Ar condicionado: recuperar é possível
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Neste momento as grandes obras estão paradas e a nova construção é inexistente. Mas existe um factor que vai ser decisivo para as empresas: a reabilitação associada à poupança e racionalização energética. É aqui que deverão estar centrados os argumentos das empresas mas não só. O Estado tem que assumir esta matéria como um factor de progresso e manutenção de postos de trabalho. A situação é dramática e são várias as medidas que já deviam estar a funcionar e que podem ajudar. A certificação dos edifícios do Estado com mais de 500 m2ou a reabilitação dos edifícios da Administração Pública no âmbito do Eco.AP são fundamentais para reanimar o mercado e abrir novas perspectivas. Têm que arrancar as inspecções aos equipamentos e sistemas (ar condicionado com potências superior a 12 kW e caldeiras com potência superior a 20 kW). Os edifícios de serviços com mais de 1.000 m2já deviam estar certificados. Estes e outros factores são hoje mais do que nunca decisivos para a reanimação de um mercado que continua a cair e com empresas a fechar. A eficiência energética é o objectivo e neste momento não a atingimos sem a reabilitação dos edifícios, nem sem a renovação de sistemas e equipamentos de AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado).

Vivemos provavelmente o pior ano no sector do ar condicionado de que há memória. É assim em quase todos os sectores da economia. O ano de 2010 ainda foi um ano de crescimento no sector do ar condicionado em Portugal, embora tímido, tanto ao nível do sector doméstico como no sector dos grandes edifícios. Mas logo a seguir, 2011 encetou um processo de queda que não mais parou até finais deste ano de 2012 e prevê-se que 2013 não seja melhor. Este é o sentimento geral de um mercado que olha para a internacionalização como um factor de sobrevivência, sobretudo na área do projecto e instalação. Os distribuidores, por seu lado, tentam escoar produtos nos novos mercados em expansão, onde Angola e Moçambique se destacam e ajudam a atenuar a derrapagem no nosso país. Os gestores falam pela primeira vez em quedas na ordem dos 50% a 60% do mercado, um número alarmante que já levou ao encerramento de várias empresas em Portugal e de alguns distribuidores com uma história de décadas no sector.

Sendo uma área de negócio dependente do sector da construção, o mercado do ar condicionado é arrastado por um dos sectores mais afectados pela crise. Só este ano estima-se que o mercado da construção seja responsável pela perda de 60 mil postos de trabalho. De acordo com a Federação Portuguesa da Indústria da Construção e Obras Públicas (FEPICOP), os cerca de 10% de quebra no mercado em 2011 foram justificados pela queda de 17% na habitação, de 8,5% na construção de edifícios não residenciais e de 5% em obras de engenharia civil. Este ano, e em comparação com o mês de Julho do ano anterior, a queda no nosso país ronda os 20%. Segundo o Eurostat, Portugal registou a segunda maior descida depois da Eslovénia no espaço europeu e neste período a zona euro caiu 4,7. Paralelamente a Hungria (7,7%), a Bulgária (3%) e a Alemanha (2,2%) registaram os maiores crescimentos na construção em comparação entre Julho deste ano e Julho de 2011.

Mas é em 2012 que a situação dramática no mercado do ar condicionado é mais visível. Em 2011, a Parque Escolar deu uma ajuda nas grandes obras em contraponto com a queda da venda de imóveis na ordem dos 30%. Uma situação que se agravou bastante em 2012. Mas há uma oportunidade decisiva para as empresas: a urgência da reabilitação como factor de poupança e racionalização energética.
É aqui que nos devemos concentrar e onde as medidas e incentivos deverão actuar rapidamente!  Existe um parque edificado enorme a precisar de reabilitação energética e de sistemas e equipamentos mais eficientes. Até Dezembro, a Comissão Europeia fará sair um relatório com a disponibilização de fundos para a área da reabilitação no espaço europeu. Eduardo Maldonado, no âmbito das 12as Jornadas de Climatização da Ordem dos Engenheiros, foi claro: "a reabilitação precisa de incentivos para se dinamizar e o Estado tem que definitivamente dar o exemplo rapidamente". Para o responsável pela transposição da Directiva dos Edifícios, "a implementação da reabilitação tem custos elevados e a situação económica não é favorável".

