Editorial: De volta ao turismo e à reabilitação urbana
Rita Ascenso

Na última nota, falámos da desconfiança do FMI quanto à sustentabilidade do nosso deficit. Falámos ainda de que Portugal está na moda e nas respostas a esta loucura que estão a mudar por completo a dinâmica das cidades para o bem e para o mal. Temos de voltar ao tema da reabilitação urbana, que também está no centro de todas estas questões porque também existem novidades.


Nota de Abertura da revista Edifícios e Energia 112, de Julho/Agosto de 2017. Para saber mais sobre esta edição, clique aqui.



O Governo reconhece o problema que está a crescer na habitação e, insisto, se juntarmos numa equação: a reabilitação feita à pressa, na maioria dos casos fora da regulamentação, o turismo (alojamento local) desenfreado de curta duração, a crise no arrendamento (não há casas para alugar), a corrida ao crédito à habitação para a compra de casas inflaccionadas e ao consequente endividamento das famílias a patamares de 2009, voltámos a pedir dinheiro como se não houvesse amanhã! Temos um problema, um grande problema!  O Governo já o reconheceu, mas as cidades assobiam para o lado e estendem a mão às taxas e taxinhas que, até há pouco tempo, não estavam previstas em nenhum orçamento. Vamos continuar na moda mais algum tempo, mas, até lá, muitas coisas podem acontecer, para além de darmos cabo e descaracterizarmos as nossas cidades. Insistir neste problema é chamar a atenção para duas coisas: o impacto enorme na sustentabilidade dos nossos edifícios e o bem-estar das pessoas.


Hoje, vivemos com menos e já nos habituámos a isso, mas será que não aprendemos a lição? Em vários domínios, estamos no bom caminho. Noutros, já sabemos que não e andar a reboque de tendências sem qualquer estratégia é sempre uma má estratégia. Este é o tema do momento. Estão previstas mais reabilitações, muitas mais. Seja para empreendimentos de luxo seja para alojamento local. A reabilitação urbana continua a crescer. O mais recente barómetro da reabilitação urbana da AICCOPN – Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas, publicado em Junho, mostra um crescimento homólogo trimestral na ordem dos 22 %. Uma excelente notícia. Mas há que prevenir e rapidamente. É preciso criar estratégias para que as pessoas voltem a ocupar o centro das cidades, talvez restringir o alojamento local, fiscalizar a intervenções de reabilitação e pensar no dia de amanhã. Os turistas não vão durar para sempre e as famílias estão de novo a endividar-se para comprar casa ou para arrendar. Os valores são absurdos. Isto vai estoirar! Esta bolha de ilusão que está a crescer é transversal a toda a economia. Claro que este é um lado do turismo e da reabilitação. Há outros sectores que correm de vento em poupa e sem qualquer problema. Esses são, de facto, estruturais. Esperemos! A questão é que é perigoso mexer com a classe média e complicar a nossa vida. A bolha, ao rebentar, espalha-se por toda a economia e já o devíamos saber!

A boa notícia é que o Governo diz que vai actuar. O primeiro- ministro anunciou em finais de Junho, como nova prioridade deste Governo, a criação de políticas públicas para uma habitação mais acessível que permita conjugar a residência nos centros das cidades e o seu rejuvenescimento com o turismo. É que este equilíbrio é possível! Só é preciso definir linhas e objectivos para o futuro próximo num horizonte pensado para as pessoas e cidadãos.

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