Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 152 da Edifícios e Energia (Março/Abril 2024).

A cidade de Évora foi uma das escolhidas para integrar o POCITYF, um projecto de cidades e comunidades inteligentes que quer pôr os centros históricos no centro do debate para a transição energética. Vidros fotovoltaicos e telhas fotovoltaicas, com aspecto similar ao dos materiais comuns, vêm revolucionar a forma como se olha para o património, que era, anteriormente, algo quase intocável. Soluções inovadoras e pioneiras num projecto único a nível europeu e internacional.

Évora foi uma das cidades escolhidas para o projecto europeu POCITYF. A cidade por­tuguesa, em conjunto com Alkmaar, nos Países Baixos, dá o ponto de partida para aquilo que se espera implementar noutras cidades históricas pela Europa, sendo que seis de­las – Granada (Espanha), Bari (Itália), Celje (Eslové­nia), Ujpest (Hungria), Ioannina (Grécia) e Hvidovre (Dinamarca) – estão a replicar as ideias e soluções encontradas para a cidade portuguesa e para a neer­landesa. Este projecto quer dar nova vida aos centros históricos, fazendo com que estes não fiquem para trás na implementação de novas tecnologias mais sustentáveis nos edifícios e com que ajudem não só o próprio município como todos os seus habitantes a pouparem. Além disso, quer dar também a estes in­tervenientes a possibilidade de terem uma participa­ção activa nas soluções implementadas na cidade.

O objectivo é transformar cidades históricas em ci­dades inteligentes, mais verdes, mais sustentáveis e mais preparadas para as novas tecnologias. Isto tor­na-se num desafio, uma vez que as características dos edifícios, como as fachadas, não podem ser alteradas. Existem, portanto, algumas barreiras legais que têm de ser ultrapassadas através de novas soluções sus­tentáveis que continuem a respeitar a herança histó­rica e cultural do local. Évora é a única cidade portu­guesa considerada como uma cidade museu, logo, é a ideal para abraçar este projecto.

Mágui Lage, gestora de projectos na EDP New, em­presa que está responsável pela coordenação da ini­ciativa, e Nuno Bilo, engenheiro mecânico na câmara municipal de Évora, são os Lighthouse City Managers [gestores das cidades-farol] do projecto-piloto de Évora. A iniciativa teve início em 2019 e estava pen­sada para terminar em 2025. No entanto, com uma pandemia pelo meio, o processo atrasou ligeiramente e terá mais nove meses para além do esperado, num investimento total de 22,5 milhões de euros. A cidade portuguesa conta com o apoio de 9,8 milhões de eu­ros, dos quais 8,1 milhões de euros são entregues pela Comissão Europeia. Numa altura em que falta pouco mais de um ano para o projecto terminar, já são visí­veis alguns avanços, assim como algumas expectati­vas positivas para o renovado futuro da cidade.

Para Mágui Lage, a principal dificuldade é “a ques­tão regulatória, [sendo] que o município de Évora está a tentar lutar muito para conseguir ultrapassar [esta questão] e [conseguir] instalar as soluções”. Nuno Bilo concorda e acrescenta: “Já sabíamos que ia ser difícil, mas com a pandemia as coisas complicaram­-se muito.”

A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA NOS CENTROS HISTÓRICOS

O engenheiro mecânico destaca que o POCITYF “visa dar oportunidade a cidades históricas de poderem também elas participar na transição energética”, sem que percam a sua identidade. Évora tem já mostrado que quer traçar o seu caminho em relação ao comba­te às alterações climáticas, tornando-se numa cidade mais sustentável. Um exemplo disso é que esta cida­de histórica está já a implementar as primeiras redes inteligentes de electricidade em Portugal. Este é um sinal claro de que é possível conjugar soluções mo­dernas e inovadoras, continuando a valorizar as tra­dições da cidade, assim como os valores patrimoniais a ela inerentes.

Sendo o centro histórico de Évora considerado pa­trimónio mundial pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cul­tura, em português), desde 1986, “não é possível im­plementar soluções fotovoltaicas convencionais para a produção de energia eléctrica” nesta zona, explica Nuno Bilo. Assim, é necessário encontrar outras so­luções que sejam “compatíveis com o edificado, com o património e com os materiais existentes”, tornando o processo mais “moroso”, acrescenta.

