MIT: ?Queremos desenvolver o conceito dos serviços energéticos?
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"Queremos desenvolver o conceito dos serviços energéticos"

Paulo Ferrão, National Director do MIT Portugal, é ainda o responsável pela área dos sistemas sustentáveis de energia ligada aos edifícios. O primeiro objectivo é formar com excelência os futuros líderes da energia e a estratégia passa pela mudança de paradigma, " passarmos a olhar em primeiro lugar para a procura", para os serviços energéticos por si só. Um novo conceito com vista à eficiência e redução dos consumos. "Depois vamos querer casar tudo isto com as micro redes", onde o Parque das Nações é um bom exemplo.

As pessoas têm alguma curiosidade sobre o projecto MIT Portugal nesta área dos sistemas sustentáveis de energia do lado dos edifícios...

O MIT Portugal é sempre e desde logo um esforço em formar pessoas. É uma aposta nas pessoas e nesse sentido o que se pode esperar deste projecto é que junte do lado dos formadores os melhores académicos que existam em Portugal com os do próprio MIT, o que por si só já é uma riqueza. Estas pessoas têm como missão formar os futuros líderes na área da energia. Tudo isto se passa a 2 níveis: temos um programa de doutoramento e de mestrado. É também importante que se diga que a formação do MIT Portugal está focada na integração de tecnologias e não apenas numa tecnologia ou noutra em particular. O desafio é o de saber como é que se podem integrar as tecnologias numa lógica económica rentável para promover um sistema energético mais sustentável e eficiente.


Uma das 4 áreas de intervenção...

Exactamente e dentro desta área temos algumas especializações, como por exemplo o planeamento energético que inclui o aspecto económico, temos a energia no edificado urbano que aponta para os sistemas urbanos sustentáveis e outra especialização mais virada para as micro redes, redes energéticas, ou seja, em como os sistemas podem funcionar no seio destas redes. Nestas 3 matérias queremos desenhar um sistema diferente e melhorar o que existe. Temos uma primeira fase de modelação dos sistemas energéticos em que vamos simular e aferir o impacto do que estamos a fazer. Depois temos que ter ferramentas mais desenvolvidas para tratar e optimizar a utilização de energia no meio urbano. Repare, é necessário conhecermos o metabolismo das cidades, dos meios urbanos para podermos actuar também ao nível energético e esse conhecimento passa por um levantamento de indicadores, que possa aferir o desempenho de futuras redes energéticas. É necessário, neste âmbito, conhecermos o fluxo de materiais e de energia nas cidades para apontar caminhos em termos de sustentabilidade. E, aqui, estou a falar em podermos fechar os ciclos ou seja, em saber como promover mais a reciclagem por exemplo, ou optimizar os transportes... Como é que podemos ainda integrar os aspectos energéticos numa lógica urbana, à semelhança do que acontece no Parque das Nações. Depois, dentro desta área passamos para os edifícios para nos  concentrarmos na simulação térmica, na sua vertente passiva. Na vertente activa, temos por exemplo que olhar para a microgeração. Também muito importante e que representa um dos esforços mais inovadores é a gestão da procura para a compatibilizar melhor com a oferta de energias mais limpas, ao tentarmos gerir de uma forma optimizada o consumo de energia de uma casa para que o sistema reaja de uma forma integrada com o fornecimento e com a venda...


Já lá vamos...

Depois temos ainda a área das micro redes que acreditamos vir a ser o futuro.

As desejadas cidades autónomas energeticamente... Na prática o MIT está virado para a formação e promoção do conhecimento.

O que tudo isto quer dizer na prática e para lhe dar alguns números, ao fim de 2 anos já temos cerca de 80 alunos em fase de doutoramento na área da energia.

E quem é responsável pelos conteúdos desses doutoramentos?

Esse é um aspecto importantíssimo. Mas uma das grandes vitórias que temos é que ao fim deste tempo temos um número inédito de alunos em doutoramento distribuídos pelas várias Universidades parceiras onde se procura juntar os aspectos económicos aos aspectos tecnológicos. O Programa tem esta componente educacional e ao nível dos doutoramentos, os alunos fazem projectos de investigação quase sempre em ligação com tópicos relevantes para empresas...

Fazendo o link para o mercado.

Exactamente e depois temos ainda aquilo a que chamamos os Mestrados Executivos que são pessoas de empresas que vêm cá durante 1 ano fazer formação, de um modo geral, pós laboral.


E quanto à investigação?

