Energia e a crise. A mudança de paradigma energético.
António Ferreira dos Santos*
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Portugal é um país com uma elevada dependência energética. A inexistência de recursos energéticos fósseis conduz a este cenário, ainda que, e devido ao aumento da presença de tecnologias que exploram Fontes de Energia Renováveis [FER], essa dependência tivesse passado de 89% em 2005 para 80% em 2012. O Petróleo Bruto continua a manter um papel essencial no Mix Energético Nacional, representando 43% do consumo total de Energia Primária em 2012. Por outro lado, o Gás Natural representou 20%, o Carvão 14%, a Biomassa 13% e a Energia Eléctrica 10%. No que diz respeito ao consumo de Energia Final, em 2012 consumiu-se 9% menos do que em 2011. A Energia Final per capita tem vindo a diminuir, com o rácio de 1.79 em 2007 e de 1.64 em 2011. Os transportes continuam a ser o principal consumidor de Energia Final, com 40% em 2011, seguido da indústria com 30,7% e do sector residencial com 16%. O comércio e serviços tiveram também um peso relevante de 10,9% enquanto que a agricultura e pescas 2,4%. O consumo de electricidade por tipo de actividade, representou-se por 35% na indústria, 34% no sector dos serviços e 28% nos agregados domésticos.

Um olhar atento aos números apresentados revela que Portugal continua a depender energeticamente do exterior, e como tal sujeito a externalidades e instabilidades geopolíticas. Não obstante, também estamos na presença de uma nova realidade energética com uma diminuição do consumo. No entanto, Portugal continua a ter uma Intensidade Energética aproximadamente 10% superior à média da UE27. Isto significa que gastamos mais 10% em Energia para produzir a mesma riqueza que os nossos congéneres europeus. Estes factos evidenciam um sério problema de competitividade. É oportuno e essencial orientar os programas energéticos no sentido da procura e não do lado da oferta. Neste momento, os investimentos efectuados nas renováveis só fazem sentido se considerarmos a eficiência na equação da matriz energética.

A nível Europeu verifica-se uma transição para uma nova era energética assente em três pilares: a sustentabilidade, a competitividade e a segurança de abastecimento. O acidente nuclear de Fukushima em Março de 2011 foi o catalisador que originou o phase-out destas centrais em alguns países europeus. Por exemplo, na Alemanha pararam, até à data, oito reactores após o acidente e prevê-se parar mais nove até 2022. Pressupõe-se também, e até 2050, diminuir as GHG até 80%, aumentar a penetração das renováveis até 80% na produção de electricidade e reduzir em 50% o consumo da Energia Primária na Alemanha quando comparado a níveis de 2008. Em Portugal Continental, e com a desclassificação da Central Térmica do Pego (a carvão), prevista para 2021, o sistema electroprodutor térmico ficará totalmente dependente das Centrais Térmicas a Gás Natural. Dado que Portugal não dispõe deste recurso, a sua importação será sempre necessária o que colocará o país numa situação de extrema dependência de uma única fonte de origem fóssil. Como a sua importação é principalmente de dois países – Nigéria e Argélia, que são politicamente instáveis, poderá estar em causa a segurança de abastecimento. Por outro lado, são conhecidas as limitações das interligações eléctricas da Península Ibérica ao resto da Europa, pelo que é essencial o reforço das mesmas permitindo também que Portugal possa escoar um eventual excesso de produção renovável, aproveitando assim todo o seu potencial. O aumento da penetração das FER para produção de electricidade possibilitará também que o país fique menos exposto a externalidades tais como a que aconteceu no incidente de 4 de Novembro de 2006, com origem na rede norte da Alemanha e que originou o corte intempestivo de 19% de consumo eléctrico nacional com repercussões visíveis.

Estamos então perante uma nova revolução energética. Que lições se podem tirar do passado, o que podemos aproveitar do presente e como devemos olhar para o futuro?

A actual conjectura económico-financeira, com uma consequente diminuição do consumo, deve ser olhada como uma oportunidade para moldar o sistema energético nacional futuro. O sector eléctrico deve ser olhado, não como um problema para as famílias e indústrias, mas sim como um meio para se atingir um fim, seja ele económico, seja social e até ambiental. Se bem usada, esta forma “nobre” de Energia pode aumentar a competitividade das empresas e consequentemente das suas famílias. O binómio “consumo mais eficiente e produção renovável” irá originar redução de emissões, diminuição da dependência energética, combater as alterações climáticas e ao mesmo tempo promover a descarbonização da economia aumentando desta forma a sua competitividade.

