Mercado poderá crescer 15% ao ano até 2020, prevê ESTIF
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Recessão económica, crise no sector da construção, cortes e instabilidade nos quadros de incentivos financeiros foram algumas das razões que conduziram, em 2010, o mercado solar térmico europeu a uma queda pelo segundo ano consecutivo. O mercado caiu 13% mas a indústria considera que é apenas uma questão de tempo até que as metas obrigatórias, os Planos de Acção para as Renováveis e a implementação da nova EPBD comecem a dar frutos.

 

O mercado europeu de solar térmico voltou a cair durante o ano de 2010, desta vez, 13%, comparativamente ao ano de 2009. Os dados estatísticos da ESTIF (European Solar Thermal Industry Federation) para os mercados dos 27 Estados-Membros da União Europeia (UE) e Suíça, apresentados em Junho durante a feira Intersolar Europe, em Munique, Alemanha, mostram que, durante o ano anterior, foram instalados 3.694.940 novos m2 de colectores solares térmicos, o que equivale a 2.586 MWth de nova capacidade instalada, contrapondo-se aos 4 milhões m2 instalados em 2009 e aos 4,75 milhões m2 em 2008.

As razões para a nova descida - pelo segundo ano consecutivo - são várias. Primeiro, há que ter em conta que, sendo 2008 um ano tão excepcional em termos de vendas como foi, era praticamente inevitável que se seguisse uma diminuição. Em segundo, a grave crise financeira de 2008/2009 continua ainda hoje a fazer-se sentir, reflectindo-se numa diminuição dos orçamentos governamentais e, consequentemente, em cortes e instabilidade nos incentivos ao sector. Segundo o secretário geral da ESTIF, Xavier Noyon, "um dos factores que contribui para esta queda é a falta ou a natureza imprevisível dos quadros de incentivos. Os ciclos de pára-arranca que daí resultam e o adiar de decisões afectaram adversamente as vendas e minaram a confiança dos investidores e consumidores". Exemplos disso encontram-se nos casos alemão, português e britânico. Não se pode também esquecer que o sector do solar térmico enfrenta um "concorrente" indirecto feroz ao nível de investimentos, em pleno boom e que beneficia de incentivos e apoios generosos: o fotovoltaico.

O impacto negativo que a recessão teve no sector da construção foi também determinante para esta contracção em vários mercados solares térmicos por toda a Europa. Com a estagnação da nova construção e as baixas taxas de renovação do parque edificado existente, não houve ainda tempo para usufruir das vantagens que as novas regulamentações vão trazer aos mercados. "Esperávamos obter algum benefício da implementação combinada das metas obrigatórias para as renováveis e de normas de desempenho energético mais elevadas, mas este é um processo que está apenas a começar", afirmou o presidente da ESTIF, Robin Welling.

Apesar destes números, o mercado europeu mantém-se ainda acima dos níveis registados em 2007. A ESTIF espera que a situação se inverta em breve e, segundo Welling, para isso deverão contribuir não só os Planos Nacionais de Acção para as Renováveis (PNAER), como a implementação da revisão da Directiva europeia para o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD). A posição é reforçada por Xavier Noyon: "este é o terreno para optimismo: a análise dos PNAER consolidados, apresentados no princípio deste ano por cada um dos 27 Estados-Membros, mostram que durante a próxima década a quota de solar térmico deverá aumentar em 15% por ano. Esperemos que isto se materialize no mercado".

Para já e perante a actual situação económica, a ESTIF afirma ser difícil fazer uma previsão fidedigna para o 2011. Os resultados do primeiro trimestre foram encorajadores, mas, em alguns dos mercados mais importantes, as vendas caíram em Abril. A registar ainda que alguns mercados falharam na reacção a novas medidas favoráveis, tais como o Renewable Heat Incentive (RHI) no Reino Unido, o novo programa de incentivo na Polónia ou a retoma do incentivo na Alemanha, combinadas com um regresso ao crescimento económico em alguns casos e aumento do preço dos combustíveis fósseis.

De acordo com Welling, esta segunda contracção provocou um choque nas empresas do sector que tiveram de adaptar a sua produção ao pico de vendas que aconteceu em 2008. Em 2010, as empresas implementaram uma redução rígida na capacidade de produção, chegando-se mesmo a observar uma concentração da indústria em alguns países e, pela primeira vez, numa década, houve algumas redundâncias. O presidente da ESTIF considera que a indústria precisa de adaptar as estratégias, produtos e a forma como promovemos o solar térmico em termos competitivos, que agora também vem de outras fontes de energia renováveis.

