Aquecimento - Temos mais frio nas nossas casas
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O mercado do aquecimento é um espelho das dificuldades económicas que se vivem. Estamos mais pobres ao nível do conforto e a procura não acompanha a tecnologia disponível. A deficiente envolvente dos edifícios é outra barreira para o conforto térmico das nossas casas.

 

 

O frio voltou este ano a marcar um inverno rigoroso e que empurra para segundo plano o conforto das famílias portuguesas. A grave crise económica continua a ser uma barreira e a qualidade de vida das pessoas está a andar para trás. Recorde-se que um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2012 aponta para a pobreza energética de 28% das famílias portuguesas. Ou seja, perto de um terço das nossas casas não estão devidamente aquecidas no inverno. Os rendimentos baixos, a deficiente construção e a subida da energia estão na base desta realidade também na Europa, onde se estima que 125 milhões de cidadãos europeus estejam afectados por este problema. Em Espanha, 15% das habitações têm uma temperatura abaixo dos 18 graus no inverno, de acordo com a Confederación de Consumidores y Usuários (CECU), que denuncia a proliferação de doenças causadas pelo frio. Embora estes dados sejam de 2012, tudo indica que esta situação não se tenha alterado em 2013 do lado dos consumidores.

Cá em Portugal, esta realidade explica-se, em primeiro lugar, pela falta de qualidade construtiva das nossas habitações ou pela necessidade de implementação de medidas de melhoria do lado da eficiência energética. Os preços da energia são uma barreira enorme mas o conforto térmico do nosso parque edificado passa também pela necessária reabilitação, num primeiro momento, e só depois estamos em condições de incorporar as tecnologias mais adequadas para o aquecimento. Para Abril de 2014, Portugal e os restantes Estados-Membros deverão apresentar uma estratégia a longo prazo para a dinamização da reabilitação e  respectiva mobilização de investimentos. O nosso PNAEE (Plano Nacional para a Eficiência Energética) incorpora algumas medidas e já foram lançados alguns Avisos no âmbito do Fundo de Eficiência Energética. O potencial de poupança na Europa é de 70% para 2050, segundo o BPIE (Buildings Performance Institute Europe). E o sector residencial representa 75% do parque edificado europeu. É portanto impossível dissociar as carências de conforto térmico das necessidades do lado da reabilitação. Enquanto não atacarmos o problema da reabilitação com responsabilidade, as nossas casas vão continuar frias no inverno e a pobreza energética está para ficar.

 

Antes do aquecimento

Do lado das famílias podem ser dados passos importantes antes da escolha sobre a melhor tecnologia (ver infografia), nomeadamente a sensibilização para os correctos usos da energia e algumas medidas ao nível dos comportamentos. Importa atacar o problema de base, nomeadamente os aspectos construtivos, as janelas e caixilharias e investir em isolamentos que permitam manter a casa aquecida. Do ponto de vista dos sistemas activos, estes deverão estar integrados com outros sistemas de regulação inteligente que tenham em conta a temperatura exterior de forma a evitar desperdícios de funcionamento ou potências desnecessárias. A reabilitação energética tem que começar por aí se queremos de facto ter conforto, eficiência e uma redução nas nossas necessidades energéticas. Já não existem soluções isoladas para o problema do conforto térmico e qualidade do ar no interior das habitações.

Sobre o chapéu da eficiência energética, são várias as iniciativas e programas que sensibilizam os cidadãos para estas questões. Aliás, esta área dos aspectos construtivos e melhoria da envolvente assume-se como prioritária numa nova visão da energia nos edifícios. Em Portugal, o SEEP – Sistema de Etiquetagem Energética de Produtos, embora não sendo obrigatório, promove uma série de recomendações e acções na área das janelas eficientes através de um sistema de classificações que aponta para ganhos de desempenho e poupança energética. O Fundo de Eficiência Energética – Aviso Edifício Eficiente, com 2 milhões para as janelas eficientes e solar térmico, fechou a apoiar cerca de 1500 fogos. A iniciativa Jessica, um instrumento da UE que ajuda os EM a aceder a fundos comunitários, disponibilizou 136 milhões para projectos de regeneração urbana onde se incluem projectos de reabilitação energética. As Câmaras Municipais desdobram-se em iniciativas e a Estratégia de Reabilitação Urbana para Lisboa 2011-2024, onde se enquadra a área de reabilitação de edifícios, é um dos exemplos. No município do Porto, também o Plano de Acção para a Energia Sustentável visa explorar o potencial de melhoria energética na reabilitação do edificado da cidade capitalizando na experiência adquirida no Guia de Termos de Referência para Reabilitação de Edifícios no Centro Histórico. Estas e outras iniciativas são fundamentais mas revelam-se insuficientes para resolver o nosso problema. A solução pode passar por incentivos fiscais ou outros que levem os portugueses a tomarem medidas.