Nós queremos que a investigação seja feita com as empresas e a favor da economia. Aliás, uma forma de trabalhar muito próxima do MIT.  Neste sentido temos um programa que juntou um conjunto de empresas e onde se discute e decide sobre as áreas prioritárias a desenvolver em termos de projecto. Temos uma rede de empresas como a EDP, a Galp, a Martifer, a Efacec...

Os alunos dão seguimento a esses projectos...

São os alunos que vão, numa segunda fase do doutoramento, desenvolver estes projectos. Os alunos têm um primeiro ano de aulas depois têm cerca de 3 anos dedicados à investigação. Um destes anos de investigação é feito no próprio MIT, nos EUA, os outros são feitos cá e em cooperação com as empresas. Neste momento temos 2 grandes projectos a decorrer: um sobre os sistemas urbanos sustentáveis e outro a que chamamos o "green island" no qual procuramos demonstrar que é possível ter um sistema energético mais sustentável e neste caso estamos a trabalhar na Ilha de S. Miguel

Auto sustentável?

Isso é completamente impossível para já, desde logo porque o consumo de combustíveis para transportes representa  mais de metade dos consumos energéticos de toda a ilha. Estamos a tentar do lado eléctrico aumentar para mais de 80% a contribuição das energias renováveis para a electricidade da ilha mas para isso também vão contar os edifícios e a ligação aos transportes.


Porquê o MIT? Ou seja, do lado da energia e da eficiência energética, a Europa está muito mais avançada ao nível deste tipo de preocupações, regulamentação etc... Para além de que a tradição energética dos EUA é a antítese da sustentabilidade. Todos estes conceitos são importados do MIT?

Não, é tudo desenvolvido cá. Mas repare que os EUA nos últimos anos, ao nível politico têm estado muito alheados destes temas. Agora, se formos à Califórnia temos dos regulamentos mais avançados do mundo. Quanto à investigação e mesmo sobre estes temas, o MIT é uma referência. Mas é bom sublinhar que ao nível da integração de sistemas e sustentabilidade dos sistemas energéticos, nós não estamos atrás deles e essa é uma das razões pela qual eles também querem cooperar connosco. É claro que esta colaboração é muito importante para o desenvolvimento de trabalhos específicos nos quais em muitos casos o MIT é líder internacional.

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Como por exemplo?

Tudo o que sejam sistemas de controlo, modelação de edifícios, electrónica... e nestas áreas temos uma cooperação mais activa. Nós não estamos a importar conhecimento, estamos a partilhar conhecimento com uma Nação que não tem estado muito activa nestes domínios mas também não tem estado a dormir. Grande parte da investigação e até dos desenvolvimentos tecnológicos têm sido em empresas americanas.

Entrando mais em pormenor na área dos sistemas sustentáveis de energia para os edifícios e em termos de conteúdos, quais os conceitos transmitidos? Ou seja, qual o fio condutor em termos de conhecimento que se procura fazer passar?

Logo em primeiro lugar e sem qualquer dúvida, o que queremos mudar no paradigma dos alunos e na sociedade, é passarmos a olhar em primeiro lugar para a procura. O paradigma que temos hoje aponta para empresas que oferecem produtos energéticos. Temos por exemplo uma Galp que fornece gás e produtos combustíveis e temos uma EDP que vende electricidade.


E nós somos uns consumidores passivos...

E nós consumimos passivamente mas neste sentido: se construirmos mais prédios e usarmos mal a energia, estamos a engordar o negócio destas empresas que vendem necessariamente mais. É claro que neste paradigma é difícil de promover a eficiência energética. Mas se queremos actuar na eficiência energética, temos que actuar claramente do lado da procura e para tal temos que quebrar uma barreira dificílima que é explicar ao utilizador que não precisa de electricidade ou de gás. O que precisa são serviços energéticos. E estes serviços energéticos são o quê? O calor, o frio, a energia mecânica (para equipamentos, electrodomésticos...), a iluminação... Isto é basicamente o que nós precisamos num edifício. O que é importante transmitir aos alunos é que estes serviços podem ser prestados  seguramente com muito menos consumo de energia se olharmos para o edifício de uma forma diferente. Começa logo na construção e para isso passamos os conceitos de simulação térmica de edifícios, a importância que tem um desenho adequado das janelas, dos caixilhos... e depois, passando para a frente, temos a integração dos serviços energéticos. Por exemplo, se temos um edifício onde precisamos de calor e electricidade, faz todo o sentido promover a cogeração. Aqui e em conjunto com as empresas, estamos a tentar passar a mensagem que tem mais lógica para uma empresa deixar de pensar em fornecer gás ou electricidade e passar a fornecer estes serviços. Uma empresa, no momento em que passar a cobrar e fornecer estes serviços onde por exemplo passe a cobrar pela iluminação das salas, pelo fornecimento do calor e frio necessário aquele edifício..., esta empresa passa a ganhar e a integrar os processos de conversão. Ou seja, se por exemplo, ela integrar ainda um painel solar fotovoltaico com um equipamento de micro cogeração, conjugado com um painel solar térmico... o edifício passa a consumir muito menos e a empresa não perde dinheiro, porque assegura o mesmo negócio. Se houver um operador a vender estes serviços integrados e com maior eficiência, as contrapartidas em termos de negócio são evidentes.


