Editorial: Ai, o turismo!
Rita Ascenso

Para o FMI, “a aceleração da economia portuguesa é apenas passageira”. Esta é a convicção de uma entidade mundial que não conseguiu antecipar aquilo que se passou no nosso país durante o ano passado. Extraordinário! À força, os Técnicos do Fundo Monetário Internacional tiveram de rever em alta as suas projecções e, ainda assim, o pessimismo domina. O que lhes deve ter custado! O argumento está nas reformas estruturais que, não sendo feitas, comprometem os indicadores até 2020.

 

Nota de Abertura da revista Edifícios e Energia 111, de Maio/Junho de 2017. Para saber mais sobre esta edição, clique aqui.



Todos sabemos que têm de ser feitas e este Governo vai ter de as fazer, quer queira quer não. Não há deficits que aguentem muito tempo sem diminuirmos a despesa pública. O endividamento público tem de diminuir rapidamente. Também sabemos que pode haver mais crescimento se desenvolvermos áreas estratégicas da economia e com elas gerar riqueza, emprego e exportações. Não vou voltar a falar do sector da construção. Já todos sabemos o que representa e o que poderia significar se fossem criadas condições. Só que estamos, provavelmente e todos os dias, a aumentar um problema que paradoxalmente continua a ser muito positivo para a economia e para todos nós. A grande alavanca que tivemos no último ano e no anterior pode não ser estrutural – uma palavra que o FMI adora! Tudo indica que não vai ser e não queremos dar-lhes razão! E essa alavanca tem um nome: turismo. Procurámos saber quanto representou durante o ano de 2016 e em comparação com os anos anteriores, para o sector da construção, ou até para os cofres do Estado. As contas ainda não estão feitas. Ainda assim, arriscamos algumas conclusões. O ano de 2015-2016 foi marcado por uma forte reabilitação ou construção de raiz de muitas unidades hoteleiras independentemente da dimensão.

Hotéis, apartamentos, hostels, hotéis de charme... nasceram a uma velocidade incrível. As grandes construtoras ainda não se aguentam só com este mercado. Não é o mercado delas e, por isso, os lucros caem ou, como fez a Teixeira Duarte, pedem o estatuto de “empresa em recuperação”. Mas nasceu um espaço para as médias e pequenas construtoras que o souberam aproveitar, só que numa lógica de baixo custo que encaixou em pleno num mercado em que tudo se quer mais rápido e mais barato. É neste contexto de crescimento desenfreado que apartamentos e prédios das principais cidades entram no Airbnb e noutras plataformas digitais. As câmaras municipais das principais cidades não têm como inverter esta tendência só que hoje não há casas para arrendar aos cidadãos. O crédito à habitação regressou a valores de antes da crise. Vejam bem a dimensão! Muitas pessoas saem das suas casas para entrar neste negócio. Estão todos à espera do turista pouco abonado para estadas de duas e três noites. Uma imagem transversal a muitas outras áreas de actividade que se transformaram de forma a dar resposta a necessidades imediatas. Lisboa, Porto e outras cidades podem ser super “cool” e sair em todos os guias, mas estão a criar um problema para um futuro próximo. Estão a reabilitar mal e à pressa, a retirar os cidadãos do centro das cidades e a pensar em quem vem de passagem todos os dias.

Dizem que o Terreiro do Paço está lindo. Tive de passar por lá no outro dia e confirmo. Mas gostava de saber quantos lisboetas usufruem daquele espaço ou vão trabalhar de bicicleta, percorrendo quilómetros de ciclovias lindas e cheias de cor. Não sou contras as ciclovias, mas contra algumas prioridades. Temos o exemplo de Barcelona, que passou da cidade mais “cool” da Europa, anos a fio, para uma cidade virada para o turista. Resultado, o valor da cidade desceu a pique, já não é “cool”, as empresas e cidadãos estão nas periferias e os turistas de “curta duração” enchem Las Ramblas, La Sagrada Família ou o Passeig de Gràcia.

Não queremos ser velhos do Restelo, mas também não queremos dar razões ao quase (esperamos) ex-presidente do Eurogrupo ou ao FMI para que nos continuem a tratar como saloios, pobrezinhos ou irresponsáveis. Gostamos de ser “cool”, mas queremos mais. Somos muito mais do que isso. Somos nós que vamos cá ficar nas próximas décadas. Adoramos as nossas cidades. Queremos mais visão e liderança. Cidades que pensam nos seus moradores, nas suas empresas, numa reabilitação responsável, controlada e regulada, que cumpra a legislação que enquadra a eficiência energética e a sustentabilidade dos edifícios, dos bairros e dos territórios. Vamos entrar num novo ciclo com as eleições autárquicas e convinha começar a encontrar estratégias porque o turismo não vai durar para sempre e os efeitos negativos começam a fazer-se sentir. É que, hoje, as pessoas, as empresas e a economia em geral estão cada vez mais dependentes das estratégias para as cidades.

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