 

O mercado

O ajustamento é inevitável e as empresas estão a viver um mau momento agravado pela quase inexistência de novas construções. Mas a reabilitação e a substituição dos tradicionais sistemas por novas tecnologias mais eficientes do lado da poupança são o caminho para a manutenção de um mercado que timidamente começa a recuperar.

Para a AFIQ – Associação de Fabricantes e Importadores de Equipamentos de Queima, a conjuntura é idêntica à do ano passado com a agravante da queda do solar térmico (ver pág. 46) que afecta directamente o mercado do aquecimento. Neste domínio, estamos a andar para trás e para valores de mercado de 2007.

Segundo estes responsáveis, a retracção foi generalizada e marcou o primeiro semestre de 2013. Em contrapartida, os últimos meses do ano deram um empurrão e a procura apareceu. Ainda segundo Joaquim Meneses, presidente da AFIQ, “o aumento dos preços do gasóleo são incomportáveis, o que tem ajudado o mercado da reconversão ou substituição de caldeiras”. Aqui, este empresário destaca a biomassa no topo da procura. “Os recuperadores de calor e as caldeiras a pellets acabam por ser a solução mais barata e por isso aquela que tem tido uma maior procura. As bombas de calor vêm logo a seguir”.

Na sequência de um inquérito feito a algumas empresas, o factor preço está a condicionar a escolha das soluções por parte dos consumidores, não havendo uma perspectiva de investimento de médio prazo. Em termos gerais, a perspectiva de escolher o que é sustentável também não está nas prioridades das pessoas que optam pelo equipamento que, naquele momento e da forma mais barata, resolve ou ajuda a minimizar o problema. Em jeito de conclusão, porventura, teremos que esperar por uma conjuntura mais favorável de forma a recuperar o tempo perdido e voltar a entrar no caminho de progresso e mais amigo do ambiente. O argumento da eficiência energética e a redução dos consumos mesmo num curto espaço de tempo ainda não está a dar os resultados que se esperavam.

 

 

Como podemos aquecer as nossas casas?

  • Sistemas passivos

Esta solução está, desde logo, condicionada pelos planos de urbanização no que se refere à construção urbana e posterior orientação das casas que nem sempre é a ideal. Em casas de raiz é mais fácil implementar um conjunto de medidas que pretende tirar o máximo aproveitamento da envolvente, do clima e da radiação solar. Pretende-se ainda que, ao nível dos aspectos construtivos, as casas ou prédios reduzam, ao máximo, as suas necessidades energéticas: fachadas, isolamentos, caixilharias, janelas e sistemas de ventilação passivos. 

Na reabilitação, ou seja na maioria dos casos o potencial de intervenção é mais reduzido. Nas casas viradas a sul, recomenda-se a abertura de janelas no período de exposição solar e apenas no caso de as temperaturas serem superiores a 5 graus. O objectivo é aquecer ao máximo as superfícies de forma a reter o calor que mais tarde se vai libertando e aquecendo a casa. Neste caso o recurso a paredes de trombe no início da obra ou em intervenções de reabilitação são uma solução muito eficaz. Pelas suas características (espessura nunca inferior a 20cm), as paredes de trombe têm a capacidade de acumular o calor proveniente da radiação solar durante as horas de exposição.

 

  • Sistemas activos

Dentro dos sistemas activos temos as caldeiras, bombas de calor, solar térmico e painéis fotovoltaicos. O objectivo é o mesmo e sempre que possível recorrer a sistemas de aquecimento que promovam o aquecimento das superfícies e o ambiente interior.

a) Sistemas solares térmicos - transformam a radiação solar directamente em energia térmica para o aquecimento de águas. Para efeitos de aquecimento, os sistemas solares térmicos devem  ser utilizados e integrados com uma segunda fonte de calor (esquentador, termoacumulador, caldeira...), funcionando como um sistema híbrido que é automaticamente accionado para compensar a falta da primeira fonte de calor – o sol. Esta solução pode ainda ser combinada com as tradicionais formas de aquecimento das casas – aquecimento central, piso e tecto radiantes...

