadram nos objectivos do Plano Director Municipal (PDM) de Lisboa quanto à sustentabilidade e redução dos impactos ambientais”.

 

Para além disso, a iniciativa está também em plena sintonia com o Plano de Pormenor de Reabilitação Urbana da Colina do Castelo (PPRUCC), que está neste momento a ser desenvolvido. O PP pretende olhar a “reabilitação urbana como um instrumento para a resiliência”, explicou Luís Ruivo. A proposta tem em vista a valorização dos valores culturais, com o património geológico e arqueológico em destaque, e dos recursos ambientais, nomeadamente no que se refere à densificação da estrutura ecológica municipal, com a preservação e resgate de logradouros verdes permeáveis, e à manutenção do sistema de vistas. Outro dos pontos centrais será a integração do ciclo urbano da água nesta área da cidade, recuperando a sua importância de outros tempos, através do aprofundar do conhecimento das águas subterrâneas da Colina do Castelo e valorização dos seus elementos.

 

Um bairro de cada vez          


Alfama não é caso único em Portugal e muito menos na Europa. “A problemática dos centros históricos, a mitigação de processos de gentrificação e a necessidade de adaptação climática destas áreas urbanas únicas e diferenciadoras de cada cidade, são comuns a muitas cidades europeias”, aponta Vera Gregório. Por esse motivo, o SSD não intervém apenas em Portugal e tem, entre os seus objectivos, a criação de uma rede colaborativa entre várias cidades europeias. Inclusivamente, o mote do programa é “transformar as cidades, um bairro de cada vez”.

 

O trabalho tem vindo a ser feito de forma faseada e colaborativa, envolvendo os actores locais e os próprios residentes, explica Vera Gregório. “Existe actualmente uma consciência colectiva de que Alfama é um bem cultural e histórico a preservar, por um lado, e, por outro, a necessitar de ser renovado para atrair novos residentes e criar condições para um turismo mais sustentável”, aponta a especialista.

 

Importante para o sucesso do projecto é trabalhar e inovar para a sustentabilidade com a comunidade, considera Júlia Seixas. “É necessário promover uma mudança dentro dos agentes que trabalham e vivem [no bairro] e que querem ser motores de alguma transformação que se faça ali”, disse a investigadora, acrescentando que “os novos modelos de negócio devem fazer parte do empowerment local”.  

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