Estamos a falar em fornecimento de energia localmente para cada edifício?

Exactamente. Aquilo que passamos aos alunos e que é necessário desenvolver é este conceito de serviços energéticos.

Já temos alguns casos de empresas a funcionar desta forma lá fora? Os alemães já abordam este modelo...

Temos poucos casos destes internacionalmente. Há experiências que já se começam a fazer também aqui em Portugal. Agora, temos vários casos quando temos um complexo novo a nascer...Estes modelos estão a ser muito desenvolvidos em grandes empresas como é o caso da Siemens na Alemanha.

Como a rede energética da Expo do Parque das Nações?

Como essa rede que é um bom exemplo. Aqui, aquilo que se está a testar é a possibilidade de através destes alunos e líderes do futuro amadurecer estes modelos para que possamos estar na vanguarda destes conceitos. Aliás este é um dos grandes objectivos do MIT Portugal. Depois vamos querer casar tudo isto com as micro redes. Se eu tiver um edifício com um microcogerador a produzir energia eléctrica, vou precisar de uma rede que saiba gerir o edifício não só como consumidor mas também produtor. Este conceito das micro redes exige a nível nacional um tipo de gestão completamente diferente da energia.

Esta é a tendência que prevê para os próximos anos?

Eu espero que seja uma tendência inalienável.


O MIT Portugal está a trabalhar também com outros países europeus? Quem está nesta rede de partilha de conhecimentos?

O MIT Portugal enquanto programa tem ligação aos EUA, o MIT em Boston,  mas obviamente que tem também ligações com outros países. Ainda a semana passada estivemos numa reunião na Suíça promovida pela Alliance for Global Sustainable, que reúne as Universidades de Tóquio, o MIT, Challmers. na Suécia e o ETH na Suíça, em que demos a conhecer o trabalho que estamos a fazer. Também aqui vejo a Alemanha como um pioneiro nesta matéria que aliás já têm várias experiências piloto que envolvem resultados muito interessantes.

E as empresas por cá como estão a reagir a estas iniciativas?

Estão a reagir muito bem. Temos com a GALP um projecto a correr, o Sustainable Urban Energy Systems, em que estamos a aprofundar estas questões partindo da modelação térmica dos edifícios com base numa tipologia tipo de edifícios que sejam representativos da cidade de Lisboa. Depois vamos tentar ver, em Lisboa, qual o potencial de racionalização de energia, ou seja o que podemos poupar se forem efectuados diferentes níveis de medidas a aplicar, nomeadamente na reabilitação urbana... Temos que estar consciente do que estamos a falar: a diferentes níveis de actuação correspondem diferentes investimentos, mas no seu todo um investimento em soluções racionais na utilização de energia tem potencial para ser um bom investimento. As empresas podem adaptar o seu modelo de negocio de forma a dar resposta a estas novas necessidades, e isso irá resultar para Lisboa numa poupança energética que será possível mensurar.

Esse projecto já está a avançar?

Já estamos a trabalhar...


Qual o objectivo prático deste estudo? É possível vir a ser posto em prática?

O Programa MIT Portugal é um Programa que visa capacitar as Universidades portuguesas e contribuir para que elas se desenvolvam nestas áreas mas não deixa de ser um programa virado para a formação de recursos humanos de excelência. E há aqui outro aspecto que não deixa de ser crítico em qualquer parte do mundo que são os objectivos claros do MIT Portugal e que apontam para a produção de conhecimento que sirva ao mercado e às empresas em geral e que deve ser publicado e divulgado. Neste contexto é trabalho que resulta no benefício do conhecimento destas empresas e que elas próprias têm que aprofundar e desenvolver. Não nos compete a nós o que vem a seguir do lado comercial relacionado com o próprio negócio das empresas. A nós compete-nos produzir e disponibilizar o conhecimento sólido e útil. Eu espero que estes trabalhos resultem em algo de visível. O que tem acontecido mesmo no MIT nos EUA é que os próprios alunos capitalizam esses conhecimentos e tecnologias e formam as suas próprias empresas. Como resultado deste programa nós queremos que aconteça inovação, que apareçam alunos com novas ideias e que as implementem... e tudo isto são caminhos possíveis para os quais estamos a trabalhar.