 

b) Bomba de calor - a bomba de calor é um equipamento que transfere calor de uma fonte (ar exterior, solo, água de um lago, de um rio ou da toalha freática), normalmente a uma temperatura mais baixa, transportando-o, a uma temperatura mais elevada (ar ambiente, água para aquecimento, ou outro fluido intermédio). Hoje em dia praticamente todos os aparelhos de ar condicionado utilizam este princípio.

c) Caldeiras - uma caldeira é um aparelho que serve para aquecer um circuito de água que pode ser utilizado para aquecimento de águas quentes sanitárias e ambiente interior ou ambos. Quanto ao combustível, as caldeiras podem ser eléctricas, a gás, a gasóleo ou biomassa.

    Caldeiras convencionais - caldeiras que trabalham a temperaturas entre 70 a 80 graus.

    Caldeiras de baixa temperatura - caldeiras que trabalham a temperatura à volta dos 50 graus. 

    Caldeiras de condensação - caldeiras de alto rendimento, baseadas no aproveitamento do calor de condensação dos gases resultantes da combustão, isto é, o vapor de água que integra os gases de combustão é em parte condensado, recuperando-se assim uma fracção do calor latente, que no caso das caldeiras clássicas, é totalmente evacuado com os produtos da combustão.

d) Sistemas combinados - aquecimento e arrefecimento ambiente e ainda aquecimento de águas sanitárias.

A integração de sistemas de captação de energia solar térmica com bombas de calor e/ou caldeiras para climatização e água quente sanitária faz-se através de um acumulador. O aquecimento da água do depósito acumulador faz-se sempre que exista disponibilidade do sistema solar podendo ser complementado pela bomba de calor ou caldeira. No verão este depósito funciona apenas para a preparação da água quente sanitária, pois o arrefecimento fica a cargo da bomba de calor a funcionar para arrefecimento. Para obtenção de uma boa eficiência energética, devem utilizar-se sistemas de emissão a baixa temperatura, e.g., pavimento radiante, o que permite um melhor desempenho da bomba de calor, ou a utilização de caldeira de condensação, pelo que a temperatura do acumulador não deve ser superior a 40ºC, devendo neste caso a temperatura de utilização final da água quente sanitária ser garantida pela utilização de, por exemplo, um esquentador.

 

A pobreza energética europeia [caixa]

As estatísticas europeias colocam em evidência a necessidade de accionar medidas de combate à pobreza energética, através de definições e enfoques comuns a toda a União Europeia. Só na Europa, um total de 125 milhões de pessoas são afectadas pelo frio e vivem em condições de conforto deficitárias. Se recuarmos a 2010, a base de dados Estatística do Rendimento e das Condições de Vida na União Europeia (EU-SILC) indica que 30% da população portuguesa admitia não ter a capacidade de manter as habitações aquecidas, sendo que só a Bulgária obteve piores resultados. Na mesma linha, está a vizinha Espanha que, de acordo com um estudo das Asociación Ciencias Ambientales, desde o começo da crise financeira observou-se um aumento de aproximadamente 5% para 8% de habitações incapazes de manter temperaturas adequadas, a par com o aumentou do número de famílias que despendiam mais de 10% dos seus rendimentos no consumo de energia doméstico. A Irlanda acompanhou esta tendência, em relatórios oficiais referentes a 2009, existindo 317 mil habitantes a gastar acima de 10% do seu rendimento para aquecimento, encontrando-se 151 mil em pobreza energética severa e 83 mil em pobreza energética extrema. No caso francês, o último estudo a nível nacional aponta 3,8 milhões de casas (14,4%) que estão numa situação preocupante. No entanto, o relatório recente sobre pobreza energética, lançado pelo Departamento para a Energia e Alterações Climáticas britânico, revelou a extinção da problemática em 0,25 milhões de casas em 2011, quando comparado com as 4,5 milhões de residências que encontravam em pobreza energética em 2010.

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