Sector pede medidas urgentes
Download PDF

2013 foi mais uma marca negativa para o solar térmico nacional: as novas instalações caíram 55% e foi por pouco que se ultrapassaram os 40.000 m2. Metas comprometidas e empresas em modo de sobrevivência extrema são o retrato actual do sector.

 

 

Depois de uma queda de 29% em 2012, estima-se que a contracção do mercado solar térmico em Portugal chegue aos 55% em 2013. As previsões constam do relatório trimestral da Associação Portuguesa para a Indústria Solar – APISOLAR, segundo as quais, até finais de Setembro, foram instalados no país 30.870 m2de novos colectores solares térmicos (21.609 kWth), o que representa uma quebra de 41% relativamente ao mesmo período do ano anterior. Com estes números, e tendo em conta as metas oficiais definidas para 2020 (2,2 milhões de m2de área acumulada), o país tem de instalar 1,2 milhões m2em seis anos.

A confirmarem-se as previsões da associação, o ano de 2013 fechou com 41.160 m2de nova área instalada, números que levam o mercado para níveis de 2007, antes do impulso da Medida Solar Térmico 2009. Este programa de incentivos foi a principal alavanca ao mercado entre 2008-2010, mas a sua descontinuidade em 2011 trouxe impactos negativos às empresas, em particular pelos investimentos feitos para responder ao pico de procura proporcionado pelo incentivo e que foram impossíveis de suportar quando esta caiu. No ano passado, porém, as empresas tiveram um bónus com o lançamento do Aviso Edifício Eficiente, no âmbito do Fundo de Eficiência Energética (FEE), que disponibilizou dois milhões de euros para a instalação de sistemas solares térmicos e de janelas eficientes em edifícios residenciais existentes. A procura pela tecnologia de aquecimento foi significativamente maior, com mais de 70% das candidaturas, o que obrigou à alocação de uma parte das verbas dedicada às janelas eficientes.

“O Aviso 3 do FEE resultará em cerca de 1500 novas instalações de solar térmico (cerca de 4500 m2)”, esclarece o vice-presidente da APISOLAR para o solar térmico, Victor Júlio. O incentivo pecou, de acordo com o sector, pelo excesso de burocracias, mas nem por isso deixou de ser uma boa notícia - “Apesar da burocracia envolvida, demasiada sob todos os pontos de vista dos intervenientes, num mercado tão reduzido, acaba por significar mais de 10% do volume transaccionado em 2013 em Portugal”.

O sector encontra-se numa encruzilhada, à espera de boas notícias, com muitas dificuldades no acesso ao financiamento, com uma crise económica “intensa que determina a saída de algumas multinacionais e o encerramento involuntário de outras tantas empresas nacionais, algumas delas históricas no sector”, retrata Victor Júlio (ver caixa). A APISOLAR garante que tem reunido esforços para atenuar este quadro, nomeadamente junto dos decisores políticos (Direcção Geral de Energia e Geologia - DGEG, ADENE) e instituições financeiras. “Não há nada em concreto de momento, mas há a convicção de todos os envolvidos da necessidade de criar condições de trabalho ao mercado e de forma muito rápida”, afirma.

A principal causa para esta situação é, segundo o representante da APISOLAR, o estado da nova construção e da reabilitação. “Ora, sabemos bem como está o mercado da construção nova, com os dados do INE a apresentarem 17.000 fogos concluídos em 2012, representando uma queda continuada e permanente de 20% ao ano desde 2003”, aponta. “E é também fácil de perceber a reacção das famílias a investimentos em reabilitação num momento de incerteza quanto à disponibilidade financeira no curto prazo. Estas duas realidades conjugadas com a total ausência de condições de financiamento a taxas minimamente razoáveis para as renováveis, mesmo que para créditos de dois a cinco mil euros, justificam estes resultados”, acrescenta.

Neste contexto, para a associação, a reanimação do mercado passaria pela abertura de linhas de crédito bonificadas para as renováveis e de crédito ao consumo para valores entre os dois a cinco mil euros. “Seriam [estas linhas] potenciadoras da economia local, economia real, e resultariam num crescimento de oportunidades de negócio para o solar, pois ao ser uma solução reconhecida como madura e de resultados palpáveis na redução de consumos no dia-a-dia, com toda a certeza, devolveria dinâmica ao sector”, considera Victor Júlio. “Perante esta realidade, o Governo, sob representação da tutela da energia e ambiente, terá de adoptar com a maior brevidade, programas e medidas ajustados ao perfil de consumo dos portugueses que permitam alavancar o sector solar térmico nos próximos seis anos. Tendo como referência as previsões apontadas neste relatório, ficam por instalar cerca de 1.200.000 m2até 2020”, declara o responsável.

Em Abril ano passado, em entrevista à Edifícios e Energia, o director-geral de Energia, Pedro Cabral, garantiu que o Executivo estava a “estudar uma nova medida para impulsionar o solar térmico, mas não de forma isolada”, com o propósito de “dar execução ao que está previsto no PNAEE”.

Até finais de Setembro, a capacidade negociada de sistemas solares térmicos registou uma diferente distribuição nas áreas de fabrico (em Portugal – 33%; no estrangeiro – 61%), importação (5%), distribuição (1%) e instalação (1%). Os colectores planos são a tecnologia comercializada dominante, representando praticamente a totalidade do mercado – 99,52%.
A preferência na tipologia de sistemas centrou-se nos sistemas forçados, com 47% do mercado, seguidos pelos sistemas em termossifão (36%) e os colectores individuais (17%). No terceiro trimestre, o volume de negócios estimado foi cerca de 12,3 milhões de euros.