É certo que a conjuntura não ajuda mas há uma série de medidas que já deviam estar no terreno há muito tempo e que podem ser decisivas também na reanimação do mercado do AVAC . Para começar, é urgente que o Estado olhe para o Programa de Eficiência Energética nos Edifícios da Administração Pública (Eco.AP) com responsabilidade e se comprometa a levar o programa para a frente. Segundo conseguimos apurar, estão previstas novidades durante este mês de Novembro. Este arranque do mercado dos serviços de energia (ver página 28) pressupõe a certificação energética dos edifícios elegíveis e a possibilidade da renovação dos sistemas de climatização e eventual penetração das renováveis. Mas ainda há muito mais por fazer: os edifícios do Estado com mais de 500 m2já deviam estar certificados, um aspecto fulcral para a reabilitação energética deste universo de edifícios; o Fundo de Eficiência Energética tem que funcionar, como forma de apoio a estes impulsos e desbloqueamento de outras medidas e incentivos importantes para a reanimação dos vários mercados. Mas há um aspecto determinante que a nova Directiva para os edifícios vem deixar claro e que tem sido o calcanhar de Aquiles do Sistema de Certificação Energética e Qualidade do Ar Interior (SCE): as inspecções aos equipamentos e sistemas (ar condicionado com potências superior a 12 kW e sistemas de aquecimento e caldeiras com potência superior a 20 kW) nos edifícios já deviam ter avançado no âmbito do SCE. Pelo menos, o nosso parque edificado de serviços está perfeitamente identificado. Há que criar mecanismos de cobertura a esta obrigatoriedade, pelo menos e para já, nos grandes edifícios. Estamos num momento mau, não há dinheiro mas vão existir fundos da União Europeia (UE), existem ainda verbas do QREN e o Fundo de Eficiência Energética pode dar uma ajuda. Precisamos sim é de vontade política e visão dos nossos governantes para estas questões. O potencial de poupança energética dos edifícios com estas medidas e a manutenção de empresas e postos de trabalho destacam-se logo com as primeiras vantagens evidentes.

 

A eficiência energética e o AVAC

A eficiência energética é a tónica e a bandeira da UE para a energia na área dos edifícios. As metas que temos que atingir não podem descurar os sistemas de AVAC nos grandes edifícios e o papel das bombas de calor no residencial como equipamentos renováveis, uma solução cada vez mais importante e com maior expressão.

Num período de recessão como o que estamos a viver, a energia torna-se um factor crítico também para a rentabilidade das empresas, serviços e indústria. A eficiência energética é uma prioridade para a competitividade e é também aqui que a reabilitação energética do parque edificado terá um papel muito importante. É aqui que os sistemas de AVAC também têm um papel determinante! O investimento em novos edifícios está a ser substituído pelo investimento e remodelação dos espaços existentes com vista a ganhos futuros na factura energética. A UE, que com a primeira directiva para os edifícios apostou nos edifícios novos, vem agora corrigir a trajectória e criar mecanismos que facilitem a reabilitação energética como caminho para a eficiência energética. Acontece que esse caminho não se faz sem um correcto dimensionamento e instalação de sistemas de climatização, neste caso da renovação do que já existe e que em muitos casos está obsoleto, não é eficiente e representa custos de funcionamento elevadíssimos e pouco ecológicos nos grandes edifícios. O AVAC é neste ponto uma peça fundamental para a poupança e para a competitividade. É com estes argumentos que o mercado pode contornar as actuais dificuldades. No residencial a situação é idêntica. A prudência e falta de condições financeiras levam as famílias a não mudar de casa e a investirem naquilo que pode estar entre as suas prioridades: o conforto e a diminuição da factura energética. Aqui, o mercado do ar condicionado tem uma vantagem evidente em relação às outras alternativas de climatização: com um investimento menor, os equipamentos de ar condicionado resolvem o aquecimento e arrefecimento dos espaços.

Importa portanto olhar para estes mercados potenciais e enormes e centrar aí as políticas comerciais das empresas. Quem o confirma são as marcas contactadas pela nossa revista que acreditam ser este o único caminho neste momento (ver pág.14). Em contrapartida, o mercado mundial continua a crescer, um indicador importante e motivador (ver caixa).