Quem são tipicamente os alunos no IMT Portugal?

Temos alunos de perfis muito variados e de diversos países como finlandeses, gregos, italianos, suíços... para além dos portugueses que são a maioria. De um modo geral são engenheiros electrotécnicos, do ambiente, mecânicos, de física tecnológica... mas também temos economistas, arquitectos...Existe muita multidisciplinaridade na procura.

E como encara essa diversidade?

Acho que é óptimo.

As áreas do conhecimento já não podem ser estanques...

Esse é um dos grandes objectivos deste programa. Mas para que tudo funcione é ainda preciso um quadro regulamentar diferente.


Está a referir-se à electricidade?

O quadro tarifário é um exemplo porque eu posso desenvolver  um edifício altamente eficiente, que tenha capacidade de disponibilizar energia à rede e de gerir em tempo real a procura de energia, mas se não existirem vantagens reais para o utilizador e promotor, nada muda e nada é viável. Um dos esforços que temos vindo a criar é o de contribuir com novas soluções para a regulação energética e novos tarifários. Por exemplo, porque não termos tarifários instantâneos em função da procura de energia? Estamos a trabalhar neste tipo de modelos e nas vantagens reais que podem trazer. Repare, o que nós queremos é tornar o sistema mais sustentável o que significa aumentar a penetração das renováveis. O problema das renováveis não está ligado à falta de recursos mas sim à sua intermitência natural. Se eu tiver um edifício que é suportado por energias renováveis, como vou compatibilizar a oferta de energia que é altamente instável com as necessidades energéticas? Só tenho 2 caminhos: recorro ao armazenamento energético que é uma solução ainda cara e que ambientalmente não é a mais aconselhável, ou centro-me na gestão da procura  - na prática, no momento em que eu tenha abundância de energia, o edifício consome mais mas quando essa abundância baixa eu tenho que estar preparado para baixar os consumos sem que isso prejudique o sistema energético. Este é um conceito que está a ser desenvolvido em larga escala na Alemanha e Inglaterra. Ou seja, temos que trabalhar no conhecimento profundo de cada edifício de forma a podermos monitorizar cada carga, seja ela referente a equipamentos, fotocopiadoras, electrodomésticos, etc... tenho um chip em cada sítio que me permite perceber o que estou a gastar. Estamos já a desenvolver sistemas que nos permitem monitorizar todos estes consumos, juntar a informação também sobre a actividade das pessoas e começar a fazer um controlo que nos permita, no fim do processo, desligar ou baixar a intensidade de alguns equipamentos que não façam falta e gerir a procura de forma a que a aproxime mais da oferta que temos.

Estamos a falar de sistemas de controlo altamente evoluídos...

Estamos a falar de um sistema de gestão da procura que vai ao pormenor. As micro redes fazem sentido se eu percorrer este caminho. Se nós tivermos um sistema que nos permita modelar nem que seja 20% estamos a falar numa poupança enorme para o pais. O MIT Portugal é isto, é pensar o sistema todo no conjunto com especial enfoque nos edifícios que são responsáveis por uma parcela enorme deste consumos.


Falou em alunos em regime pós laboral que vêm das empresas...

Temos alunos que vêm de empresas muito variadas como Galp, EDP, Siemens, um piloto da TAP, um responsável da Embaixada Americana... São pessoas que decidiram usar esta formação para progredir em termos de conhecimento ou de área. Temos também casos de engenheiros do ambiente que querem redireccionar o seu foco para a área da energia.

E para os profissionais da área da climatização como projectistas... vê utilidade?

Esta formação não é a indicada para o projecto de climatização porque vai muito mais longe. Agora, para uma pessoa que queira perceber quais os sistemas do futuro, a sua integração... olhar para o edifício que é uma parte destes sistemas de uma forma diferente e mais abrangente em termos energéticos, então estes conhecimentos fazem todo o sentido para abrir os horizontes e trazer ideias novas. Já os cursos de doutoramento têm muito interesse para pessoas que já tenham conhecimentos técnicos na área da climatização e que queiram alargá-los.

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