A nível industrial, muitas medidas têm sido aplicadas visando o aumento da Eficiência Energética, tais como a Integração Energética e a instalação de Centrais de Cogeração. No entanto, e a nível doméstico e de serviços, ainda há muito para fazer. Cada vez existem mais cargas associadas aos consumidores BT (transformadores, UPS’s, fornos de indução, microondas, etc.) sendo que estas apresentam baixos factores de potência originando consumos globais excessivos de Energia Reactiva e consequentemente investimentos suplementares a nível de produção e distribuição. Por outro lado, a implementação de sistemas de monitorização e gestão de Energia levarão à criação de novos hábitos do lado do consumidor, com a tomada de consciência face à informação disponível bem como a mudanças de atitudes e comportamentos. Por comparação, quando se abastece uma viatura, o cliente sabe de quantos litros precisa e até quanto pode gastar. Pois, na electricidade deveria ser igual. A qualquer momento deveria saber quanto está a consumir e quais as medidas e acções a tomar visando uma diminuição desse consumo. Além disso, e também a partir de medidas de redução voluntária de consumo (Demand Response), com incentivos financeiros e novos tarifários, o peak load poderá ser diminuído. Com isso, poupanças financeiras e económicas podem ser incrementadas assim como as emissões de CO2 podem ser diminuídas.

No entanto não devemos olhar somente para a electricidade como o principal problema energético do país, visto que esta representa somente 20% da Energia Final. O sector dos transportes consome cerca de 40% do total de Energia Final, onde os transportes rodoviários concentram 33% deste consumo (Portugal apresenta baixa utilização dos transportes colectivos rodoviários e muito baixa utilização do modo ferroviário). Os transportes geram um monstruoso desperdício de Energia assim como uma elevada poluição e emissões de CO2. Por outro lado, são geradores de congestionamento de tráfego nas cidades e consequentemente de diminuições de produtividade. Desta forma, deve ser desenvolvido um novo paradigma para a mobilidade urbana e sustentável, assente nos transportes públicos, nos táxis colectivos, no carsharing e no carpooling, assim como restrições à circulação nas cidades (criação de corredores prioritários, estudar a colocação de portagens e tarifar exponencialmente o estacionamento). Devem ser revistas as políticas de planeamento e ordenamento urbano assim como criar soluções de intermodalidade que permitam integração e o fácil acesso aos transportes públicos. A mobilidade sustentável deverá também ser promovida através da integração de veículos eléctricos na rede (conceito de V2G – Vehicle-to-grid). Os veículos, se carregados durante a noite, poderão aproveitar o eventual excesso de renováveis e a diminuição do consumo para se carregarem de uma forma inteligente. Durante o dia, e sempre que solicitados, inteligentemente também podem injectar Corrente Reactiva na rede, possibilitando uma maior estabilidade no perfil de tensão. Estas medidas iriam criar mudanças de hábitos e consequentemente diminuição de emissões e de consumo de combustíveis fósseis.

A racionalização do consumo energético deverá passar também pelos edifícios, com alteração dos padrões de comportamento e na forma como estes são utilizados. Estas mudanças não devem ser sinónimo de desconforto mas sim de opções de construção e de utilização mais sustentável. A melhoria no comportamento energético de um edifício pode, muitas vezes, beneficiar a produtividade dos seus utilizadores. Ainda verifica-se em muitos edifícios sistemas de climatização para produção de calor, quando Portugal é o país da Europa com maior exposição solar. As cidades e os edifícios inteligentes também devem ser vistos como oportunidades para o desenvolvimento sustentável e para o contágio comportamental. O Demand Side Management, o District Heating e a Tri-Geração devem ser desafios que os principais actores de decisão devem considerar.

Face ao exposto, a Energia não deve ser considerada como um dos principais problemas do nosso país. Este é o momento para dizer que a Energia poderá ser o impulso para a solução de muitos desses problemas assim como de outros que venham a surgir. A economia do país, alicerçada por um percurso sustentável e descarbonizado, irá definir o nosso caminho. Os cidadãos, as cidades, as regiões, o país e as políticas nacionais têm um papel essencial na definição do nosso futuro energético onde a segurança de abastecimento, a sustentabilidade e a competitividade têm de ser garantidos. Uma verdadeira Economia Verde.

 

 

 

 

*Profissional do Sector Oil & Gas

Doutorando - Sustainable Energy Systems (Programa do Massachusetts Institute of Technology com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto).

Master – Sustainable Energy Systems (Programa do Massachusetts Institute of Technology com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto).

Master - Engenharia Electrotécnica e de Computadores – Energias Renováveis

Licenciatura em Engenharia Electrotécnica e de Computadores

 

 

 

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