Hammarby Sjöstad - Uma ecovila que dá lições de sustentabilidade
Download PDF

Com um planeamento pensado desde os anos 80, a preocupação do modelo de Hammarby Sjöstad recaí, essencialmente, sobre soluções ecológicas e água.
Hoje, a região é o maior projecto urbanístico de Estocolmo que tem vindo a aplicar um conjunto de práticas promissoras.

 

A olho nu poderia ser uma vila como outra qualquer. Mas Hammarby Sjöstad tem uma estrutura que faz dela um modelo a nível internacional em termos de sustentabilidade. Desde a arquitectura dos edifícios aos transportes públicos e gestão dos desperdícios, a ecovila traçou um conjunto de objectivos que tem vindo a desenvolver com sucesso desde os anos 80. A região conta com um eco-ciclo próprio que engloba soluções ambientais quer para a energia, quer para o desperdício, a água ou o sistema de esgotos. O segredo deste modelo, como explica Erik Freudenthal, director de comunicação do centro de informação ambiental de Hammarby Sjöstad, assenta num plano integrado que deve ser previamente pensado e adequadamente estruturado. “Diria que o cerne e a chave do sucesso de Hammarby são o plano integrado que é definido antes de se tomar todas as decisões e antes de se definir onde devemos ter casas, escolas ou o que devem ser espaços verdes”.

As decisões tomadas relativamente à infra-estrutura serão implementadas ao longo de todo o projecto esperando-se que, a título de exemplo, no sector energético os habitantes gerem metade da energia que usem, algures em 2018. Para isso, a energia solar é convertida em electricidade ou usada para aquecer águas e o biogás é extraído de lamas de depuração e resíduos alimentares. Os resíduos de combustíveis e biocombustíveis são aproveitados para gerar aquecimento urbano e electricidade, assim como as águas residuais purificadas são utilizadas para aquecimento e arrefecimento.

Bons exemplos são a central térmica de Högdalen que usa o lixo para fins de  aquecimento e electricidade, bem como a central eléctrica de Hammarby que vai buscar o calor das águas residuais, tratadas na central de tratamento, para gerar aquecimento. Esta água residual, depois de arrefecida é, ainda,  usada para arrefecer a rede de distribuição de água por toda a região. “75% das vilas e agrupamentos de prédios, em particular em Estocolmo, estão ligadas às redes de aquecimento urbano. Uma alta percentagem do aquecimento é feita através de renováveis e esperamos que em 2025 seja feita exclusivamente por renováveis, sem recurso a petróleo ou carvão”, conta Erik Freudenthal.

Já no que toca à gestão de resíduos, esta é feita através de um método de classificação dos diferentes tipos de lixo: o produzido pelas propriedades, o que não pertence às propriedades e o considerado perigoso. Para fazer a recolha de desperdício são utilizados dois sistemas automáticos - um móvel e outro estacionário. Ambos são sistemas subterrâneos que funcionam por sucção de vácuo para recolherem os diferentes tipos de lixo, para os locais correspondentes, sem que estes se misturem. A grande diferença está na forma como o lixo é armazenado antes de ser transportado para o destino final para ser tratado. No primeiro sistema, o lixo é recolhido em diferentes contentores subterrâneos dependendo do “sector”  em que foi colocado, sendo que, os contentores são depois esvaziados por um colector equipado com um sistema de sucção por vácuo, que gere lixo doméstico e de resíduos de comida.

No segundo sistema, o lixo é recolhido em canais com ligação subterrânea à estação central de recolha. O lixo é transportado através de sucção por vácuo e colocado em diferentes contentores que quando cheios são recolhidos por camiões.