O projecto pode ser dividido em várias áreas, po­lítica, urbanística, social, tecnológica e económica. Em relação à primeira área, destaca-se, desde logo, o primeiro desafio, já que tiveram de ser pedidas vá­rias autorizações à Direcção-Geral da Cultura para a implementação destas novas soluções. Mágui Lage explica que a própria legislação “proíbe a implemen­tação de painéis solares fotovoltaicos visíveis no cen­tro histórico”, o que cria “desigualdades” para quem lá vive em relação às pessoas que se encontram fora desses limites. A área urbanística explica-se pelo ob­jectivo de replicação daquilo que for implementado nas cidades-farol, ou seja, Évora e Alkmaar. A área tecnológica está relacionada com as soluções imple­mentadas nos edifícios e com a própria inovação do projecto. Por último, as áreas social e económica estão bastante interligadas, já que pretendem “colocar o ci­dadão no centro”. Com o apoio dos fundos europeus é, então, possível investir num projecto que pretende também combater as desigualdades. “Não podemos ter a ilusão de que podemos ter uma cidade históri­ca totalmente preservada, imaculada e sem qualquer tecnologia e, depois, ter pessoas cá a viver”, afirma Nuno Bilo.

AS SOLUÇÕES INOVADORAS TESTADAS NA CIDADE ALENTEJANA

Destacam-se, então, quatro pólos de acção nos Ener­gy Transition Tracks (ETT´s): promover os bairros de energia positiva, com foco nos edifícios e na renova­ção de energia; ter infraestruturas flexíveis, por exem­plo, as baterias de segunda vida e o armazenamento e a gestão da solução peer to peer; apostar na eMobility, ou seja, a integração da mobilidade eléctrica na rede inteligente, focada no carregamento inteligente e na flexibilidade para aumentar as poupanças; e dinami­zar uma inovação que seja citizen-driven [conduzida pelo cidadão], de forma a desenvolver soluções para as pessoas se sentirem também parte do processo. Um exemplo dado por Mágui Lage é uma “plataforma que mostra às pessoas o que se passa com a cidade em termos de temperatura, humidade, trânsito, etc.”.

O POCITYF em Évora tem três zonas de acção: o centro histórico (zona 1), a aldeia de Valverde (zona 2) e ainda o parque industrial e comercial (zona 3). Tal como já foi referido, a primeira zona de acção implica ultrapassar várias adversidades e ser criativo na forma de pensar sobre como implementar soluções sem que isso afecte os edifícios visualmente. No centro da ci­dade, existem cerca de 2 590 edifícios, pouco mais de 3 540 alojamentos e perto de 4 740 residentes, numa área de 113 hectares. Já Valverde contrasta, tendo apenas 450 habitantes e 200 edifícios, na sua maio­ria, residenciais. Apesar de ser uma aldeia, já tem de­monstrado ser um pólo atractivo para soluções sus­tentáveis. Aliás, é considerado um “hub de inovação” quanto a projectos europeus orientados para a ener­gia. O parque industrial e comercial totaliza uma área de 8 900 m2 de edifícios do parque de ciência e tec­nologia de Évora e ainda 3 833 m2 de área comercial. Assim, o projecto abrange também uma grande área que inclui supermercado, lojas e estacionamento.

Quanto ao centro histórico, a aposta está em vidros fotovoltaicos e telhas fotovoltaicas em edifícios mu­nicipais. Em relação aos materiais utilizados, podem destacar-se cinco. Uma é a Tegosolar PV, que vai ser utilizada para as coberturas de parques de estacio­namento e da Arena de Évora. Outra é a Tradicional PV Shingle, ou seja, telhas fotovoltaicas muito seme­lhantes em termos de aspecto às telhas tradicionais frequentes nos centros históricos – a textura é rugosa e a cor é similar, isto é, ao barro –, pelo que foi uma solução muito bem recebida pela Direcção-Geral da Cultura, comentam os coordenadores. As restantes são a Skylight PV, a Canopy PV e a PV Glass.

Estas três últimas soluções referem-se aos vidros fotovoltaicos, com tecnologia de silício cristalino ou amorfo, cuja utilização será feita a nível de cobertu­ras, janelas, clarabóias ou pérgulas, nomeadamente em oito edifícios municipais. Estes vidros são translú­cidos e podem inclusive ter cores, algo importante no Mercado Municipal da cidade. Para manter o aspecto visual e estético, estas soluções têm de corresponder ao pormenor a todos os critérios daquilo que já existia na cidade, por isso, “tem de haver um compromisso entre a tecnologia e a protecção de património”, des­taca Nuno Bilo.

