Editorial: A política e a banalidade (do mal?)
Rita Ascenso

Os assuntos são tantos que é difícil escolher. Podemos optar pelo humor ou pela indignação, pela crítica ou por qualquer outra coisa que nunca é aquela que queremos verdadeiramente. Porque aquilo que queremos é outra coisa. Queremos instituições que funcionem, um Estado forte, que facilite a vida dos cidadãos, das empresas, e que esteja atento, muito atento, à mudança e aos novos desafios que aparecem. Um Estado empenhado em acompanhar a inovação e a criar pontes e auto-estradas com a economia, com o ambiente e com as pessoas. Em sentido figurado, claro, porque não precisamos de mais betão. Precisamos de governantes à prova de bala, comprometidos connosco e com o país, e que cumpram a Lei. E aqui complica-se tudo na escolha de um tema. Escolhi mais do que um, inevitáveis, e uma palavra que os une: a banalidade. No dicionário, este substantivo feminino aponta para uma coisa trivial ou para uma futilidade.


Primeiro, Trump e, agora, o Brasil ensinaram-nos muita coisa. Aquilo que mais impressiona é a banalização dos extremos e do mal que hoje se tornou uma forma de pensamento, de fazer política e de comunicar. Tudo é extrema-direita ou tudo é extrema-esquerda. Tudo é fascismo, nacionalismo ou comunismo. Tudo é radicalismo. Tudo é a banalidade do bizarro e do violento. A violência tornou-se banal!


Hannah Arendt, porventura uma das figuras mais controversas de sempre e incompreendida por quase todos, é hoje citada com enorme frequência. Não é por acaso que o pensamento desta filósofa política tem um papel central nos debates contemporâneos e sobretudo nos actuais. Nascida na Alemanha e judia, em 1941, foge para os Estados Unidos (EUA), depois de presa pela Gestapo pelo seu envolvimento no movimento sionista. Nos EUA, desenvolve a sua obra, na qual se destaca a teoria do totalitarismo. Defende Eichmann, aquando do seu julgamento em Jerusalém, o que deixou a comunidade judaica, da qual fazia parte, em estado de choque! Com este tema desenvolve a teoria filosófica sobre a “banalidade do mal”. Para ela, este alemão responsável pela “solução final” não é um monstro, mas, sim, uma pessoa que cumpre ordens sem questionar a sua moralidade. Uma realidade, para ela, transversal a uma sociedade que se massificou e que se foi tornando incapaz de fazer julgamentos morais. Para Arendt, Eichmann é um exemplo de como o mal se pode tornar banal. Neste trabalho, Arendt reflecte sobre o mal quando este atinge o próprio Estado. Uma análise dura que vale a pena conhecer e sobre a qual vale a pena pensar.


A pasta da Energia passou para o Ambiente. Podíamos discutir se foi uma boa ou má opção. As vantagens e as desvantagens. Já lá esteve. Não é novidade. Vejo as pessoas empenhadas em dissertar imensas considerações sobre o assunto e, na maioria, muito válidas e importantes. Habituámo-nos a discutir assim a política e as coisas do país. O que é importante é o que vai acontecer agora. Tudo o resto não é considerado, é aceite e não se questiona. Mas e o que é o resto? É tudo! É o comprometimento que deverá ser precedido por uma moral colectiva e política que pondera e analisa. Que define caminhos. Que está virada para o país e apenas para o país. Para o bem público. Tornou-se banal que nada disto aconteça e que a governação das coisas públicas fique pela trivialidade daquilo que é a política. Uma política na qual a futilidade se instalou como banal. E futilidade não é pintar as unhas no Parlamento na apresentação do Orçamento de Estado. Futilidade é ter outros interesses e outra agenda que não a do país e das pessoas. Temos um primeiro-ministro que remodela o Executivo numa altura que considerou apropriada. Apropriada politicamente, claro e muito bem.

 

Há um conjunto de analistas que a considera um golpe de mestre pela oportunidade e pela equipa escolhida. Nada a opor. Sucede que o ministro da Economia que foi escolhido, aquele e não outro, não podia governar com a pasta da Energia. Incompatibilidades profissionais de Pedro Siza Vieira relacionadas com ligações à privatização da EDP levaram-nos a pensar que tínhamos saído da banalidade da política e que a moral tinha vingado. Ao contrário, Pedro Siza Vieira é nomeado ministro e a pasta passou a ser um empecilho para a Economia e para o Executivo. Politicamente, resolveu-se o assunto, arrumou-se a Energia no Ambiente.


Não consigo fazer humor com a Energia. Espero que alguém o faça com substância e rapidamente. Doeu-me bastante, confesso! Não porque a Energia tenha passado para o Ambiente. Até porque, dependendo da estratégia ou visão que se tenha, não estou completamente segura de qual a melhor solução. O problema é esse, onde está a estratégia deste Governo em matéria de Energia e Sustentabilidade? Doeu-me, sobretudo, a banalidade com que se aceita e se vê estas coisas acontecerem. Comenta-se com trivialidade, mas a mim doí-me esta banalidade com que se gerem as coisas públicas e como se exercem as funções do Estado. Doí-me este estado de futilidade que se foi instalando nas nossas vidas. 

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