Regulamentos querem mais eficiência

Como sabemos, um dos grandes objectivos e preocupações urgentes da Europa é a redução do consumo energético. E neste patamar, parte da resposta está na indústria de AVAC com a disponibilização de sistemas e equipamentos novos e mais eficientes. "Com os edifícios a serem responsáveis por perto de 40% do consumo energético e das emissões de gases com efeito de estufa da Europa, todas as regulamentações europeias que abordam a eficiência energética têm impacto no sector dos edifícios, directa ou indirectamente", refere Paul Hodson, chefe da unidade para a Eficiência Energética da Comissão Europeia (ver pág. 66). As Directivas para o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) e a sua revisão, para a Concepção Ecológia (ED) - ou Ecodesign - e para a Etiquetagem Energética (ELD) são as principais ferramentas de Bruxelas neste sentido e as suas disposições têm obrigado também os fabricantes de sistemas de AVAC a colocarem no mercado equipamentos cada vez mais eficientes.

Segundo explica Hodson, enquanto a EPBD exige que os Estados-Membros estabeleçam, a nível nacional, um enquadramento abrangente para a melhoria do desempenho energético dos edifícios residenciais e não residenciais através da definição de requisitos de desempenho energético mínimos para edifícios novos e existentes, as outras duas directivas direccionam-se a grupos de produtos e/ou equipamentos específicos e, no caso da ED, são mesmo definidos requisitos mínimos. "No futuro, vão ser adoptados mais requisitos de ecodesign para produtos que fazem parte dos sistemas técnicos dos edifícios e possivelmente também parte da envolvente do edifício (por ex., janelas)", acrescenta.

No que se refere às exigências de ecodesign, a lei comunitária em vigor data de 2009 e estabelece requisitos para produtos relacionados com consumo de energia, seguindo a lógica "menos impactos significam menos consumo de energia, logo menos custos para as empresas e consumidores finais". A Directiva prevê a acção na fase de concepção do produto, já que é nessa altura que a "poluição originada no seu ciclo de vida é determinada e que a maior parte dos custos surgem". Os parâmetros de ecodesign referem-se a diferentes fases do ciclo de vida do produto, sendo que em cada uma das fases devem ser analisados aspectos, como a previsão de consumos de materiais, energia e outros recursos, emissões para ar, água e solo, poluição, desperdícios de material, possibilidade de reutilização, reciclagem e recuperação de materiais ou energia. Armando Pinto, especialista do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), considera que, ao nível dos edifícios residenciais, o impacto das novas exigências nos produtos de climatização no consumo de energia global do sector será moderado: "nos edifícios de habitação, as principais fontes de energia utilizadas são a electricidade 38%, a lenha 36% e o gás 25%. O consumo de energia nos edifícios de habitação relacionado com a climatização é de sensivelmente 23% (22% para aquecimento), dos quais 35% tem origem na utilização de lenha, sendo por isso de esperar um impacto moderado" (ver pág. 70). No entanto, há um potencial significativo nos edifícios de serviços - "nestes edifícios, o consumo de energia da climatização tem uma importância relativa maior do que sucede nas habitações, sendo de esperar um impacto relevante dos requisitos de ecodesign na eficiência energética deste sector, que já é abrangido por medidas nos motores eléctricos, ar condicionado (até 12 kW), bombas, circuladores, iluminação e equipamentos diversos", refere o especialista.

A etiquetagem energética, cuja missão é informar os consumidores sobre quais os gastos energéticos dos produtos, foi reformulada em 2010, para se aplicar também a "produtos relacionados com a energia que têm um significativo impacto directo ou indirecto no consumo de energia durante a sua utilização", podendo "reforçar as potenciais sinergias entre os diplomas legais existentes, em especial com a Directiva 2009/125/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 21 de Outubro de 2009, relativa à criação de um quadro para definir os requisitos de concepção ecológica dos produtos relacionados com o consumo de energia".

Muito em breve, uma nova regulamentação junta-se à EPBD, ED e ELD. Trata-se da Directiva para a Eficiência Energética (EED), cujo objectivo é voltar a colocar a Europa no caminho para cumprir a meta de 20% de eficiência energética em 2020. Depois de mais de um ano de negociações, a lei comunitária já foi aprovada pelo Parlamento e Conselho Europeus e espera-se agora a sua publicação em Jornal Oficial (ver pág. 64).

 

Bombas de calor e a eficiência energética

O facto de a Directiva para as Renováveis (2009) considerar as bombas de calor como tecnologias de energia renovável abre uma janela de oportunidade para esta indústria, tornando-as numa solução limpa. Mas não só, também "o art.6º da EPBD exige que os Estados-Membros garantam que os sistemas de elevada eficiência alternativos, incluindo as bombas de calor, sejam considerados para os novos edifícios. Isto significa que, antes de se começar uma nova construção, a viabilidade técnica, económica e ambiental desses sistemas devem ter sido avaliados e tidos em conta", diz Hodson. As bombas de calor assumem-se cada vez mais como uma solução atractiva.