Fora do centro histórico, mas com uma relação di­recta a ele, está uma quinta solar comunitária. Um antigo aterro sanitário municipal irá, agora, dar lugar a uma central comunitária que irá produzir energia renovável. Desta forma, “as casas do centro histórico que não possam ter qualquer solução fotovoltaica te­rão a possibilidade de aceder, na modalidade de auto­consumo, à energia produzida nessa central”, explica Nuno Bilo. Isto faz com que edifícios que não podem ser intervencionados tenham também um painel solar fotovoltaico, mas em vez de este estar no telhado, por exemplo, está nesta quinta solar comunitária, exis­tindo, assim, uma “produção descentralizada”, algo que Nuno caracteriza como “pioneiro”. Em relação ao custo para o utilizador, este apenas pagará “uma fracção do custo do quilowatt que pagaria se pagasse a [energia a] um comercializador”. Isto traz benefícios para o consumidor, que se quisesse instalar um pai­nel solar no seu edifício teria de pagar essa instalação, algo que não acontece na quinta solar.

Mágui Lage, da EDP New, destaca os painéis solares fotovoltaicos desta quinta solar como aquilo que terá mais impacto na diminuição da factura de electricida­de. Quanto à solução que impulsiona a tecnologia e poderá ser um passo importante para o futuro, Mágui destaca os painéis solares fotovoltaicos integrados na construção (BIPV, na sigla em inglês), sendo também estes um ponto fulcral do projecto.

“As casas do centro histórico que não possam ter qualquer solução fotovoltaica terão a possibilidade de aceder, na modalidade de autoconsumo, à energia produzida nessa central [uma quinta solar comunitária que irá surgir num antigo aterro sanitário].”

Nuno Bilo

Em Valverde, na zona dois, o maior desafio, diz Má­gui Lage, são as campanhas de engagement [envolvi­mento] de clientes residenciais. Já foram instaladas na aldeia baterias de segunda vida e vão ser também instalados contentores da solução pay as you throw, que tem como objectivo o incentivo à reciclagem, uma vez que o cidadão, quanto mais reciclar, menor taxa irá pagar pela recolha de resíduos. Além disto, tam­bém será implementada a plataforma peer to peer, que permite a troca de energia entre pessoas. Estas campanhas de engagement fazem com que a própria população também faça parte do projecto e das so­luções implementadas. “É bom sentir que aquilo que estamos a fazer vai ter um impacto directo na vida das pessoas”, refere Mágui Lage.

Já na zona três, sendo uma grande área com edifícios que consomem muita energia, o desafio principal está em conseguir com que estes alcancem “produtivida­de energética”, mas, para isso, “é necessária também muita produção”, afirma a engenheira da EDP New.

Com três zonas de diferentes características, mais ampla é a área de trabalho para que se retirem con­clusões com base em vários contextos. Para o enge­nheiro mecânico Nuno Bilo é também importante que após este “teste” em Évora se possam começar a produzir estas soluções também em Portugal. Todas as soluções são bastante caras, por isso, quanto maior a produção, menor será o preço final. “Temos no pro­jecto soluções muito inovadoras, muito diferentes e muito ricas”, descreve Mágui Lage.

OS IMPACTOS PRESENTES E FUTUROS DO POCITYF EM ÉVORA

As comunidades de energia não estão esquecidas neste projecto. Além da criação destes bairros de energia positiva, nas três zonas já referidas, é também um objectivo ter uma comunidade de energia em cada um destes bairros. Mágui Lage adianta que a zona três, ou seja, a do parque industrial e comercial, está “em vias de ser licenciada”.

Aliado às soluções inovadoras, o projecto abarca também outros marcos, como a diminuição das emis­sões de carbono.

Sendo o POCITYF também muito ligado às pes­soas e à sua capacitação, é importante despertar a população para estas novas soluções e para os seus impactos. Nuno Bilo refere que quem vive no centro histórico se tem mostrado bastante “interessado” e quer utilizar estas soluções – há até alguns casos de quem queira investir. Além disso, o projecto vai fazer com que aqueles que ainda não estavam tão atentos às questões das alterações climáticas e à importância da transição energética passem a estar.

Uma capital de distrito no interior do país, com muita história e cultura, torna-se agora um pólo de inovação e tecnologia. Mostra-se ao mundo com so­luções nunca vistas em cidades históricas, tornando­-se ainda mais atractiva. As desigualdades são derru­badas com novas abordagens e novos materiais que são implementados nos edifícios; e, juntos, permiti­rão àqueles que vivem no centro histórico beneficiar também da resposta e preparação da cidade para um futuro mais sustentável, bem como de uma ajuda no combate à pobreza energética, já que muitos têm de passar por “sacrifícios a nível do conforto, dos custos, dos transportes, dos acessos…”, explica Nuno Bilo.

Assim, o POCITYF permite também dar uma nova vida ao centro histórico e àqueles que lá vivem, já que esta população passa agora a ter as mesmas possibi­lidades que outras que vivem em cidades mais mo­dernas.

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