 

Gestão optimizada de águas

Outro dos objectivos de Hammarby Sjöstad é reduzir para metade o consumo de água, que ronda, em Estocolmo, os 200 litros por pessoa/dia. Com a finalidade de chegar aos 100 litros, o município criou instalações amigas do ambiente e recursos que permitem acima de tudo poupar. Por exemplo, a água da chuva e aquela que provém do derretimento de gelo é toda processada localmente, de forma a não sobrecarregar a central de tratamento de águas residuais. A água escoada é canalizada para Sickla Kanal, Hammarby Kanal ou Danvikskanal, através de um canal de escoamento. Também os telhados verdes que se podem ver em alguns edifícios estão cobertos por plantas com o intuito de recolher, absorver e depois libertar a água proveniente da chuva, sendo que as plantas ajudam a isolar e ao mesmo tempo criar espaços verdes na paisagem.

O tratamento das águas residuais é outra preocupação, uma vez que se quer que a quantidade de substâncias perigosas que chega ao arquipélago por esta via seja reduzida e que contribua para o aquecimento e arrefecimento urbanos. O lodo do esgoto biodegradado é também reaproveitado e usado no sector agrícola como fertilizante. De forma geral, estas medidas pretendem que o nível de substâncias perigosas seja reduzido em 50% e os fosfatos em 95%, que deverão ser separados e reciclados para uso fabril.

As ambiciosas metas definidas para a região levaram à criação de um espaço de avaliação de tecnologias de ponta e com esse intuito foi construída a central de Sjostadsverket, onde se realizam testes através de processos químicos, físicos e biológicos. As águas residuais enviadas para esta central de tratamento vêm exclusivamente de unidades residenciais para que os níveis de contaminação sejam os mínimos.

 

Mobilidade e educação ambiental

Ao nível da rede de transportes, com o objectivo de que 80% das deslocações dos residentes e trabalhadores sejam feitas em transportes públicos, de bicicleta ou a pé, foi criada uma linha de metro à superfície – Tvarbanan- que percorre o centro da região e cujas rotas de autocarro foram desenhadas para ter acesso directo a Estocolmo. Um ferry faz a ligação a Hammarby Sjö ao longo do ano e um ferry adicional opera entre Hammarby Sjöstad e Nybroviken, em Estocolmo, durante os meses de Verão. Ainda neste âmbito, os residentes e trabalhadores da região têm 46 viaturas à disposição para partilhar. Cerca de 910 pessoas já aderiram a esta iniciativa e utilizaram estes carros eléctricos, que podem ser recarregados no exterior do edifício do centro de informação ambiental, GlashusEtt. “Um estudo feito há 8 anos revelou que o uso de carros nesta área reduziu em 40% e eu penso que isso se deve a uma tomada de decisão das pessoas: “Devo usar o meu próprio carro ou usar transportes públicos?”, comenta Freudenthal, confidenciando que “seria interessante fazer um novo estudo agora e perceber se continuamos com o mesmo cenário ou, talvez, um ainda melhor”.

Apesar de todos os esforços, ainda há aspectos que podem ser aprimorados em Hammarby Sjöstad, essencialmente ao nível da educação ambiental: “há apartamentos virados para Sul com 20ºC no Verão e apartamentos adjacentes com 40ºC, o que faz com que as pessoas instalem sistemas de ar condicionado. O que não é bom para o ambiente por causa da electricidade e afins”, exemplifica Freudenthal. Sendo o objectivo da cidade diminuir em 50% o impacto total ambiental, em 2018, o especialista lembra que ainda há quatro áreas em que a redução foi apenas de 30 a 40%. “Devemos lembrar-nos de que esta não é uma ecovila no sentido em que as pessoas não assinam um contrato em como se vão comportar de determinada forma quando se mudam para a cidade”, comenta.

Desde a sua concepção que o modelo tem sofrido modificações, uma vez que as novas tecnologias e as novas soluções “têm vindo a influenciar os objectivos do projecto definidos nos anos 90”. Ao todo, o desenvolvimento desta moderna região requereu um financiamento que partiu da união de forças de 25 empresas de construção – que cobriu 80% dos custos totais – e de duas agências governamentais – a Administração de Ferrovias e Administração de Estradas da Suécia. O modelo de Hammarby Sjöstad serviu ainda de base ao Conselho de Comércio Externo da Suécia na criação do Symbiocity, o paradigma sueco para desenvolvimento de cidades sustentáveis.

ASSINE JÁ
aceito os termos e condições