Em termos de mercado mundial, a utilização de bombas de calor está a crescer. De acordo com a BSRIA, o crescimento foi de 31% em 2011 e deverá manter este ritmo em 2013: as previsões apontam para uma subida de 33%. Mas, também aqui, o resultado positivo deve-se essencialmente aos mercados fora da Europa, em particular, o asiático.

Na Europa, a força das regulamentações não consegue ainda contrariar a crise económica. Segundo dados da Associação Europeia para as Bombas de Calor (EHPA), o mercado conseguiu evitar a recessão em 2011, ficando-se por valores semelhantes aos registados em 2010. Nesse ano, as vendas de bombas de calor em 20 países europeus atingiram as 770.757 unidades, subindo ligeiramente para 771.504 em 2011.

"Apesar de ser muito cedo para falar de uma reviravolta, a tendência subjacente durante o primeiro semestre de 2012 sugere um mercado em recuperação", aponta o secretário-geral da EHPA, Thomas Nowak, num artigo publicado no REHVA Journal.

Para Nowak, um crescimento mais lento do que o que é esperado neste sector vai ter um efeito negativo nas potenciais melhorias da eficiência energética global. Para além do efeito directo da crise, segundo o responsável, outros factores contribuíram para este abrandamento do mercado: menor disponibilidade de intervenção dos governos, com maiores restrições orçamentais que levaram à suspensão de incentivos e outros mecanismos de apoio; a descoberta de mais reservas de gás, a exploração de gás de xisto e a inauguração do gasoduto Northstream aliviaram a pressão sobre os preços do gás, o que aproximou os valores dos custos de operação das caldeiras a gás aos dos das bombas de calor. O especialista aponta ainda que os preços da electricidade aumentaram em muitos países europeus, "muitas vezes em resultado do facto de que, em vários países, as tarifas feed-in são financiadas via consumidor final".

Com um volume de negócios anual superior a 6,1 milhões de euros, o sector emprega actualmente mais de 35.000 pessoas. Para 2012, as estimativas da indústria são positivas, tendo como base os resultados do primeiro semestre, diz Nowak. "O ambiente do mercado é ainda difícil, mas as condições de enquadramento estão a melhorar. Toda a nova legislação referente à energia reconhece a tecnologia das bombas de calor como sendo eficientes e utilizando energia renovável", antevê. "As bombas de calor são também uma parte indispensável das infra-estruturas de redes inteligentes previstas, equilibrando a procura e a oferta. Os esforços da indústria resultam em soluções cada vez mais confiáveis, rentáveis e fáceis de instalar para praticamente todos os campos de aplicação", refere o representante da EHPA.

 

 

 

Bombas de calor na Europa em 2011

- 771.504 unidades vendidas;

- 5,72 TWh de energia renovável no mix energético;

- 1,3 Mt de emissões de gases com efeito de estufa evitados;

- Redução de 7,32 TWh de energia final e 3,37 TWh de energia primária;

- Entre 2005 e 2011 foram instaladas 4,5 milhões de unidades de bombas de calor.

 

Caixa

O mercado europeu e o mundial

Apesar do clima económico desfavorável actual, o mercado de AVAC mundial parece estar a dar sinais de recuperação. De acordo com a BSRIA, em 2011 o mercado mundial de ar condicionado cresceu 16%.

Os melhores desempenhos continuam a verificar-se na região da Ásia-Pacífico, com o mercado a registar 48,2 mil milhões de vendas (36,4 mil milhões de euros) em 2011, o que representa 55% do mercado mundial. A Ásia destaca-se não só nas vendas, mas também na produção de equipamentos: os dados mostram que, em 2011, cerca de 70% dos equipamentos de ar condicionado do mundo foram produzidos na China. Por outro lado, a América do Norte e a Europa continuam a sentir os efeitos da crise económica e o crescimento afigura-se mais lento. De acordo com a BSRIA, o impacto das regulamentações europeias para os edifícios, nomeadamente na exigência da sua maior estanquidade, começa já a reflectir-se nas vendas dos segmentos, com um aumento do mercado das unidades de tratamento de ar (UTA). As exigências levam à necessidade de uma maior ventilação e também de equipamentos UTA normalizados mais pequenos que possam ser instalados em projectos de nova construção ou grandes reabilitações. As vendas de UTA com recuperação de calor estão também a aumentar.

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