Os dados da APISOLAR têm como base os inquéritos trimestrais da APISOLAR junto dos seus associados e que representam, em média, 70% dos agentes activos do mercado.

 

Metas comprometidas

Estes números de mercado condenam empresas e postos de trabalho, mas são também críticos para o cumprimento das metas do país para o sector. No documento de revisão do Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética (PNAEE), publicado em 2013, as metas para o solar térmico apontam para 2,2 milhões de m2instalados em 2020. No final deste ano, a área acumulada atingirá 1.007.930 m2, antevê a APISOLAR. O que significa que temos seis anos para mais do que duplicar este número. Para que tal aconteça, o crescimento médio anual do mercado teria de rondar os 11,5%, um cenário que ficaria aquém das potencialidades do país, mas que se torna demasiado ambicioso na conjuntura actual. Os últimos anos mostram isso mesmo: entre 2003 e 2010, o mercado cresceu de forma regular, com um pico entre 2008 e 2009 (+103%) que acompanhou a tendência europeia e que recebeu impulso da Medida Solar Térmico. Resultado, passámos de 318.950 m2de área acumulada em 2008 para 672.697 m2em 2010. A este cenário, seguiram-se três anos de quebras, -30% em 2011, -29% no ano passado e estima-se que, em 2013, tenhamos uma redução no mercado de 55%.

 

Europa mantém tendência negativa

O mercado europeu continua sem conseguir recuperar e, de acordo com o presidente da ESTIF (European Solar Thermal Industry Federation), Robin Welling, a contracção em 2013 deverá ter sido de 9%. “De acordo com o nosso primeiro inquérito junto das associações e instituições nos diferentes Estados-Membros, o mercado vai obviamente cair novamente 9% em 2013 relativamente a 2012”, disse, numa entrevista em Novembro ao sítio online especializado Solarthermalworld.org.

Para o responsável, a competitividade do sector e a simplificação dos sistemas continuam a ser factores a melhorar, já que a redução dos custos na cadeia de valor não se reflecte junto do cliente final e a complexidade afasta muitos instaladores de fazerem uma verdadeira promoção da energia solar térmica. A reduzida capacidade de investimento das famílias e a concorrência das outras tecnologias são também determinantes para o mercado.

Enquanto se resolvem estas questões no mercado europeu, a internacionalização é “a única saída” para as empresas, considera o presidente da federação europeia, mas com alguns cuidados: “se os europeus pensam que a internacionalização é só copiar-colar, vão falhar (...) se nos vamos internacionalizar, é fundamental a adaptação local, fazer parcerias com o know-how e mentalidades locais. Devemos estar abertos aos investimentos locais, à criação de valor e de parcerias locais – aí, a internacionalização pode ser bem sucedida”, alertou na mesma entrevista.

 

Qual o estado de espírito do sector neste momento? [caixa]

APISOLAR: “Estamos perante um sector que esteve à espera de legislação (REH e RECS), que está há dois anos à espera da decisão sobre a simples revalidação do CAP Solar - que é o documento imprescindível para realizar instalações solares térmicas -, que não tem condições de financiamento bancário para as suas instalações, mesmo financiamento de curto prazo, perante um sector emerso numa crise económica intensa que determina a saída de algumas multinacionais e o encerramento involuntário de outras tantas empresas nacionais, algumas delas históricas no sector”.

 

Sobre o mercado de 2013 [caixa]

“O decréscimo de 55% previsto para 2013 reflecte bem o que todas as empresas do sector dizem: está tudo muito parado!

Muitas empresas dedicadas ao solar térmico já desapareceram, ficando praticamente as empresas do aquecimento, isto é: as generalistas, normalmente ligadas aos grandes grupos económicos - têm mais por onde se defender.

A parcela de mercado da construção nova onde o solar térmico é imposto pelo regulamento está reduzida a uns 12000 fogos concluídos. Retirando alguns que não podem receber o solar dá-nos um valor na ordem dos 20000m2.

O restante divide-se entre a habitação existente – o mercado com o maior potencial e que foi objecto da medida solar de 2009 – e o mercado dos serviços – instituições, hotelaria, centros desportivos, etc.

O primeiro está constrangido tanto pelas dificuldades financeiras de muitos como também pelo medo de investir num momento de grande expectativa: nada de novo, infelizmente.

O segundo está igualmente muito condicionado pela crise: dificuldades orçamentais das entidades estatais e pouca capacidade e vontade de investir das empresas particulares.

A única medida de apoio ao solar térmico foi o FEE . No entanto tem uma dimensão muito reduzida – na ordem dos 2500m2 – o que está muito longe de representar uma salvação para o sector. Se para os 120000m2 do mercado de há 2 anos representava 2%, agora “já” chega aos 6%!

Não é seguramente neste contexto que vamos atingir as metas de 2020 do Plano Nacional para a Eficiência Energética e Energias Renováveis que espera crescimentos médios anuais na ordem de 11,5% até 2020 e que eram considerados pouco ambiciosos por muitos. Para já, tivemos uns desastrosos - 33%, -30% e -55% nestes últimos anos: quem resiste a isto?”.

Por: Rafael Ribas, consultor para o solar térmico

ASSINE JÁ
aceito os termos e condições