Editorial: Vale tudo?
Rita Ascenso

O planeamento sempre foi mais do que um conceito que muitos sempre consideraram uma perda de tempo. Planear obriga-nos a pensar, a criar e a decidir. Um processo que não é fechado em si próprio, antes deve ser exigente e em simultâneo flexível, receber inputs de fora e ir-se ajustando em função do que vai acontecendo.

 

Planear permite-nos prever, encontrar soluções e acrescentar valor a tudo o que fazemos. Planear dá-nos descanso. Andar à deriva no "logo se vê" aumenta os riscos, requer o dobro dos recursos e compromete as nossas competências e qualidade do que verdadeiramente queremos.


Nada de novo, se pensarmos nas nossas vidas ou no mais básico manual de gestão. Mas planear nada tem a ver com desenrascar, área na qual somos os campeões da Europa e arredores. Percalços, surpresas ou imprudências existem sempre e fazem parte da vida. Ainda bem. Não fazerem seria uma grande chatice. Não queremos uma vida cinzenta e se há coisa que temos é uma capacidade de improvisação e adaptação ímpares que nos torna mais fortes. O que verdadeiramente nos deveria preocupar é olhar para esta correria desenfreada que se instalou para fazer qualquer coisa. Há menos recursos, já sabemos. É preciso fazer tudo mais rápido e mais barato, mas é mais do que isso.


Começa a instalar-se uma nova forma de estar e de viver que é aflitiva. Esta história da lei da contratação pública pelo valor mais barato e outras que, sem serem lei, já estão enraizadas em todo o lado estão a dar cabo da qualidade do que fazemos e por consequência da qualidade do que temos e, fundamentalmente, estão a dar cabo daquilo que somos. E nós somos bons, muito bons!

Não estou a falar só da arquitectura, da engenharia, dos nossos edifícios ou da nossa qualidade de vida. Estou a falar da nossa exigência. Hoje, quem quiser planear fora da folha de um qualquer orçamento em excel é uma ave rara que perde qualquer vontade de voar quando abre um caderno de encargos, seja ele do Estado, seja de privados. Vale o logo se vê e quem vier atrás que apague as luzes. É isto que queremos? Como vamos estar daqui a dez anos? Entender a necessidade de as coisas acontecerem cada vez mais rápido sim, mas planear e executar para amanhã, não! O impacto daquilo que hoje estamos a fazer mal vai reflectir-se para a frente.

Estamos a perder oportunidades. Como primeiro passo recomendo voltar aos concursos sérios, onde o decisor volta a ter liberdade de escolher se quer o melhor, o "assim, assim" ou o mais barato. Depois, proponho recuperar a nossa capacidade crítica e não alinharmos em qualquer coisa. Precisamos de recuperar as nossas valências pedagógicas e quase que organizar uma cruzada em prol da qualidade e daquilo que são as boas práticas. O vale tudo não é sustentável muito tempo... e isso nós já sabemos!

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