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Gráfico 1: Mercado solar térmico nos UE27 e Suíça

Alemanha cai e ainda arrasta mercado europeu

No ano que passou, o mercado alemão - o maior da Europa - registou a maior queda a nível europeu: -29%. Já em 2009, a descida tinha sido de 23%, o que coloca agora o mercado em números próximos dos de 2007, com uma nova capacidade instalada de 805 MWth (1.150.000m2).  Apesar de o comportamento do mercado na Alemanha continuar a influenciar os resultados ao nível europeu, a ESTIF considera que 2010 confirmou uma tendência já observada em 2009: a dependência geral em relação ao mercado alemão está a diminuir, com o maior mercado a representar apenas um terço do mercado total europeu.

As declarações contraditórias e indecisões relacionadas com o financiamento do programa de incentivos "Marktanreizprogramm" (MAP) tiveram um efeito devastador junto do mercado. Numa altura de forte competição com investimentos em outras fontes de energia renováveis, de colapso do sector da construção, baixos preços dos combustíveis fósseis e restrições ao crédito, o governo alemão minou a confiança dos consumidores e investidores alemães no solar térmico. Para a ESTIF, é "extremamente desapontante que este exemplo de más práticas venha de um país que tem sido líder na introdução do enquadramento regulatório correcto com a obrigação renovável, incentivos generosos e apoio à Investigação e Desenvolvimento. É ainda mais desapontante uma vez que análises independentes mostraram que os incentivos financeiros para o solar térmico são, no geral, benéficos para a economia".

 

Mercados principais com tendências diversas

Os outros mercados principais, como os italiano (3,2%), espanhol (-13,9%), austríaco (-21,4%), francês (-3,4%) e grego (3,9%), com valores entre os 200.000 e os 500.000m2 de nova área instalada, comportaram-se de forma diversa em 2010. A quota relativa destes mercados está a decrescer, com tendências opostas a evidenciarem-se, por exemplo, Espanha a enfrentar uma forte queda no mercado e Itália a consolidar a sua posição.

No caso italiano, o mercado assegurou a sua posição como segundo maior na Europa, alcançando os 490.000m2 de nova área instalada (343.000MWth), o que representa um aumento de 3,2% comparativamente a 2009. Para isto contribuiu o prolongamento da dedução fiscal de 55% de instalações solares térmicas até, pelo menos, finais de 2011. Nessa altura, o incentivo poderá ser substituído por outro mecanismo financeiro semelhante a uma tarifa feed-in, para incentivar a produção de calor renovável. Os planos italianos para o futuro são ambiciosos, uma vez que o país pretende ser o maior mercado europeu solar térmico.

Pelo contrário e pelo segundo ano consecutivo, o mercado espanhol contraiu-se, ficando pelos 336.800m2 de nova área instalada (235.760 kWth). Até 2008, este foi um dos mercados mais promissores na Europa, chegando a crescer mais de 50%, no entanto foi muito afectado pela crise no sector da construção nos anos que se seguiram. As previsões apontam para uma estagnação do mercado da construção, e por agora a introdução de um incentivo para a produção de energia é encarado como o factor que pode reanimar o sector solar térmico.

Na Áustria, o mercado enfrentou uma forte queda, de 21,4%, com a nova área instalada a alcançar apenas os 279.898m2 (195.928kWth), o que significa que em apenas um ano o mercado contraiu-se para valores de 2007. De acordo com a ESTIF, uma contracção deste género neste tipo de mercado é surpreendente mas resulta também da própria maturidade do mercado, uma vez que os consumidores precisam agora de elementos motivadores tais como o aumento dos preços do petróleo e gás, novos mecanismos de incentivo, inovações nos produtos, etc. Todavia, no futuro próximo, espera-se um aumento modesto, mesmo se os programas de apoio não forem alterados. De acordo com um estudo de mercado recente, as vendas de equipamentos solares térmicos mostraram sinais positivos de recuperação no primeiro trimestre de 2011, um aumento de 20% comparativamente com o registado no mesmo período de 2010.

Contrariamente ao que se podia esperar, 2010 foi um ano com notícias surpreendentemente boas para o mercado grego, isto porque apesar de todos os problemas financeiros que perturbam o país, a nova capacidade instalada cresceu 3,9% para os 149.800kWth (214.000m2). Tal deve-se ao actual sistema de incentivos disponível, que cobre medidas de eficiência energética e a substituição de equipamentos de aquecimento antigos. Outros factores que contribuem para isto são também a sensibilidade geral que existe aos aumentos dos preços da energia e a forte consciencialização das vantagens do solar térmico, economicamente atractivo uma vez que oferece períodos de retorno na ordem dos cinco anos.

 

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Gráfico 2: Nova capacidade instalada para mercados 200.000 e os 400.000m2

 

Mercados mais pequenos crescem, mas não o suficiente

Mercados que estão em desenvolvimento, ou, por outras palavras, cuja nova área instalada continua abaixo dos 200.000m2 mas acima dos 50.000m2, cresceram num total de 8,8%. Deste grupo fazem parte Portugal (4,9%), Polónia (1,1%), Suíça (-3,9%), República Checa (66,4%), Dinamarca (6,6%) e Reino Unido (29%). Porém, o crescimento combinado destes mercados de 40.000m2 não é suficiente para compensar a queda registada nos mercados maiores.

Em Portugal, os efeitos da "Medida Solar Térmico 2009" ainda se fizeram sentir em 2010, uma vez que um número substancial de instalações subsidiadas foi feito ainda na primeira metade do ano. Esta foi a principal razão para um crescimento ligeiro do mercado português de quase 5%, alcançando uma nova capacidade instalada superior a 100MWth (182.271m2). Os incentivos para as Pequenas e Médias Empresas (PME) e Institutos Particulares de Solidariedade Social (IPSS) lançados ainda em 2010 terão o seu impacto positivo em 2011.

Na Polónia, tem-se assistido a um crescimento estável nos últimos anos, mesmo sem a existência de qualquer incentivo financeiro. Por essa razão, as expectativas estavam em alta perante a introdução do fundo nacional ambiental, lançado em Agosto de 2010. No entanto, tal não aconteceu e o mercado registou apenas um ligeiro crescimento de 1,1% na nova capacidade instalada (102.134kWth/145.906m2). As razões apresentadas pela ESTIF para este pequeno aumento são o anúncio prematuro do incentivo, que inibiu as vendas, o seu início lento e a complexidade do processo. O país assistiu ainda ao adiamento de outro programas, entre eles 16 de desenvolvimento regional. Porém, esta conjuntura deverá ter efeitos positivos em 2011.

Uma contracção no mercado suíço foi uma surpresa, depois de vários anos de crescimento estável. A nova área instalada em 2010 ficou-se nos 140.000m2. A ESTIF atribui este comportamento à falta de novos ou diferentes estímulos no mercado, com todos os cantões a oferecerem já incentivos ou deduções fiscais ao sector.

O ano anterior foi bastante confuso no mercado do Reino Unido. Muitos fabricantes sofreram com o cancelamento do Low Carbon Buildings Programme e falta de informação sobre o novo Renewable Heat Incentive (RHI) acabou por afectar as vendas. No entanto, estas cresceram com o mercado a alcançar 73.640kWth de nova capacidade instalada (115.100m2), o que representa um aumento importante no mercado de 18%. A implementação do RHI e do Code for Sustainable Homes poderá impulsionar ainda mais o mercado.

Impressionante foi também o crescimento registado na República Checa: 66,4%. A nova área instalada chegou aos 86.000m2, mais 35.000 do que em 2009. O sector beneficia do programa de apoio "Green Savings", que aparece como a principal razão para este crescimento.

No caso da Dinamarca, a nova área instalada continuou a crescer (6,6%), muito devido à instalação de sistemas de larga escala por todo o país (58.100m2), ligados depois a redes de aquecimento urbano.

 

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Gráfico 3: Nova capacidade instalada para mercados abaixo 200.000m2

 

Planos Nacionais de Acção para as Energias Renováveis [caixa]

A meta de 20% de energias renováveis a que a  Europa se propôs chegar em 2020 é obrigatória. O enquadramento legal para a concretizar foi introduzido com a Directiva europeia para as Renováveis (2009/28/EC), em 2009, obrigando todos os Estados-Membros a incorporarem uma quota de energias renováveis no seu mix energético. "A Directiva preenche uma lacuna legislativa, pela primeira vez, o aquecimento e arrefecimento que representam metade do consumo de energia final será abrangido por uma directiva europeia que promove as energias renováveis", refere o documento da ESTIF, que espera que esta seja uma alavanca para o desenvolvimento a longo prazo de tecnologias solares térmicas.

A lei comunitária obrigou ainda os 27 a elaborarem e apresentarem, até ao início deste ano, junto da Comissão Europeia um PNAER. De acordo com a análise da ESTIF, os PNAER mostram que o mercado solar térmico está ainda na sua "infância" na Europa, com países que não o incluem sequer (Estónia, Finlândia, Letónia e Roménia) ou que apresentam metas relativamente baixas (Bulgária, Dinamarca, Holanda, Suécia e Reino Unido).

Os planos apresentam uma estratégia até 2020 e indiciam alterações geopolíticas para o sector em termos absolutos. Segundo a ESTIF, os cinco grandes mercados serão a Itália, Alemanha, França, Espanha e Polónia. A Áustria e Grécia, actualmente entre os líderes europeus, cairão para sexta e sétima posição, respectivamente.

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Gráfico 4: Análise das metas para solar térmico na Europa 2020

 

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